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Últimas opiniões enviadas

  • Guilherme

    A Noiva de Frankenstein (The Bride of Frankenstein, 1935) de James Whale

    “A Noiva de Frankenstein” foi um filme que transcendeu todas as expectativas possíveis da crítica e do público. Além de ser considerado até melhor que o filme original, algo muito raro para sequências, o filme conseguiu desenvolver temas e mensagens ainda mais transgressores para o período. É considerado a epítome, o maior expoente artístico, de todos os filmes do “Legado de Monstros” da Universal.

    Como já é sabido, James Whale não queria retornar ao universo do Monstro de Frankenstein para fazer uma sequência. Até conseguir convencer o diretor, o estúdio planejou várias possíveis tramas para o filme. Uma delas era a possibilidade de o próprio monstro continuar os experimentos de Dr. Frankenstein, enquanto outra, trabalhava a ideia de Henry construir um raio da morte às vésperas de uma Guerra Mundial. Por sorte nossa, Whale aceitou retornar para a sequência após muita insistência do estúdio. Porém, o diretor só se propôs a trabalhar em “A Noiva de Frankenstein” após ter garantido liberdade criativa, e orçamento, para que ele pudesse fazer tudo que quisesse. Afinal de contas Whale já era um diretor de muito prestígio.

    Um fato interessante é que, após o imenso sucesso do primeiro filme, o próprio monstro foi popularizado como “Frankenstein”. Daí surgiu uma das máximas mais famosas do cinema, assim como a dúvida sobre quem é o assassino em “Sexta-Feira 13”: “Quem é Frankenstein? O médico ou o monstro?” O clássico da Sessão da Tarde, “Deu a Louco nos Monstros”, inclusive brinca com essa dúvida, ao colocá-la em um questionário para a seleção de novos membros do “Monster Squad”.

    O roteiro do filme é de autoria de William Hurblut, tendo sido seu filme mais famoso. Porém, é inegável que o roteiro tenha sofrido alterações por parte de James Whale. Uma as inovações do roteiro é fazer com que o monstro fale, o que o tornou mais próximo do monstro pensante, e até filosófico do livro original de Mary Shelley. Aliás, os eventos retratados na sequência são todos oriundos da obra de Shelley, que não foram retratados no filme original. E ainda mais que o longa de 1931, “A Noiva de Frankenstein” traz reflexões, muito à frente de seu tempo, sobre diversas questões sociais.

    Há uma exploração muito maior acerca das facetas do monstro, sendo que fica ainda mais claro que todos eventos aterradores causados pela figura são, na verdade, reações contra ações injustas e intolerantes. Há um comentário muito forte sobre a reação selvagem da raça humana frente a tudo que é diferente, principalmente pelos personagens intencionalmente caricaturais e excêntricos (reparem no exagero divertido de Una O’Connor, também de “O Homem Invisível”). A passagem, em especial, do encontro do monstro com o homem cego na mata, desenvolve momentos de muita reflexão sobre os males da vaidade humana, e a supervalorização da “figura externa”. Além de trazer diálogos e situações que ajudam no desabrochar da personalidade “infantil” do monstro, a sequência também fornece coerência narrativa para o posterior encontro do monstro com o excêntrico Dr. Pretorius (Ernest Thesiger, magnífico).

    Apesar de Boris Karloff não ter concordado com o fato de o monstro falar a princípio, é inegável que esse aprendizado tenha gerado ainda mais aprofundamento para o personagem. Karloff tem mais espaço em tela aqui na sequência, e enaltece ainda mais o drama do monstro e a vontade de fugir daquele ambiente onde é hostilizado. O ator dignifica sua interpretação pelo modo como transmite sentimentos muito complexos (como ao tecer dúvidas no encontro com a noiva), a partir de expressões básicas literais de uma mente infantil. Lindo de se ver.

