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  • Guilherme

    Planeta Terror (Planet Terror, 2007) de Robert Rodriguez

    Quando Robert Rodriguez estava filmando o bom cult alienígena dos anos 90, “Prova Final”, ele já previu que os filmes de zumbis teriam uma retomada nos cinemas em um futuro próximo. Os últimos grandes longas de zumbis haviam sido “A Noite dos Mortos Vivos” (refilmagem) e “Fome Animal”, no começo dos anos 90. Durante uma conversa com Elijah Wood e Josh Hartnett no set do filme, ele disse que já possuía um rascunho de 30 páginas de um filme sobre mortos vivos, e que gostaria de se empenhar mais na produção do filme.

    Conforme havia previsto, a partir de 2002 os filmes de zumbis voltaram à tona com o sucesso de “Resident Evil – O Hóspede Maldito” e “Extermínio”. Mas foi finalmente com “Madrugada dos Mortos”, em 2004, que o subgênero se fixou novamente. Arrependido de não ter realizado seu projeto anteriormente, Rodriguez encontrou em “Grindhouse” a oportunidade definitiva de ter seu desejo realizado. Após não ter tido uma boa experiência na direção de “Prova Final”, pela insistência dos produtores em limitar o estilo enérgico do diretor, Rodriguez teria liberdade criativa para desenvolver “Planeta Terror” (incialmente “Projeto Terror”), com muita fidelidade aos clássicos trash e exploitation que tanto venera.

    Dez anos depois do sucesso de “Um Drink no Inferno”, Tarantino e Rodriguez iniciariam as filmagens do ambicioso projeto “Grindhouse”. A proposta era que cada um dos cineastas filmassem um filme de pouco mais de uma hora cada, Rodriguez faria um filme de zumbis (almejado por ele há vários anos) e Tarantino faria um filme de perseguição automobilísticas (dos quais o diretor é fã). Enquanto isso, trailers de filmes falsos, seguindo a estética exploitation, seriam filmados por outros diretores para serem exibidos antes e entre os filmes. Eli Roth (que vinha do sucesso de “O Albergue”, produzido pelo próprio Tarantino) e Edgar Wright (oriundo do GENIAL “Todo Mundo Quase Morto”) foram convidados pelos diretores para filmarem dois dos trailers. Rob Zombie, que encontrou os diretores na premiação Scream Awards e havia lançado seu melhor filme, “Rejeitados pelo Diabo”, pediu para fazer outro dos trailers do projeto, já que também é fã de exploitations. O quarto trailer seria feito pelo próprio Robert Rodriguez, enquanto o quinto foi escolhido através de um concurso realizado pelos cineastas na conferência South by Southwest (SXSW), à procura de cineastas independentes que se afeiçoassem pelo estilo. O escolhido acabou sendo o iniciante Jason Eisener.

    O filme foi lançado nos cinemas dos EUA conforme havia sido planejado: os dois filmes com estética de película envelhecida e sequências cortadas; defeitos de montagem e som propositais; mesmos atores interpretando papéis diferentes (o elenco é INCRÍVEL); produção que mimetizasse uma pobreza de recursos, mas com muita imaginação; e toneladas de gore, violência e carga sexual. Os filmes foram exibidos um após o outro, com os trailers falsos entrecortando-os. Infelizmente, o projeto se revelou um fracasso de bilheteria (arrecadou apenas US$25 milhões para um orçamento de US$53 milhões), apesar das críticas majoritariamente positivas (o filme possui 83% de aprovação no “Rotten Tomatoes”).

    “Grindhouse” concorreu a 15 prêmios ao redor do mundo, tendo vencido sete deles. O filme foi nomeado a Melhor Filme de Horror, Melhor Atriz Coadjuvante (Rose McGowan) e Melhor Maquiagem no badalado Saturn Awards em 2007. Já no Golden Schmoes Awards o longa venceu os prêmios de Filme Mais Subestimado do Ano, Melhor Filme de Horror e Melhor Trilha Sonora.

    Com o insucesso comercial do filme em seu país de origem, as distribuidoras estrangeiras resolveram lançar os filmes separadamente, afinal, o conceito “Grindhouse” não era algo muito conhecido fora dos EUA. No Brasil, por exemplo, “Planeta Terror” foi lançado somente em novembro de 2007, enquanto isso, “À Prova de Morte” chegou aos cinemas TRÊS anos depois, em julho de 2010.

