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Buscando eternamente a "Chasse Spirituelle" de Rimbaud e, portando-se como tal: entre uma divagação e outra, "ethos anthropos daimon".

Últimas opiniões enviadas

  • Luís Felipe Ferrari

    A nota é apressada, mas estou tão admirado com esse filme que quero fazê-la. Talvez tenha gostado tanto de "Passion" porque vejo nele o compromisso político que eu mesmo sempre desejei assumir. A cada vez que vejo outro filme de Godard, mais admiro não só o seu conhecimento e sua exploração do cinema e sua integridade de verdadeiro autor, mas a beleza de suas opiniões e a beleza que ele é capaz de criar das conjunções mais disparatadas, como se soubesse fazê-la nascer do vazio de um mundo cada vez menos capaz de permiti-la.
    E "Passion" é um filme modernista com todo o rigor de quem deseja pensar a sua arte nos fundamentos de sua técnica e na sua posição na sociedade. É um ensaio de cinema político, que discute, a cada cena, a própria possibilidade de uma cena. Sua solução – filmar a filmagem de um filme – é arguciosa, permite ao cineasta tratar de seu métier sem ter de infringir a diegese da ficção, sem fazer com que a arte, deixando de ser arte, torna-se ensaística. Ora, em "Passion"¸ Godard faz, a todo momento, de seu filme uma parte daquele outro filme que vemos ser filmado: num infindável mise-en-abîme que parece não conhecer limites – pense-se, por exemplo, naquela bela cena em que assistimos à atriz assistindo a si mesma e avaliando a sua performance numa tela de produção, cheia de vergonha e de pudor –, a trilha sonora de "Passion" é explicada como trilha do estranho projeto cinematográfico que acompanha; as divagações do diretor fictício parecem servir de comentários ao filme que de fato estamos assistindo; e que dizer daquela atravancada busca por uma história que nunca parece pronta para ser contada?
    Todo "Passion" parece constituir, como o sofisticado projeto do fictício diretor, que está sempre insatisfeito, uma busca pela imagem. E que melhor maneira de tratar da imagem do que tomando por modelo algumas das maiores obras da história da pintura? Mas é aí que se encerra o grande problema formal que deve ser enfrentado pelo diretor: a imagem pictórica representa um momento particularmente interessante de uma ação, faz da luz e da iluminação incidente a matéria daquilo que se revela aos olhos do pintor, mas a imagem cinematográfica é de uma natureza completamente outra: ela é tempo e movimento, é, por assim dizer um decurso, e não um instante. Talvez venhamos a descobrir que, se a pintura moderna sempre representou o cogito, existe uma qualidade fundamentalmente anti-metafísica no cinema. Como bem observou Alain Badiou, o cinema deseja dominar a aparência, quer controlar o aparecimento. Não é isso mesmo que é posto em questão ao fazer o tableau vivant de Delacroix ou de Ingres? Com a estratégia dos tableaux vivants, a matéria da arte deixa de ser o que aparece ao olho para se tornar os homens, que se movem e se escondem. E é com muito humor que Godard faz com que o diretor do filme dentro do filme – Jersy, das poucas personagens nomeadas – se julgue a todo momento impossibilitado de filmar porque a luz do estúdio não é adequada. Ela não pode ser adequada porque a cada momento, um movimento imperceptível de um ator, uma oscilação da lâmpada ou do cenário, um sopro, enfim, irá exigir toda uma nova configuração das luzes. E ela nunca será adequada porque o que o cinema deve captar nunca poderá ser a mesma coisa que um pintor deve capturar.
    Se o trabalho do cineasta é fundamentalmente diferente do trabalho do pintor, Godard me parece estar de fato propondo um problema: o problema da possibilidade da imagem cinematográfica. O que é, afinal, aquilo que o cinema pode e deve filmar? Qual é a sua matéria? E a resposta que ele mesmo oferece em paralelo à sua deliciosa apresentação do problema – não duvidemos que todos os tableaux vivants são um ato de prazer para o cineasta – é também o seu compromisso político, é o belo humanismo que surge evocando, de modo muito elogioso, o Solidariedade polonês. O objeto do cinema, sua beleza particular, é o homem, e não as coisas. Por isso, suas cenas são ininterruptas, são longos takes sem interrupções que duram de uma ação ao apressado início de outra – e haveríamos de nos perguntar também por que é que as cenas de "Passion" nunca terminem de verdade – enfocando as expressões faciais, a presença corporal de um e de outro indivíduo. É o espetáculo da intimidade que interessa a "Passion"¸ o palco de um rosto e de uma conversa privada. As mais belas cenas de "Passion", e que tomam boa parte do tempo do filme, são aqueles em que duas pessoas, filmadas deste ou daquele ângulo sempre oblíquo, conversam ou discutem, em que os problemas político-econômicos de que falam parecem se tornar, por uma mágica formal, um assunto pessoal.
    Me parece que é essa a “paixão” de que fala: essa dedicação ao homem, de um cinema feito sobre o homem e que serve de forma de arte para uma política à qual, como diz, trabalhar é amar e amar é trabalhar. Pois, com diz em outro momento: são os homens, e não a ficção, que são as histórias, e um diretor só pode filmar o que ele viveu. E não é, afinal, ele mesmo que, esfaqueado, derrama o sangue que ele diz não haver no mundo, coerente com o sangue que se derramou na Polônia? A solidariedade é, por assim dizer, o tema desse filme, é a visão que Godard parece ter das teses marxistas, mais próximas da filosofia de juventude de Marx do que seu pensamento tardio. Mais francesas, também, unindo, na forma da solidariedade, a vida individual e seu compromisso com o mundo.
    Por outro lado, já faz muitos anos que Godard não se interessa por contar uma história de fato. Ele parece ter estado mais interessado em desenvolver problemas urgente de nossa época com a seriedade de seu cinema.