    Além disso, Whale dá um “tapa de pelica” no moralismo religioso do Código Hays. Homossexual assumido, Whale sabia o que era viver à margem da sociedade fundamentalista religiosa; não à toa a grande identificação com o monstro incompreendido. Com muita inteligência, Whale cria planos que enfocam cruzes de Jesus Cristo em paralelo com seu monstro, igualando o sofrimento daquelas duas figuras vítimas da ignorância. Em determinado momento, o monstro encontraria uma imagem de Jesus Cisto em uma lápide de cemitério e se identificaria com sua expressão sofrida. Como os puritanos da MPAA exigiram cortar essa cena, Whale criou outra, ainda mais crítica e inteligente, onde o monstro destrói uma imagem de um bispo em um cemitério, com a uma enorme cruz ao fundo. Já em um diálogo de Dr. Pretorius e Dr. Henry (Colin Clive, tão bom quanto antes) o cientista faz um comentário irônico sobre as histórias “fantasiosas” da bíblia.

    O Dr. Pretorius aliás, um personagem que não existe na obra de Mary Shelley, é a figura excêntrica tradicional dos filmes de James Whale. Claramente “camp” e com referências homossexuais, há uma sensação de outsider latente à figura, apesar de manter uma aura maléfica que é responsável por fortes questões morais e éticas a serem discutidas no filme. Ernest Thesinger, que já havia trabalhado com Whale em “A Casa Sinistra”, sabe equilibrar um tom de humor sarcástico e a vilanidade clássica do personagem. Em um papel considerado inicialmente para Bela Lugosi e Claude Rains, Pretorius e fotografado com quadros angulados e altos para enaltecer a figura sobre Dr. Henry; além de um uso de sombras quase teatral (como ao revelar seu rosto calmamente) que combina com as cores sombrias de seu figurino, em contraste com as cores tristes de Dr. Henry. Outro excelente trabalho de Vera West.

    A maquiagem de Jack Pierce volta a nos impressionar bastante. A figura do monstro evolui de forma coerente com os acontecimentos. Além de implementar queimaduras e mais cicatrizes ao rosto e mãos do vilão, Pierce também revela mais elementos cirúrgicos de sua concepção (mais pinos e grampos em sua cabeça). Já a noiva de Frankenstein é maquiada de uma forma mais suavizada que contrasta com a rusticidade do monstro, apesar de sua “beleza” ocultar terríveis cicatrizes em seu pescoço, algo muito simbólico. Já o famoso cabelo da personagem é utilizado para simbolizar a eletricidade que gera a vida, não só por sua armação estranha, com também as funestas mechas brancas que simulam raios. A atriz Elsa Lanchester (“Testemunha de Acusação”) aliás, faz um trabalho excelente ao emular movimentos erráticos e olhares de presas selvagens, para a composição da noiva.

    Com ainda mais sofisticação que nas obras anteriores, Whale chega até a brincar com metalinguagem. Além de introduzir o filme com uma passagem que comenta história da criação do conto de “Frankenstein”, com a participação de Mary e Percy Shelley, além de Lord Byron, Whale ainda cria uma rima formidável ao colocar Elsa Lanchester interpretando tanto Mary quanto a noiva. O diretor também filma lindamente os ambientes góticos e opulentos da história (o castelo de Frankenstein é fabuloso em seus ricos detalhes), assim como os ambientes externos tradicionais do terror clássico. Observem, por exemplo, como a floresta onde o monstro foge a primeira vez é bastante bucólica e florida (representando sua liberdade); em contraste com a floresta inóspita de troncos secos onde ele é perseguido por uma multidão enfurecida. Aliás, o tom sombrio e opressor do filme permanece crescente até o final, com o ápice sendo o cemitério aterrador onde o monstro é obrigador a se esconder, justamente sua origem, olhem que irônico!

    Além disso, os efeitos especiais do filme continuam excepcionais, sendo ainda mais bem trabalhados pelos movimentos de câmera mais desafiadores de Whale. Dessa vez conseguimos acompanhar a maca do cadáver a ser ressuscitado até o topo da icônica masmorra, além de ter um trabalho de sonoridade ainda mais rico (e consequentemente mais genuíno para o lado científico) que o original.