    Com uma história que aproveita todas as oportunidades de seu absurdo, “Planeta Terror” pode ser descrito como uma mistura de “A Noite dos Mortos Vivos”, “A Volta dos Mortos Vivos” e “Fuga de Nova York” (ATENÇÃO: não confundir o clássico de George A. Romero de 1968, com “A Volta dos Mortos Vivos” dirigido por Dan O’Bannon em 1985).

    Toda trama envolvendo uma conspiração militar científica parece uma forma de Rodriguez homenagear a inteligente paródia de O’Bannon, que envolvia tanques com zumbis derretidos após uma experiência militar que deu errado. “Planeta Terror” traz mortos vivos que se transformam após entrar em contato com um gás verde sugestivo (reparem no atmosférico plano do gás se dissipando através da lua cheia), da mesma forma que a Trioxina no longa de 1985.

    Aproveitando para criar sequências de ação com um festival de tiros ensurdecedores assim como no cinema de Sam Peckinpah, e explosões de sangue divertidamente exageradas, Rodriguez ainda aproveita para utilizar o canastra personagem de Bruce Willis (‘Where’s the shit!?”) como forma de brincar com o modo como os exploitations utilizavam atores famosos em seus filmes. Para atrair público para os cinemas, os cineastas utilizavam pontas de atores famosos fora da fotografia principal (já que não conseguiam pagar o salário completo), mas faziam a publicidade como se esses atores fossem parte importante da trama. O mais engraçado é que quando o filme foi lançado no Brasil, a própria Europa Filmes fez um trailer especial, lançado nos cinemas, colocando Bruce Willis como o próprio protagonista!

    Com um trabalho de maquiagem riquíssimo em sangue, pústulas, bolhas, pus, gosmas, tripas, desmembramentos e nojeiras afins (também da KNB FX), “Planeta Terror” afirma seu caráter splatter com orgulho. Os mortos vivos são realmente pútridos e gosmentos, elevando à enésima potência o “Tarman” de “A Volta dos Mortos Vivos”. Inclusive, Rodriguez não esquecer de pontuar o detalhe icônico da predileção dos zumbis por cérebro. Em soma, Rodriguez ainda cria umas versões cheias de apêndices diferentes dos zumbis (como na cena do militar interpretado por Tarantino) para referenciar as criaturas de “Do Além”; além de citar diretamente as cenas mais gore do cinema de George A. Romero, como o momento de evisceração do Capitão Rhodes em “Dia dos Mortos”. Reparem na carnificina bizarra cometida no hospital do filme. E é ótimo que Rodriguez tenha resgatado os mortos vivos lentos e insidiosos de Romero, importante para dar uma aura de decomposição para aquelas criaturas.

    Tão importante quanto os zumbis bizarros, Rodriguez também ambienta o espectador em uma paisagem atmosférica que brinca com os clichês de horror. Desde a densa névoa cobrindo a paisagem noturna e que torna o luar mais sinistro (a sequência de Fergie na estrada é genial), até as fontes de luz desconexas que tornam uma floresta morta ao redor de uma cabana ainda mais sombria (como na casa de Earl McGraw, parecida à de “The Evil Dead”). Já as cenas em ambientes de laboratório aproveitam a oportunidade para criar aqueles computadores imensos cheios de luzes piscando que era característico do futurismo do fim dos anos 70 e 80, tanto em produções B (“A Hora das Criaturas”) quanto A (“Alien – O 8º Passageiro”).

    A própria trilha sonora do diretor, rica em sintetizadores e batidas “bregas” dos anos 80, é eficaz no clima cheio de empolgação do filme. Segundo o próprio diretor, ele tocava os temas compostos para “O Enigma de Outro Mundo” e “Fuga de Nova York”, para ambientar os atores com clima do filme. Baseado nas composições de John Carpenter, além do trabalho de Ennio Morricone em “O Enigma de Outro Mundo”, a trilha de “Planeta Terror” funde tons macabros trash com um rock’n’roll (o tema principal é SENSACIONAL) que mantém um ritmo constante do filme. Há até uma cena de amor do filme que homenageia, em montagem e música, uma cena semelhante de “O Exterminador do Futuro”. O próprio John Carpenter foi convidado por Rodriguez para compor a trilha sonora do filme, porém o mestre recusou a oferta.

    Em acordo com o exploitation, a fotografia de Rodriguez abusa dos grãos maiores, acusando uma estética mais suja e grosseira, sem perder as cores fortes daquele universo fantasioso urgente, com uso de filtros verdes, amarelos e vermelhos. Os efeitos especiais que mimetizam riscos, queimados e “machucados” na película dão um efeito nostálgico, principalmente nos momentos de maior tensão, como no confronto de Dakota e Dr. Block no hospital. A brincadeira do “rolo perdido” também é incluída em um momento oportuno, que cria uma piada narrativa com o entusiasmo do momento.

