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Últimas opiniões enviadas

  • Davi Mello

    O último trailer. Sombras se projetam em frente ao caleidoscópio do fio de luz e caminham entre os corredores em busca dos assentos que lhe foram ofertados. Um homem conduz uma cadeira de rodas, onde uma senhora aprecia um balde de Coca-Cola com um canudinho. Na fileira atrás de mim, mãe e filho, um filho jovem, sentam-se ruidosamente – “tá começando!”, ela exclama sem saber sussurrar: a tradicional ceia dos eufóricos e atrasados, enquanto os créditos iniciais dissolvem-se em seus fantasmas. Na tela, um verde como do carpete que tínhamos na sala quando eu era criança, um verde borbulhante que pega a mão d’um âmbar e o tira para dançar, então valsando por corredores imersos às ondas de um aquário, outrora uma prosaica sala de visitas, como se estivéssemos vasculhando um navio em sua imobilidade de naufrágio milenar, muito provavelmente extraído de algumas imagens milagrosas de Jean Cocteau, imagens que se moldam à forma d’água.

    Elisa Esposito (Sally Hawkins) desperta ao encanto de sua rotina. Desperta pela madrugada, como os amantes que ainda anseiam um último clímax antes de abandonarem seus lençois. Refaz o que lhe é habitual, prepara o lanche para a jornada de trabalho, arranca a folha de seu calendário de premonições zodiacais e acolhe-se à banheira para se amar. Ama o seu corpo e também as águas. Elisa é uma mulher feliz, silenciosa, mas de ouvidos bastante aguçados – e não por acaso! É inquilina de um cinema à mercê do abandono dos anos 1960, um cinema que vaza sons e Technicolor pelas frestas das portas, mesclando-se com cantorias e sapateados, mas estes em sua tradicional monocromia de Shirley Temple e Fred Astaire, que prestam serenatas a um vizinho e amigo pintor.

    E assim vive Elisa, numa poesia que homenageia, em primeiro lugar, o espaço do cinema, talvez centrada em seus exageros, é verdade, mas à audiência do conforto de uma gramática universal e onírica. Elisa, que carrega a mudez dos primeiros filmes, uma auxiliar de limpeza de um laboratório nuclear, descobre um homem-anfíbio (Doug Jones) destinado a experimentos desumanos. Pouco importa se ninguém percebe que ela, em intervalos para lanchar, com o intuito de conhecê-lo melhor, esconde-se na sala onde acorrentam a criatura – afinal, estamos em um filme, um musical de gestos, e, como todo grande musical, as personagens compartilham telepaticamente uma mesma letra e melodia por intermédio de um único olhar: os outros param e observam, debruçando-se ao feitiço de um realismo impossível.

    A relação entre Elisa e o homem-anfíbio se intensifica a um plano ardiloso para salvar a criatura – é como se Guillermo del Toro se vingasse de todos os filmes de monstros que atormentam nossas memórias de infância, cujos monstros, nem de longe tão crueis como aparentam seus biotipos, rapidamente criam empatia no mais sisudo espectador. É a vingança adormecida, quem sabe ainda nos anos 1920, com o sonâmbulo apaixonado Cesare (Das Cabinet des Dr. Caligari, de Robert Wiene), ou com o monstro de Frakenstein, eterno Boris Karloff, perseguido pela intolerância e preconceito em 1931 (Frankenstein, de James Whale), vingança alimentada em 1933 pelo desfecho cruel de um King Kong, assustadoramente cinematográfico (King Kong, de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack), ou mesmo por um outro homem-anfíbio, este que despertou as inspiradas cinessensações na construção d’A Forma da Água, descoberto igualmente na América do Sul, sendo vítima de constantes estudos científicos (Creature from the Black Lagoon, 1954, Jack Arnold). Em repouso na banheira de Elisa, fiel leito de orgasmos, do amor próprio, o homem-anfíbio agora desfruta de um lar.

    “Mas que besteira!”, disse a mulher atrás de mim a seu filho quando Elisa e o monstro se entregavam ao desejo de seus corpos. Ao se vingar de um cinema que persegue a imagem do outro, del Toro, um cineasta mexicano exercendo o seu ofício na mais selvagem e poderosa indústria do cinema, mostra que não é da castração que se forma uma relação de cinefilia – afinal, parte dessa conjunção carrega consigo a dependência do amor. Não há julgamentos; não há, sem sombra de dúvida, ressentimentos. Del Toro permanece à égide de sua criação proporcionando-lhe prazer. Não vejo diferença na aceitação e possibilidade do amor como pregam Fassbinder, Brigitte Mira e El Hedi ben Salem com uma relação inter-racial (Angst essen Seele auf, 1974, Rainer Werner Fassbinder), ou Douglas Sirk, Jane Wyman e Rock Hudson no melhor sentido de que “o amor não possui idade” (All That Heaven Allows, 1955, Douglas Sirk). O outro é quem está à margem, ao preconceito racial, à xenofobia, à homofobia, à representação do monstro em um cinema que por muitos anos perpetua a sua frigidez.

