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Buscando eternamente a "Chasse Spirituelle" de Rimbaud e, portando-se como tal: entre uma divagação e outra, "ethos anthropos daimon".

Últimas opiniões enviadas

  • Luís Felipe Ferrari

    O bom terror costuma fazer um bom trabalho em expor aquilo que nós, e o mundo, recalcamos. Tira sua razão-de-ser dos pavores do imaginário coletivo, dos complexos pessoais, do funcionamento da cognição e da percepção, levando-as a excitações da sensibilidade, a rigor, perturbadoras. É por isso sempre interessante quando um diretor se dispõe a fazer um trabalho sério com um filme de terror. Kubrick explorou magnificamente bem o funcionamento de nossa fantasia em “O Iluminado”, brincou até o limite com nossas capacidades de duvidar de algo, de mantermo-nos distanciados e críticos, até o ponto em que se fez necessário mergulharmos no redemoinho da loucura; há, também, os filmes do Hitchcock, que, como se costuma dizer, manipulava sua audiência como quem toca um instrumento musical. Mas é possível também fazer um filme de uma situação política, da atmosfera de tenção que, de alguma forma, sobressaiu-se sobre uma comunidade. Em “Um Lugar Silêncioso”, as feras assassinas respondem ao mais ínfimo ruído. As práticas interpessoais, o convívio comunitário deve ser reduzido a um mínimo, de modo que os núcleos familiares se isolam e se fecham em si, adaptando seus costumes para um mundo perigoso, onde as coisas devem ser feitas às escondidas. A atmosfera de perseguição implica, então, que os hábitos e os valores devam ser preservados a todo custo num mundo que não os aceita.

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    A família reza em silêncio diante da mesa, o pai ensina seu filho a prover para a casa para quando ele já não estiver vivo ou disposto, a filha deve ficar em casa cuidando da mãe e do lar; no extremo, a mulher tem a ousadia de engravidar, sabendo o quão insustentável é ter um parto e criar um bebê num mundo de tal forma repressor. E escolhe não abortar, levando a imagináveis peripécias para que a criança possa nascer.


    É, na verdade, um filme sobre a manutenção da família tradicional americana em tempos de extrema crise. Não seria, por sinal, válido lembrar que vivemos em tempos de crises imigratórias, de cerceamentos individuais e recrudescências populistas? Com efeito, essa breve premissa faz lembrar muito do discurso chauvinista de Donald Trump e sua necessidade de preservar os supostos valores norte-americanos dos inimigos silenciosos que se inventaram – o que me faz crer que “A Quiet Place” seja, talvez, o filme mais conservador dos últimos anos.

    Na verdade, até mesmo as suas aventuras estéticas são conservadoras. Faz um trabalho infinitamente inferior ao nosso “O Som ao Arredor”, este sim uma obra de liberdade artística profunda, que trabalha a presença dos ambientes urbanos a fim de assustar-nos com o quão terríveis e desumanas são as metrópoles. Mas aqui, nem tanto uma obra sobre o silêncio como sobre a tensão que antecede o som, o que me parece um equívoco crucial que levianiza sua melhor ideia, a atmosfera subordina-se a uma trama vazia e aos infindáveis clichês de um gênero a que o filme se filia sem nenhuma originalidade temática, para a frustração das expectativas que gerou.

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  • Luís Felipe Ferrari

    Há certo parnasianismo em todo artista sério: não apenas a atenção à técnica e à tradição é um requisito para sua qualidade, mas todo artista que quiser ser fiel a seu talento, parece, precisa abdicar, em parte, da vida. Mesmo Arthur Rimbaud, que desejava escrever desentranhando da experiência sua realidade mais íntima, abandonou a poesia quando a decepção tornou-se maior do que a verdade. Baudelaire estava muito correto ao descrever o poeta como um albatroz, sublime e maravilhoso nos céus, mas desajeitado e esquisito na terra; sua opção, porém, por fechar-se com o papel e a pena em seu gabinete, completamente afastado de um mundo decadente, por mais que por tantas vezes desejemos imitá-lo, é frívola e ingrata.

    Essas divagações tão estreitas podem soar sem lugar, quando se deve indicar a atuação extraordinária de J. K. Simmons, o excelente bom-gosto de seu diretor e a coerência da câmera com a ação. São talvez estreitas demais, para um enredo que é muito objetivo. No entanto, a amargura do mundo talvez seja o fardo sagrado dos artistas; e nisso Andrew é sublime em dois sentidos: primeiro, pelo sacrifício a que se entrega, incansável, atrás da performance perfeita – algo sempre impossível –, que o leva, tantas vezes, à mutilação física, e nisso "Whiplash" é similar ao mais perspicaz “Cisne Negro”; segundo, pela decisão difícil de barganhar sua vida na louca ambição de ser “one of the greats”.

    O ensandecimento promovido pelos sacrifícios e pela extenuação dilacera o seu talento, que não pode ser redimido por um eventual sucesso. Está muito claro qual o desfecho dessa busca: é a loucura, o fechamento completo ao mundo e o escape do espírito na arte, ao menos até que a desilusão sempre mais insatisfeita o leve a recorrer a medidas mais drásticas. A conversa da família na mesa mascara no contraste dos valores burgueses e da profissão-de-fé da arte um equívoco crucial. Sim, esses mundos são fundamentalmente antagônicos, mas não apenas a arte não está alheia à vida que a origina, como o artista não pode acolher em si toda as suas aspirações. A decisão tomada por Andrew

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    de continuar a tocar, com o desvairismo surdo e megalomaníaco da cena final,

    não significa que a dedicação e o talento triunfem sobre a mediocridade e o sobre o excesso; ele não revidou o realismo amargo de seu pai nem o despotismo de seu professor; significa apenas que ele escolheu morrer a ser feliz.

    O abuso psíquico de Fletcher com seus alunos é certamente o objeto mais interessante desse filme. Sua ambição, tão intensa e apaixonada, de criar um Charlie Parker não merece o desfecho que obtém, pois ou se é um Charlie Parker ou não se é; não que os gênios nasçam como tal, pelo contrário: os gênios se fazem, longa e arduamente, transformando em realização uma potência interior, estranha e antiga. Mas não será nenhum Terence Fletcher que vai consegui-lo.

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  • Luís Felipe Ferrari

    A ambiguidade no tratamento de Patton lembrou-me muito da ambiguidade com que Lean fez seu Lawrence. Mas lá ela funcionou muito bem; aqui, a complexidade do caráter do general, me parece, pedia outra coisa que não os cenários vastos e solitários – a ironia do homem que dizia não haver tal coisa como um indivíduo, mas era dominado pelo isolamento e pela ambição não é sustentada – e a câmera fixa. De resto, a ambiguidade parece sempre se resolver no triunfo inevitável que, embora passageiro, fixou-se na história. Por sinal, somente numa concepção muito limitada e reacionária é que um rebelde não pode ser herói, e Patton é apresentado como um herói, sem muita crítica para chegar até aí.

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  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/