    “A Noiva de Frankenstein” é o primeiro filme do “Legado de Monstros” da Universal que possui uma trilha sonora própria para o filme, sempre presente e comentando as passagens. O compositor Franz Waxman (que trabalhou com Hitchcok em obras como “Janela Indiscreta”), consegue criar temas próprios para cada um dos personagens de acordo com sua personalidade. Reparem nos acordes rústicos e grosseiros do monstro de Frankenstein, em contraste com os toques de violino com viés perturbador da noiva. Waxman também é inteligente ao comentar as passagens com sua música, como ao sonorizar batidas (como as do coração, da cena anterior) no momento que Karl (Dwight Fry, insano novamente) ataca uma jovem para extrair seu coração. Ou até mesmo implementar os acordes nupciais da criação da noiva, no momento que Dr. Pretorius introduz essa ideia para o monstro.

    Infelizmente, “A Noiva de Frankenstein” sofre do mesmo final moralista do primeiro filme, desta vez, por conta do estúpido Código Hays que controlava as produções cinematográficas da época, nos EUA.

    O filme foi um sucesso ainda maior que o filme original na época de seu lançamento, inclusive concorrendo ao Oscar de Melhor Som.

    Com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, o filme também foi selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”. Além disso, é uma das obras que integra o “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” de Steven Schneider, além de estar na lista de “Grandes Filmes” de Roger Ebbert,

    Intensamente macabro e “campy” em sua fantasia de horror e ficção científica, “A Noiva de Frankenstein” é uma obra-prima a frente de seu tempo. Um triunfo do cinema estadunidense. E nem precisar dizer que é obrigatório, né!?

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  • Guilherme

    O Homem Invisível (The Invisible Man, 1933) de James Whale

    Retornando às adaptações de obras literárias famosas após “A Múmia”, o “Legado de Monstros” da Universal apresentou “O Homem Invisível”, baseado num livro de H.G. Wells. Weels é um dos grandes escritores de ficção científica da literatura, tendo também escrito obras como “A Máquina do Tempo”, “Guerra dos Mundos” e “A Ilha do Dr. Moreau”.

    A direção do filme ficou novamente a cargo de James Whale, após o sucesso fenomenal de “Frankenstein”. Na verdade, a Universal ainda tentava convencer Whale a fazer uma sequência para “Frankenstein”, porém o diretor continuava a focar seu trabalho em novas histórias. Após a obra-prima de 1931, Whale dirigiu outro terror chamado “A Casa Sinistra”, onde pôde destilar todo seu talento para criar histórias de humor negro peculiar. Quando aceitou dirigir “O Homem Invisível”, Whale chamou um antigo amigo do teatro para roteirizar o filme, R.C. Sherriff, que também havia auxiliado o diretor no roteiro de “A Casa Sinistra”.

    Antes de Whale embarcar no projeto, 14 outros tratamentos do filme haviam sido feitas, inclusive um que se passava na Rússia Czarista, e outra que se passava em Marte (!). Foi somente com a entrada de Sherriff na produção que o roteiro tomou mais o caminho do livro de H.G. Wells. A responsabilidade do roteirista era muito grande, já que Wells não havia gostado nenhum pouco da adaptação que fizeram de “A Ilha do Dr. Moreau” em “A Ilha das Almas Selvagens”. Diferente de “Drácula” e “Frankenstein”, o roteiro de “O Homem Invisível” ficou bem fiel ao livro de Wells, sendo que o roteirista Sherriff também pegou elementos de “O Assassino Invisível” de Philip Wylie.

    A escalação do ator para fazer o personagem título foi bem dificultosa. Boris Karloff, como não poderia deixar de ser, foi o primeiro ser considerado pelo estúdio. Porém, Karloff não queria interpretar um personagem que, literalmente, não apareceria no filme. Além disso, o próprio diretor Whale não gostava da ideia da voz de Karloff, e sim, uma voz que fosse mais “intelectual”. A descoberta de Claude Rains foi um acidente, já que Whale escutou a voz do ator, através de outra sala onde estava sendo exibido um vídeo-teste do ator. Todos consideravam Rains um ator muito ruim e exagerado, demasiado teatral, mas a voz de Rains era inegavelmente poderosa e bem articulada; e foi o suficiente para encantar o diretor.

