Um filme seco, seja pela fotografia cinzenta e melancólica, de um amarelo e rudeza quase nuclear ou pela frieza do protagonista. É interessante notar como Kieslowski descreve imageticamente o estado totalitarista da Polônia, mostrando ela sempre acinzentada, vazia.
Atenção especial a cena angustiante do assassinato, é interessante como Kieslowski nos faz sentir um alívio pelo protagonista quando ele finalmente mata o taxista, pois ele senta no carro, se alimenta, escuta uma música e sorri. E isso me fez lembrar uma reflexão do Notas do Subsolo 'mas é no desespero que acontecem os prazeres mais intensos, especialmente quando você já percebe muito fortemente que sua situação não tem saída', e talvez seja isso o motivo da ataraxia frente ao recém assassinato.
Não Matarás é uma excelente crítica e reflexão sobre o papel do estado e, consequentemente, do sistema judiciário cruel. E que nos remete uma reflexão - até que ponto os atos de um indivíduo passam a se tornar responsabilidade e problema do/para o estado, levando em conta a consequente inflexibilidade na aplicação da lei? Também parece haver mesmo uma certa influência existencialista, como bem notaram, de O Estrangeiro do Camus, do personagem frio e indiferente a própria vida, que se limita a vagar por uma polônia desértica de vida, até que comete um crime e é condenado à pena de morte.