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  • Luís Felipe Ferrari

    O bom terror costuma fazer um bom trabalho em expor aquilo que nós, e o mundo, recalcamos. Tira sua razão-de-ser dos pavores do imaginário coletivo, dos complexos pessoais, do funcionamento da cognição e da percepção, levando-as a excitações da sensibilidade, a rigor, perturbadoras. É por isso sempre interessante quando um diretor se dispõe a fazer um trabalho sério com um filme de terror. Kubrick explorou magnificamente bem o funcionamento de nossa fantasia em “O Iluminado”, brincou até o limite com nossas capacidades de duvidar de algo, de mantermo-nos distanciados e críticos, até o ponto em que se fez necessário mergulharmos no redemoinho da loucura; há, também, os filmes do Hitchcock, que, como se costuma dizer, manipulava sua audiência como quem toca um instrumento musical. Mas é possível também fazer um filme de uma situação política, da atmosfera de tenção que, de alguma forma, sobressaiu-se sobre uma comunidade. Em “Um Lugar Silêncioso”, as feras assassinas respondem ao mais ínfimo ruído. As práticas interpessoais, o convívio comunitário deve ser reduzido a um mínimo, de modo que os núcleos familiares se isolam e se fecham em si, adaptando seus costumes para um mundo perigoso, onde as coisas devem ser feitas às escondidas. A atmosfera de perseguição implica, então, que os hábitos e os valores devam ser preservados a todo custo num mundo que não os aceita.

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    A família reza em silêncio diante da mesa, o pai ensina seu filho a prover para a casa para quando ele já não estiver vivo ou disposto, a filha deve ficar em casa cuidando da mãe e do lar; no extremo, a mulher tem a ousadia de engravidar, sabendo o quão insustentável é ter um parto e criar um bebê num mundo de tal forma repressor. E escolhe não abortar, levando a imagináveis peripécias para que a criança possa nascer.