    Assim como em “Um Drink no Inferno”, o diretor parece se divertir MUITO com seus personagens absurdos. Desta vez, temos como protagonista uma go-go dancer atrevida e independente, Cherry Darling (Rose McGowan, experiente como scream-queen em “Pânico” e no esquecido “Fantasmas”); que é introduzida da mesma forma que Santanico Pandemonium. Em determinado momento, a personagem perde uma perna, que é substituída por uma metralhadora (!!), fazendo parceria ao revólver peniano de Sex Machine no longa de 1996. Já o herói El Wray (Freddy Rodriguez, impagável) é construído com um persona tão segura e misteriosa quanto Snake Plissken em “Fuga de Nova York”, inclusive em seu passado misterioso e lendário. Também é interessante reparar que El Wray é o nome do reduto ao qual os Irmãos Gecko estão fugindo em “Um Drink no Inferno”, criando uma ponte mítica entre os dois filmes.

    Também se destaca a volta do xerife Earl McGraw (Michael Parks), marca do universo Tarantino/Rodriguez; desta vez, apresentando sua poderosa filha, a Dra. Dakota Block (Marley Shelton, do ruim slasher “pós-Pânico” “O Dia do Terror”). Papel feito especificamente para Shelton após ela ter trabalhado com Rodriguez no sensacional “Sin City – A Cidade do Pecado”, Dakota é uma personagem forte e determinada. O diretor aproveita a beleza e os grandes olhos da atriz para criar imagens icônicas da estranheza do rosto borrado da personagem; criando um dos melhores cartazes do filme. Já seu marido, o Dr. Block de Josh Brolin (o eterno irmão mais velho “d’Os Goonies”), traz um tom de médico louco grotesco assim como o Dr. Hill de “Re-Animator – A Hora dos Mortos Vivos”.

    Com todo um elenco homogeneamente divertido no exagero e cheio de expressões nada sutis, “Planeta Terror” traz participações especiais de Tom Savini (dispensa apresentações) e Carlos Gallardo (o “Mariachi” original) como os policiais humoradas do xerife interpretado pelo eterno Kyle Resse, Michael Biehn; responsável por frases de efeito hilárias. Sem contar a participação de Jeff Fahey (“Anatomia de um Assassino”) como o simpático J.T. e Quentin Tarantino no papel do personagem mais asqueroso do filme.

    Cheio de ação absurda, Rodriguez cria algumas das cenas mais icônicas do cinema fantástico do século XXI, sempre com sua montagem dinâmica e câmera ágil. Não somente é divertido ver Cherry Darling dando todas suas piruetas e disparando sua metralhadora a bordo de uma Harley Davidson com pose de “Rambo”, como também é inventivo o modo que Rodriguez faz da especialidade de Dakota (anestesia) para empoderá-la. Ainda por cima, o diretor mimetiza a sequência de perseguição do fim de “Fuga de Nova York” ao criar uma solução para situação de sítio à la “A Noite dos Mortos Vivos”. Já a sequência final na base militar extrapola tanto as explosões nonsense quanto seria necessário para um filme com essa proposta.

    O diretor Robert Rodriguez ainda dirigiu o trailer falso de “Machete”, que mais tarde ganharia um filme próprio e até uma sequência. O próprio director alega que quis fazer com “Machete” uma versão Mexicana de James Bond. Com um clima de ação descerebrada e violenta IMPAGÁVEL (a metralhadora acoplada na Harley Davidson é sensacional), o próprio protagonista Machete de Danny Trejo (que se tornou seu maior papel no cinema) parece uma mistura de Chuck Norris em “Braddock – O Super Comando” com o “Cobra” de Sylvester Stallone, e isso em um filme de ação tosco produzido pela famigerada Cannon (produtora B de “American Ninja” e “Invasão USA”).

    O trailer ainda conta com frases tão bregas quanto a ação exploitation tem direito, com destaque para: “He knows the score; he gets the women and he kills the bad guys!”. Bem como, a prévia não poupa flashes de nudez gratuita que não faltavam a esse tipo de filme, além de sangue jorrando a partir das ações do herói e seu “facão”. Para melhorar ainda mais, o trailer já nos apresenta a coadjuvantes divertidíssimos, como o padre matador interpretado por Cheech Marin (“Deus tem piedade...eu NÃO!”).

