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Últimas opiniões enviadas

  • Gláucia Freire

    Quem vive nos subterrâneos do sistema?

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    "Nós" são sombras para as quais o livre arbítrio foi deliberadamente negado, de quem a consciência foi tomada. "Nós" foram um experimento que deu errado, que não podiam escolher sequer a morte e para quem o subterrâneo foi o que restou. "Nós" teriam continuado presos no seu próprio inferno se uma menina não tivesse se libertado em troca da prisão de outra. E aqueles que estavam em cima nunca teriam se dado conta dos horrores do submundo se não fosse a vingança da raptada, aquela que não escuta os clamores, que não se apieda, como o Senhor vingativo de Jeremias 11:11. Porque o que a guia é a vontade de vingança, de retomada do seu lugar, não daquele entre as pessoas que a sua sombra apropriou, mas em cima, à luz do sol, mesmo que fosse para continuar vivendo entre as sombras, entre os renegados guiados pelo medonho instinto da ira.

    O filme deixa a impressão do desconforto logo quando passamos a entender a "troca" dos pronomes: o que o título chama de "nós" tradicionalmente corresponde ao "outro" nas narrativas, ao estranho, ao diferente, ao distante. Quando a família se dá conta de que todos são "nós" e passa a encarar as consequências da exclusão, mesmo involuntária, de seus iguais, não hesita em abraçar a guerra contra si mesma. Demasiado humano, não é?

    Foram muitas e ácidas as referências ao status quo, à exclusão social, ao racismo estrutural, à vaidade e hipocrisia dos sujeitos que sedimentam esse sistema que nos (des)orienta e (des)educa, inclusive em relação ao consumo e à aparência. Da cena que imediatamente fazia lembrar a perseguição aos negros pelos supremacistas, mas que acabou sendo o início daquela espécie de "purga", passando pelos momentos em que o pai só conseguia pensar em se mostrar como o protetor da família, enquanto as orientações ficam praticamente todas a cargo da mãe, até às representações dos coelhos como cobaias, as vítimas tristemente engaioladas para satisfazer necessidades que lhe são completamente alheias.

    No mais, é preciso louvar a atuação de Lupita Nyong'o, transitando tão bem entre a Sombra que construiu uma identidade e se envolveu com pertencimentos que não eram exatamente pra ser seus e a menina-mulher de quem aquele universo foi tomado por uma conjunção de fatores: a desobediência, a curiosidade e o medo que partiram de si mesma e que transformou nessa espécie de chamado.

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  • Gláucia Freire

    Quanta gente deslocada na cidade grande, na apinhada metrópole, fazendo-se formiga em cima do asfalto feito para a pressa. Engraçado que os mesmos migrantes sedentos por ela, sabem bem onde estão suas raízes. A memória consegue sempre guardar um endereço, localizar um ente querido que ficou em alguma casinha solitária no meio de uma estrada que normalmente parece, àquele que é de fora, como tantas vezes deve ter parecido a Dora, levar a um fim de mundo qualquer, como se essa noção não fosse absolutamente relativa.

    Sentada no tamborete, escrevendo cartas a serviço de analfabetos, destinadas a outros iguais, Dora serve muito bem a uma perspectiva multidimensional para encararmos um país tão cheio de contrastes, tão tomado por uma ideia de grandeza que assaltava também os indivíduos, mesmo que, daqui, de como vemos hoje, todo aquele cenário parecesse alguma moenda impiedosa, disposta a tragar todos, não fossem os afetos nascidos e mantidos. Emocionante do início ao fim, Central do Brasil proporciona uma reflexão dolorida acerca da história recente do Brasil, ao mesmo tempo em que consegue nos encher de esperanças sobre as possibilidades de solidariedade e compaixão.

    ***

    “Uma flor nasceu na rua!
    Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
    Uma flor ainda desbotada
    ilude a polícia, rompe o asfalto.
    Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
    garanto que uma flor nasceu.”
    Trecho de “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade.

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  • Gláucia Freire

    "Um lugar silencioso" repete uma fórmula que tende a ser cada vez mais facilmente vendida: avança alguns aspectos narrativos do suspense comum, consegue nos fazer comprar a narrativa em muitos momentos, até nos imergir, tem personagens com certo carisma, mas tudo isso baseado em pontos bastante falhos que não resistem sequer a uma análise superficial sobre a consistência do que foi apresentado. Ainda assim, entretém bem e não me fez querer parar de ver, por exemplo. Não me foi cansativo e tem um momento ou outro realmente comoventes.

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