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Cruz das Almas, BA (BRA)
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Reformulo Clarice Lispector:
Cinema "não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca."

Últimas opiniões enviadas

  • Cristiano Contreiras

    Pratos à mesa. Não é a toa que a primeira sequência exibe bem a tônica que o formato narrativo decide externar: a aparente harmonia familiar em um almoço de um dia qualquer, solar e íntimo, que se converte em indisposições e dores antigas - culminando na chuva que desaba literalmente sobre os pratos, talheres e corpos frente a frente em discussões calorosas. Laís Bodanzky expõe a ferida através do olhar diante da relação de pais e filhos.

    Só que o senso de sentimentalismo aqui foge do aspecto de união ou “afago”, evidenciando o apreço pela melancolia e desconstrução de cada um - em especial a transformação da personagem de Maria Ribeiro que norteia o sentido que o cênico narrativo quer nos fornecer: a mulher que descobre que não é filha do pai que a criou; a representação do feminino independente, na era em que o feminino age com atitude e busca pelo seu idealismo frente à sociedade que a tolhe.

    Mas, ironicamente, se descobre fragmentada no casamento sem diálogo afetivo (o marido defendido por um Paulo Vilhena bem sólido em cena), ou na fragilidade que se apresenta com a ausência de interação com sua mãe (Clarisse Abujamra, natural e precisa). Bondansky utiliza a instabilidade emocional e do mundo que parece ruir ao redor desta mulher de 38 anos que simboliza o indivíduo da atualidade, permeado de inseguranças e desalento familiar. Sem trilha sonora intrusiva e modulações pra provocar algo, é o trabalho de direção mais maduro da cineasta.

    “Não quero mais fingir que sou uma mulher que dá conta de tudo. Eu não dou conta de tudo", diz em dado momento a mulher que precisa estabelecer um sentido em seu mundo - Maria Ribeiro se despe em uma atuação sincera, com propriedade e humana, sem medo de errar no tom. Como encontrar-se e ter um eixo numa vida que parece perder o sentido? Algumas perguntas são lançadas neste roteiro sensato sobre núcleos familiares que se desajustam e pessoas que mesmo com laços de sangue, parecem preservar exímias desconexões. Ao passo que os personagens parecem buscar um alento entre eles, é que o roteiro expõe esse processo de crescimento e maturidade. Um filme que exibe as angústias dos reflexos de relações entre mãe e filha; anseios pessoais e memórias familiares que merecem ser preservadas.

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  • Cristiano Contreiras

    “O que pode ser descrito com palavras não tem nada a ver com o real”. A angústia do desejo. Ou quando a infidelidade parece um impulso presente. Sang-soo, aqui, reforça que até para o âmbito do olhar masculino - existe a consequência da fragilidade do desejo. Através do protagonista (o ótimo Kwon Hae-Hyo), com toda sua melancolia visível, observamos o centro de seu conflito: a entrega ao que sente.

    Os alicerces da traição masculina são expostos em um microcosmo: temos o editor em um casamento de abandono; a relação que chega ao fim com a sua amante e o aflorar de um novo tesão com a sua nova funcionária (Kim Min-hee, fetiche do cineasta, que protagonizou anteriormente o “Na Praia À Noite Sozinha”). A fotografia monocromática, fixada em tons de brilhos claros, e manipulações de câmeras estáticas que vai e vem nos habituais zooms característicos do Soo, permanecem próximos aos diálogos que seus personagens promovem em cena.

    A aparente “trivialidade” exposta, como traço do cotidiano, permanece como indício narrativo. São cenas e mais cenas de diálogos montados, até planos sem corte de blocos cênicos de cinco ou seis minutos. E aqui a discussão exibe o protagonista tendo que lidar com seus desejos, sem nunca ser julgado ou malhado por um roteiro naturalista que o compreende. Enquanto temos uma ação que se desenvolve em um só dia, versando sobre relações instáveis, apáticas e abaladas, Sang-soo coloca este homem em meio a três mulheres em uma elipse narrativa de diálogos sobre a existência da frágil carne humana.

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  • Cristiano Contreiras

    A ótica sobre a maldade que permanece desde a formação psicológica infantil. A tônica de horror é exposto em um roteiro que cria, dentro da própria caricatura intencional, a noção da malícia e da perversão comportamental - a menina que ouve, desde cedo, histórias de horror e internaliza tais noções. Tais histórias de bruxaria e maldade influenciam as percepções da menina que passa a se “contaminar” com certos anseios e potencializa a sua imaginação pra algo mórbido. Seria ela uma bruxa ou teria poderes? Ou tudo seriam exponenciais mentais? Interessante o formato cênico do filme - nunca vemos os rostos dos adultos, sempre de “costas” ou filmados do ombro pra baixo. O olhar é para e sobre os sensos infantis. Por vezes, tais insinuações de horror psicológico lembra uma representação do universo do Guillermo Del Toro quando insere a protagonista mirim na interação com uma amiga, elevando a amizade à consequências sinistras e até subjetivas na invocação do belzebu.

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