Um tema delicado, porém que ainda carrega um ar de mistério e muitas dúvidas em volta. O filme Amém (Amen) de Costa-Gavras, lançado em 2002, aborda sobre a relação entre o Papa Pio XII e o Terceiro Reich. Tema até hoje muito debatido, onde diversos setores defendem a ideia da omissão do Papa perante o holocausto. Na oportunidade o Pontífice teria adotado um papel extremamente egoísta e mesquinho. A partir deste contexto Costa-Gravas, famoso por filmes com um debate político aprofundado, nos apresenta uma obra no mínimo polêmica em uma construção cinematográfica eficiente.
Kurt Gerstein (Ulrich Tukur) é um oficial do Terceiro Reich que trabalhou na fabricação do Zyklon B - gás mortífero desenvolvido para a matança de pragas, mas usado para exterminar Judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial - quando descobre de que forma o gás desenvolvido por ele vem sendo usado, Kurt se revolta e tenta informar os Aliados sobre as atrocidades que acontecem nos campos de concentração. Gerstein também tenta informar a Igreja Católica, mas suas denúncias são ignoradas pelo alto clero, apenas um jovem Jesuíta lhe dá ouvidos, Riccardo (Mathieu Kassovitz), e o ajuda a organizar um campanha para que o Papa se manifeste contra as atrocidades ocorridas.
Com um discurso forte e polêmico, Costa-Gavras nos guia por um ambiente torpe e perigoso. Somos conduzidos por uma Alemanha sob domínio nazista, onde atrocidades e perseguições fazem parte da rotina. Com um discurso politizado, Amém mistura fatos reais e ficção na narrativa, por exemplo, Kurt Gerstein existiu e foi graças ao depoimento dele que o holocausto foi realmente confirmado. O tom adotado por Costa é extremamente funcional, na medida que envolve o espectador com os fatos e o instiga a pesquisar sobre o tema. Em Amém o discurso adotado além de polêmico é duro e pontual: a obra expõe a diplomacia como um elemento mais importante do que a salvação de milhares de pessoas. Somos ambientados em um universo extremamente interesseiro e corrupto, uma atmosfera podre, onde uma das mais importantes representações ocidental, a Igreja Católica, se apresenta com um dos protagonista e um mediador necessário em conchavos políticos.
O filme de 2002, além de apresentar um enredo instigante e atrativo, é composto por elementos cinematográficos eficientes. A composição música/imagem é extremamente funcional e as atuações são boas, com destaque para o doutor interpretado por Ulrich Muhe. Costa-Gavras utiliza uma atmosfera polêmica para compor um filme muito bom. A cena de abertura, por exemplo, é muito bem feita e nos prepara de forma forte para o restante da película. Um filme no mínimo polêmico que coloca a burocracia como verdadeiro protagonista de uma guerra. O jogo de interesses dita o ritmo, onde o controle das marionetes vai de acordo com os tratados. É desta forma que se apresenta Amém. Uma obra necessária e obrigatória.