    A primeira coisa que nos chama a atenção em “O Homem Invisível” é o tom de humor negro peculiar de James Whale. O diretor consegue, com muita elegância, explorar humor de figuras excêntricas (como a personagem divertidamente exagerada de Una O’Connor, dona da estalagem, que apareceria novamente em “A Noiva de Frankenstein”); e também de pessoas normais frente a situações excêntricas (como uma senhora correndo em desespero de um par de calças, em uma estrada deserta). Whale consegue usar o humor de forma que não tire a tensão do espectador frente ao terror, mas de forma a tornar orgânicas aquelas situações absurdas. Com muita inventividade, o diretor usa o humor para tornar mais crível algumas ações do monstro (como ao acompanhar uma gaveta “voadora” saindo calmamente de um banco), e para criar passagens mais mórbidas e engrandecer o vilão (como na memorável cena em que ele explica, de forma sádica, como acontecerá a morte de um personagem minutos antes de acontecer).

    Aliás, os toques de humor negro nesse filme são acompanhados pela intensidade do horror e da violência. De todos os vilões do “Legado de Monstros” da Universal, o Homem Invisível é sem dúvidas o mais insano e sanguinário. Levado à loucura através de seu experimento de invisibilidade que não reverteu, o monstro mata pessoas por pura diversão e prazer, principalmente por estrangulamento, e on sceen. As ações da criatura vão desde apavorar aldeões ao brincar com objetos, até o descarrilamento trágico de um trem (em uma cena particularmente INCRÍVEL para os padrões da época). Whale deixa claro que o Homem Invisível é tão imprevisível quanto a dificuldade de reconhece-lo.

    O roteiro do filme aproveita bem as mensagens implícitas do texto de H.G. Wells e as possibilidades que a existência que uma pessoa invisível traria para uma sociedade. Há a paranoia e histeria coletiva, como também a grande dificuldade e sensação de incapacidade da polícia frente a esse criminoso. O próprio conceito do vilão já é magnífico por si só, já que a ideia de “O Homem Invisível”, ao contrário dos outros vilões mitológicos do “Legado de Monstros”, é escancarar a natureza violenta e animalesca do ser humano. Qual os limites da ética e do caráter ara uma pessoa que pode realizar tudo que quiser sem que outras pessoas a vejam? Nós todos sabemos como o poder pode corromper, não é mesmo?

    De certa forma, o roteiro de “O Homem Invisível” traz elementos muito próximos do de “Frankenstein”, já que ambos acompanham um cientista louco que permanece desaparecido por conhecidos; uma noiva preocupada com o destino do amado e até o amigo do protagonista que é secretamente apaixonado pela noiva. Porém, Whale realiza uma vendeta pessoal no filme, e cria conclusões para os personagens de uma forma mais sombria, como não pôde realizar em “Frankenstein”.

    Grande parte da eficiência do filme também vem da estonteante atuação de Claude Rains. Exibindo tom de voz MARCANTE, com viés gutural e agudo, Rains se faz imensamente presente durante todo o filme, de uma forma que muitos atores não conseguem fazer nem com presença física. Se expressando de forma eloquente (por vezes, ensandecida), Rains aposta em gestuais caricatos que combinam com o absurdo do personagem (assim como sua gargalhada maligna debochada), mas sem nunca perder o tom de ameaça aterrorizante. Gloria Stuart, mais lembrada por ter sido a Rose idosa em “Titanic”, interpreta a “mocinha” Flora Cranley, mas tem muito pouco tempo de tela, já que o desenvolvimento Jack Griffin (Homem Invisível) é o foco. Como ponto negativo, há de se citar a atuação ruim e caricata de William Harrigan, como o amigo de Jack Griffin.

    E não há como falar de O Homem Invisível sem citar os FANTÁSTICOS efeitos visuais criados por John P. Fulton, que foi diretor de segundo unidade de Alfred Hitchcok em filmes como “Um Corpo que Cai”, e ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais na versão dos anos 50 de “Os Dez Mandamentos”. O que mais chama a atenção no filme, principalmente pela época em que foi feito, é a relação do homem invisível com os objetos de cena. A cena em que o vilão retirar seu nariz falso, óculos e bandagens pouco a pouco dá um tom mórbido para a figura como se fosse realmente uma “casca” oca. E é nos pequenos detalhes que nós conseguimos perceber a verdadeira genialidade dos efeitos Por exemplo: para enaltecer a estranheza de estarmos vendo um robe “oco” sentado na poltrona gesticulando, os cineastas fazem questão de mostra-lo acendendo um cigarro e fumando. Notem também, na cena em que o vilão vai buscar seus cadernos na estalagem do início do filme, como a delicadeza da abertura da janela (envolvendo uma cadeira, um vaso de plantas e uma cortina) torna tudo aquilo muito mais crível e genuíno.