    É, na verdade, um filme sobre a manutenção da família tradicional americana em tempos de extrema crise. Não seria, por sinal, válido lembrar que vivemos em tempos de crises imigratórias, de cerceamentos individuais e recrudescências populistas? Com efeito, essa breve premissa faz lembrar muito do discurso chauvinista de Donald Trump e sua necessidade de preservar os supostos valores norte-americanos dos inimigos silenciosos que se inventaram – o que me faz crer que “A Quiet Place” seja, talvez, o filme mais conservador dos últimos anos.

    Na verdade, até mesmo as suas aventuras estéticas são conservadoras. Faz um trabalho infinitamente inferior ao nosso “O Som ao Arredor”, este sim uma obra de liberdade artística profunda, que trabalha a presença dos ambientes urbanos a fim de assustar-nos com o quão terríveis e desumanas são as metrópoles. Mas aqui, nem tanto uma obra sobre o silêncio como sobre a tensão que antecede o som, o que me parece um equívoco crucial que levianiza sua melhor ideia, a atmosfera subordina-se a uma trama vazia e aos infindáveis clichês de um gênero a que o filme se filia sem nenhuma originalidade temática, para a frustração das expectativas que gerou.

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  • Luís Felipe Ferrari

    Há certo parnasianismo em todo artista sério: não apenas a atenção à técnica e à tradição é um requisito para sua qualidade, mas todo artista que quiser ser fiel a seu talento, parece, precisa abdicar, em parte, da vida. Mesmo Arthur Rimbaud, que desejava escrever desentranhando da experiência sua realidade mais íntima, abandonou a poesia quando a decepção tornou-se maior do que a verdade. Baudelaire estava muito correto ao descrever o poeta como um albatroz, sublime e maravilhoso nos céus, mas desajeitado e esquisito na terra; sua opção, porém, por fechar-se com o papel e a pena em seu gabinete, completamente afastado de um mundo decadente, por mais que por tantas vezes desejemos imitá-lo, é frívola e ingrata.

    Essas divagações tão estreitas podem soar sem lugar, quando se deve indicar a atuação extraordinária de J. K. Simmons, o excelente bom-gosto de seu diretor e a coerência da câmera com a ação. São talvez estreitas demais, para um enredo que é muito objetivo. No entanto, a amargura do mundo talvez seja o fardo sagrado dos artistas; e nisso Andrew é sublime em dois sentidos: primeiro, pelo sacrifício a que se entrega, incansável, atrás da performance perfeita – algo sempre impossível –, que o leva, tantas vezes, à mutilação física, e nisso "Whiplash" é similar ao mais perspicaz “Cisne Negro”; segundo, pela decisão difícil de barganhar sua vida na louca ambição de ser “one of the greats”.

    O ensandecimento promovido pelos sacrifícios e pela extenuação dilacera o seu talento, que não pode ser redimido por um eventual sucesso. Está muito claro qual o desfecho dessa busca: é a loucura, o fechamento completo ao mundo e o escape do espírito na arte, ao menos até que a desilusão sempre mais insatisfeita o leve a recorrer a medidas mais drásticas. A conversa da família na mesa mascara no contraste dos valores burgueses e da profissão-de-fé da arte um equívoco crucial. Sim, esses mundos são fundamentalmente antagônicos, mas não apenas a arte não está alheia à vida que a origina, como o artista não pode acolher em si toda as suas aspirações. A decisão tomada por Andrew

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    de continuar a tocar, com o desvairismo surdo e megalomaníaco da cena final,

    não significa que a dedicação e o talento triunfem sobre a mediocridade e o sobre o excesso; ele não revidou o realismo amargo de seu pai nem o despotismo de seu professor; significa apenas que ele escolheu morrer a ser feliz.

    O abuso psíquico de Fletcher com seus alunos é certamente o objeto mais interessante desse filme. Sua ambição, tão intensa e apaixonada, de criar um Charlie Parker não merece o desfecho que obtém, pois ou se é um Charlie Parker ou não se é; não que os gênios nasçam como tal, pelo contrário: os gênios se fazem, longa e arduamente, transformando em realização uma potência interior, estranha e antiga. Mas não será nenhum Terence Fletcher que vai consegui-lo.

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  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/

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