Melilla, um enclave espanhol no Marrocos, é uma fronteira terrestre entre o continente africano e a Europa. Uma zona tampão onde se veem as políticas migratórias europeias, os seus desafios e as suas consequências. Um lugar onde se agrupam os migrantes do Magreb. Eles são “aqueles que queimam”. Eles não têm mais nada a perder, exceto o desejo de viverem até o fim.
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Relutei bastante em iniciar a sessão: sabia que o filme funcionaria comigo (algo no currículo do diretor soava indubitavelmente atrativo), mas a duração me assustava. Lendo alguns comentários elogiosos e dispondo de um tempo forçado após a apuração eleitoral, arrisquei - e fui deveras recompensado: é um filme duro (com seqüências fortíssimas de abandono urbano e ingestão de substâncias alucinógenas improvisadas), mas também poético, conforme antecipa o título. A despeito do extremo realismo do registo, há um flerte recorrente com as estéticas de vanguarda. Vide a maneira com que as cenas mui demoradas são atropeladas pelos 'jumpcuts'. Solidarizamo-nos com aqueles garotos e, mesmo que não haja nenhuma intervenção a cargo da narração, captamos a denúncia política da obra, seja na abordagem de tradições franquistas ainda em prática naquela cidade seja pela própria condição usurpada em relação ao território marroquino. A fotografia é sublime, para compensar a pauperização das condições de vida dos rapazes. Difícil de ser visto, mas tão qualitativo quanto necessário! (WPC>)