    “Que filme bonito!”, a mesma mulher disse ao filho, torcendo o nariz emocionado. Lá embaixo, ao acenderem as luzes da sala, notei que a suposta senhora na cadeira de rodas, à claridade revelando-se uma adolescente debilitada por alguma doença, deu alguns passos tímidos e sorridentes da poltrona à sua cadeira de rodas. O homem que a acompanhava também sorriu. “A Forma da Água”, em seu classicismo romântico, pode nem sempre ser envolvente, mas nessa tarde de exibição fora capaz de proporcionar pequenos momentos milagrosos. Gosto de pensar nisso, que o cinema, em suas pequenas sublimações, fornece rejuvenescimento e ressurreições.

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  • Davi Mello

    Desde a sua passagem no Festival do Rio, de onde saiu vencedor de quatro prêmios, muita gente comparou "Aos Teus Olhos" com o filme “A Caça” (Jagten, 2012), de Thomas Vinterberg. Em ambos os filmes, um professor que leciona para crianças é acusado de assédio sexual e, com isso, sua vida sofre um reboliço. Contudo, se n”A Caça” não há dúvidas de que o protagonista Lucas (Mads Mikkelsen) não cometera nenhum tipo de crime – inocentado apenas pelo espectador, então a única testemunha ocular em sequências que só são apresentadas a ele, logo, desconhecidas pela comunidade dinamarquesa onde se passa a história, motivo da violenta perseguição ao professor – , em “Aos Teus Olhos” a diretora Carolina Jabor trabalha o tempo todo com a dúvida, ausentando a testificação dos acontecimentos ao evitar uma câmera ubíqua.

    Rubens, numa ótima interpretação de Daniel de Oliveira, é um personagem de construção ambígua, um professor de natação de extrema simpatia em seu ambiente de trabalho, mas de igual petulância e de condutas machistas, quando não mais questionáveis, longe de seus vínculos profissionais. Carolina Jabor beneficia a direção do filme com essa visão que evita a unilateralidade de personagens e acontecimentos, demonstrando-se mais segura – uma segurança até muito enrijecida – do que em seu primeiro longa-metragem de ficção, “Boa Sorte” (2014).

    Da mesma forma, o roteirista Lucas Paraizo se aproveita da massiva participação de internautas em redes sociais para a ativação de tensões. Em tempos em que o acesso já não se difere em questões geracionais, difundido a indivíduos de todas as idades e das mais diversas classes, garantindo um acompanhamento direto com grupos familiares e institucionais, “Aos Teus Olhos” se preocupa em estimular o debate sobre exposição e linchamento virtual a partir do momento em que ocorre uma rápida viralização de julgamentos precipitados. Algumas das sequências de maiores impactos estão presentes nas multi-telas de interações do caso. As trocas de mensagens entre os pais dos alunos, mensagens que contrapontam a condenação e a preocupação da exposição impetuosa, causam um desespero bem caro aos filmes de suspense, passagens que também lembram a intensificação de sensações presentes no recente “Personal Shopper” (2016), de Olivier Assayas.

    Atentos ainda à questão de gênero, Paraizo e Jabor não velam o machismo e a homofobia que acompanham situações desse porte. Ao ser acusado de beijar um menino no vestiário do clube, Rubens vê a sua sexualidade sendo questionada, como se isso fosse de igual ou maior importância do que o suposto crime cometido, ferindo o orgulho heteronormativo do pai da criança (Marco Ricca). Extrapola-se, no entanto, quando contraditoriamente o filme se vê no direito de criar situações deveras expositivas para a afirmação da heterossexualidade de seu protagonista, gerando constrangedores desconfortos.

    Mesmo sendo um curioso e honesto exemplo de um filme de gênero nacional, “Aos Teus Olhos” ainda tende a ser lido com uma problematização necessária aos nossos tempos – e muito em voga nas redes mundiais. Ao trabalhar apenas com especulações, sobretudo não se aprofundando mais do que a sua própria sinopse sugere, é um filme de emoções controladas e perigosas, pondo em risco a apuração de casos sobre o assédio, independentes de gênero e faixa etária, podendo funcionar não muito diferente do que uma reportagem da mídia evasiva e tendenciosa, que muitas vezes questiona as vítimas, não os opressores.

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  • Davi Mello

    A obra de Schwizgebel é formada por uma narrativa cíclica, partindo da fragmentação, do deslocamento e da condensação para criar suas pinturas vertiginosas e oníricas, logo, também versando com o cubismo e o surrealismo. No mundo de Schwizgebel, a grande surpresa é ver no que um objeto comum, como um graveto varrido pelas ondas de um mar revolto, consegue se metamorfosear. No curta-metragem "Hors-Jeu" (1977), por exemplo, dois times disputam uma partida de futebol, times cujos jogadores são formados por pinceladas rápidas e sem contornos, quase abstratas, e que ao longo do filme se transformarão em jogadores de basquete e de hockey. A metamorfose é sempre sutil e enigmática, criando uma ilusão mágica, meticulosamente trabalhada frame a frame e sem a necessidade de efeitos fusionais.

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