    Com a elegância de sempre, James Whale também explora muito bem suas ambientações. O início do filme é excelente em aclimatar o espectador ao transitar entre um ambiente noturno campestre, opressor, com forte nevasca e natureza morta; enquanto o interior da estalagem é bem iluminado e fotografado em um plano sequência divertido. No momento que o vilão chega à estalagem, com uma figura memorável e aterradora de bandagens, chapéu e óculos escuros, a estalagem é filmada com quadros angulados que causam estranheza. Além disso, Whale faz brincadeiras cheia de estilo ao sempre colocar vasos de flores em cenas da personagem Flora.

    Como não poderia deixar de ser, o filme foi um imenso sucesso de público e crítica. Venceu um prêmio especial no Festival de Veneza de 1934, e ainda foi selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”. Possui 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.

    O personagem também apareceu em “O Retorno do Homem Invisível” (1940) onde o GRANDE Vincent Price interpreta o vilão da vez; “A Mulher Invisível” (1940), que adotou um tom de comédia puro; “O Agente Invisível” (1942), que colocou o homem invisível infiltrado na Segunda Guerra Mundial, e “A Vingança do Homem Invisível” (1944). Como não poderia deixar de ser, o monstro também teve um crossover com a dupla Abbott e Costello em “Abbott e Costello Encontram o Homem Invisível”.

    Em 2000, a obra de H.G. Wells teve outra adaptação famosa em “O Homem em Sombra”, comandada pelo subestimado Paul Verhoeven, do recente “Elle”. O diretor de “Conquista Sangrenta”, “Instinto Selvagem”, “Robocop – O Policial do Futuro” e “O Vingador do Futuro” traz sua carga sexual característica para o filme, assim como seu senso de humor sarcástico. Estrelado por Kevin Bacon, Elizabeth Sue e Josh Brolin, o filme possui um suspense eficiente, um vilão tão insano quanto o do filme original e efeitos especiais espetaculares (o desaparecimento gradual do cientista é de encher os olhos). Mesmo não sendo tão regular quanto suas melhores obras, ao menos o filme fica de longe da ruindade de um “Showgirls”.

    Misturando terror e ficção científica, com toques de humor negro genuínos, “O Homem Invisível” é mais uma prova do imenso talento de James Whale. Além de trazer uma impressionante atuação de Claude Rains como o mais insano dos “Monstros da Universal”. Clássico obrigatório.

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  • Guilherme

    A Múmia (The Mummy, 1932) de Karl Freund

    O terceiro vilão a ser acrescido ao “Legado de Monstros” da Universal foi uma criação original baseada em mitos Egípcios, e não um filme baseado em obras literárias famosas como “Drácula” e “Frankenstein”. “A Múmia” foi idealizado em consideração à descoberta da de uma câmara de tesouros do Faraó Tutancâmon, em 1922. Segundo a lenda, quem abrisse a câmara seria eternamente amaldiçoado pelos deuses do Antigo Egito.

    Inicialmente, porém, a ideia do estúdio era trazer Boris Karloff novamente como um monstro (já que foi alçado ao patamar de estrela de primeira grandeza após “Frankenstein”), em um roteiro de Nina Wilcox Putnam chamado “Cagliostro”, sobre um homem que viveu durantes séculos. A contextualização egípcia foi acrescentada posteriormente no roteiro por John L. Balderston (“O Último dos Moicanos”), que passou pelos títulos de “The King of the Dead” e “Im-Ho-Tep”.

    De certa forma, “A Múmia” lembra o roteiro de “Drácula” em muitos aspectos. O vilão é um ser sobrenatural amaldiçoado que viveu durante séculos. Ambos os monstros exercem poder hipnótico sobre suas vítimas, e escolhem como presa uma bela jovem. Até mesmo as interações sociais do monstro com os personagens são semelhantes; além de a Múmia repelir um determinado amuleto assim como o Conde Drácula repele crucifixos.

    Ao contrário do que se imagina antes de assistir ao filme, o monstro de “A Múmia” não é aquela criatura decrépita, pútrida, lenta e enfaixada que ganhou o imaginário popular posteriormente. Essa personificação do monstro é vista apenas rapidamente, logo no início do filme. Posteriormente, o monstro vai se regenerando aos poucos, parecido ao que feito trabalhado na refilmagem aventureira de 1999. No entanto, a maquiagem do MESTRE Jack Pierce enche nossos olhos tanto quanto no anterior “Frankenstein”. Na rápida aparição do monstro logo depois de desenterrado, o nível de detalhes da composição é belíssimo. A textura ressecada e cristalizada do rosto de Boris Karloff é tão fascinante quanto assustador, assim como o design das faixas apodrecidas sobre o seu corpo enrijecido. Já a aparência regenerada, posterior, do monstro é tão interessante quanto, já que as rugosidades ressecadas de Ardeth Bay relembram a podridão da múmia com mais sutileza, além de trabalhar olhos mortiços muito fundos que dão um aspecto cadavérico maligno para a figura.

    Para a direção de “A Múmia” a Universal apostou no diretor de fotografia Karl Freund, que além de ter trabalhado em “Drácula”, também trabalhou em “Os Assassinatos da Rua Morgue”. Freund não exibe um virtuosismo tão grande quanto Tod Browning em criar uma atmosfera macabra, ou a sagacidade cheia de metáforas de James Whale. Sinceramente, as cenas que focam no desenvolvimento da trama, sem a presença do monstro, possuem um ritmo até enfadonho, sem interesse, o que é piorado pelas atuações apáticas de David Manners (novamente o “mocinho” do filme após Jonathan Harker) e Edward Van Sloan (novamente interpretando ume estudioso após “Drácula” e “Frankenstein”). A protagonista feminina também não é uma presença muito agradável, já que Zita Johann (famosa atriz da Broadway da época) aposta em um tom de exagero teatral que não funciona mais para as plateias de hoje em dia.

    No entanto, quando o filme foca no monstro encarnado por Boris Karloff (ou apenas “Karloff”, como o estúdio começou a promover), há um magnetismo inegável. Karloff novamente nos deslumbra com seu imenso talento. Utilizando um trabalho corporal que denuncia um certo esfacelo nada menos que adequado (reparem em seus movimentos lentos e curvatura incômoda), Karloff contrabalanceia essa fragilidade física a partir um olhar mórbido hipnótico (com fontes de luzes pontuais, assim como em “Drácula”) que entrega uma personalidade calculista e implacável.

    O diretor Freund exibe um bom timming para criar tensão e terror. A cena da ressuscitação da múmia, por exemplo, trabalha uma montagem paralela que acentua a tensão entre dois ambientes diferentes; além de uma movimentação de câmera inteligente que explora, com sadismo, as informações privilegiadas que os espectadores possuem em relação aos personagens. A cena do passado de Imhotep também é memorável, já que usa uma trilha sonora própria e com tom melodramático para aclimatizar o tom de fantasia, explora um design de produção muito rico e imponente (principalmente nos templos dos Faraós), e ainda possui uma narração que deixa as imagens como se fossem de um filme do cinema mudo, inclusive com uso muito significativo de sequência à contraluz. Freund também é inovador na forma como retrata a violência, já que há uma cena de empalhamento muito chocante para a época, assim como os detalhes cruéis do processo de mumificação.

    Além de aproveitar os ambientes de um museu sobre o Antigo Egito para aclimatizar os espectadores em seu misticismo, a fotografia em preto e branco de Freund também é bem utilizada, principalmente na forma de fotografar o vilão a luzes de velas e candelabros, o que enaltece ainda mais o tom místico.

    Como curiosidade, o nome da múmia, Imhotep, é na verdade o nome do arquiteto egípcio que criou as magníficas pirâmides do Egito. Já o nome que ele toma para sai, nos momentos de socialização, Ardeth Bay, é na verdade um anagrama para “Death By Ra” (“Morte por Ra”). Esse nome, inclusive, seria o nome de um dos heróis da versão de “A Múmia” de 1999.

    Em relação a esse monstro clássico, a Universal faria ainda vários outros filmes. Porém, o personagem Imhotep de Boris Karloff nunca mais voltaria a protagonizar nenhum filme, dando espaço para a múmia Kharis, eternizada nas telas por Lon Channey Jr. Kharis não é uma múmia que ressuscita através de uma maldição como Imhotep, mas sim uma múmia controlada por magia negra através de folhas de tana. A imagem da múmia nas sequências se tornou a figura mais icônica do monstro, explorando uma maquiagem de cadáver esfacelado e ressecado, com bandagens pútridas. As sequências são “A Mão da Múmia” (1940), “A Tumba da Múmia” (1942), “O Fantasma da Múmia” (1944), “A Praga da Múmia” (1944); além da versão paródica “Abbott & Costello Caçando Múmias no Egito” (1955).

    Dentre outras versões famosas do monstro, está tradicional versão da produtora Hammer, “A Múmia” (1959) que traz na direção, novamente, Terrence Fisher (de “O Vampiro da Noite” e “A Maldição de Frankenstein”), além de Cristopher Lee como a múmia Kharis. Já “A Múmia” e “O Retorno da Múmia” de Stephen Sommers foram filmes pipoca divertidos para suas épocas, apostando em um tom aventureiro e de comédia que bebia muito na fonte de “Indiana Jones”. Apesar disso, o spin-off “O Escorpião Rei”, e a terceira parte, “A Múmia – A Tumba do Imperador Dragão”, (que não foram comandados por Stephen Sommers) são filmes muito ruins.

    Em 2017 foi lançada uma nova versão sobre o monstro egípcio, também pela Universal. A ideia era que “A Múmia” introduzisse um universo cinemático compartilhado de monstros clássicos, intitulado “Dark Universe”. Essa ideia começou a ser discutida quando “Drácula – A História Nunca Contada” foi lançado em 2014. Porém, devido ao péssimo resultado de público e crítica do filme (e é, realmente, MUITO ruim), a ideia foi guardada para ser introduzida devidamente neste novo filme “d’A Múmia”. Inclusive havia a ideia de Tom Cruise interpretar o icônico Van Helsing neste universo estendido. E quem não se lembra do VERGONHOSO “Van Helsing” que a própria Universal “cometeu” em 2004? Um filme que manchou de vez a reputação de Stephen Sommers (que já não era muito boa) e quase acabou com a careira de Hugh Jackman, que deve se arrepender até hoje. O filme foi considerado um desrespeito enorme do estúdio pelo seu “Legado de Monstros”. Aliás, um filme/homenagem que reuni todos os monstros clássicos juntos sendo caçados por aficionados em monstros já foi feito de forma PERFEITA em “Deu a Loca nos Monstros”.

    “A Múmia” de 2017 aposta mais na ação e aventura que fez a fama da versão 90’s, mas também possui alguns momentos de horror mórbidos genuínos. Dois personagens clássicos foram introduzidos no filme: além da vilã egípcia interpretada por Sofia Boutella (do ótimo “Kingsman: Serviço Secreto”), o filme também trouxe Russel Crowe no papel de Dr. Jekyll e Mr. Hide (“O Médico e o Monstro”). Apesar de não ser a bomba que a maioria dos críticos anunciaram em sua estreia, “A Múmia” deixa muito a desejar por investir mais em ser um veículo de promoção para o astro Tom Cruise (em um personagem antipático) do que em respeitar a sua vilã grandiosa. Uma pena.

    Apesar de não exibir todas as virtudes de outros filmes de monstros da Universal, “A Múmia” tem um personagem interessante o bastante (e uma excelente interpretação de Boris Karloff) para ganhar a atenção dos amantes do gênero.

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  • Arthur Ferreira
    Arthur Ferreira

    Excelente gosto aí, meu caro! E é isso aí, 0 filmes no "Não Quero Ver". 0 preconceito!

  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/

  • Lolline Carvalho
    Lolline Carvalho

    Muito obrigada por me aceitar. Adorei os seus comentários e análises dos filmes :D