    Rodriguez realizou um longa-metragem de “Machete” em 2010, além de uma exagerada sequência em 2013, “Machete Kills”. Apesar de divertidos, nenhum dos filmes conseguiu fazer justiça à prévia criada para “Grindhouse”, mesmo se levarmos em consideração a participação de nomes como Steven Seagal, Robert De Niro, Antonio Banderas, Mel Gibson e Charlie Sheen brincando com estereótipos.

    Destituído de necessidade de ser “sério” como obras como “Guerra Mundial Z” e “Eu Sou a Lenda”, “Planeta Terror” é um filme que se orgulha de estar ao lado de obras como “Demons – Filhos das Trevas”, “A Coisa”, “A Noite dos Arrepios” e até os filmes de Lucio Fulci. São todos filmes que sublimam a falta de recursos com criatividade, aproveitam o absurdo de seus universos e focam em criar uma diversão escapista intensa.

    “Planeta Terror” é admirável em sua sinceridade, e vigoroso na sua proposta. Muito mais divertido do que tinha direito de ser.

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  • Guilherme

    Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn, 1996) de Robert Rodriguez

    Após a “Era de Ouro” dos filmes de terror durante os anos 80, onde todos os subgêneros famosos de décadas anteriores foram desenvolvidos com homogênea competência; a primeira metade dos anos 90 fez o gênero declinar. Apesar de algumas pérolas terem sido lançados nessa época (“Drácula de Bram Stoker”, “Frankenstein de Mary Shelley”, "O Mistério de Candyman", “Entrevista com o Vampiro”, “O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger”, a refilmagem de “A Noite dos Mortos Vivos”, “Fome Animal”, “A Metade Negra”, “Demônios da Noite”, “À Beira da Loucura”, “Uma Noite Alucinante 3”), o cinema de terror havia perdido o fôlego e se apoiava, majoritariamente, em sequências de sucessos das décadas anteriores. Esse contexto é ainda mais contrastante quando lembramos que foi no início da década de 1990 que “O Silêncio dos Inocentes” ganhou os cinco principais prêmios do Oscar, sendo considerado o único filme com temática de terror a alcançar o feito.

    Até o lançamento de “Pânico” em 1996 (que revigorou o gênero com uma inteligência pós-modernista), quem era fã de terror precisava se contentar com inúmeras sequências pouco inspiradas como “Jason Vai pra o Inferno: A Última Sexta-Feira”, “Brinquedo Assassino 3”, “Hellraiser 4: A Herança Maldita”, “Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final”, “Cemitério Maldito 2”, “Criaturas 3”, “A Volta dos Mortos Vivos 3”, “Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3”, “Halloween 6: A Última Vingança”, “O Pesadelo Final: A Morte de Freddy Krueger” e VÁRIOS outros longas sem imaginação que tentavam chupar até o osso da criatividade dos filmes originais.

    Neste contexto, o lançamento de “Um Drink no Inferno” em 1996 (meses antes de “Pânico”) foi um sopro de esperança para os fãs de terror, já que a primeira parceria no gênero fantástico entre Quentin Tarantino e Rodriguez pegou a todos de surpresa pela inteligência insuspeita do roteiro de um filme de vampiros, e a direção vigorosa e referencial ao cinema exploitation.

    A história da amizade entre os dois cineastas é longa. Segundo rumores, os dois se conheceram no Festival de Sundance em 1992, quando Tarantino apresentou o seu clássico “Cães de Aluguel” e Robert Rodriguez o cult “El Mariachi”. Ambos sairiam laureados do festival, tendo sido lançados ao “hall” dos jovens cineastas mais promissores do momento. Porém, não era apenas o talento na direção, e o sucesso repentino com filmes sensacionais, que ambos tinham em comum. Tarantino e Rodriguez se encontraram parceiros como dois cinéfilos que AMAM o cinema fantástico (ficção científica, terror, fantasia) de décadas anteriores; além de filmes trash e exploitation.

    O roteiro do filme foi escrito por Tarantino após um “trato” que ele havia feito com seu amigo Robert Kurtzman, maquiador da famosa empresa de maquiagem e efeitos especiais KNB (Kurtzman-Nicotero-Berger). O trato era o seguinte: pelo trabalho de maquiagem realizado por Kurtzman em “Cães de Aluguel” (em especial, a cena da orelha), Tarantino precisaria retribuir o favor escrevendo um roteiro de um filme de vampiros a partir de um argumento do maquiador. A ideia de Kurtzman, que revelou mais tarde ter se baseado no divertido cult 80’s “Vamp – A Noite dos Vampiros”, era a de um bordel cheia de prostitutas vampiras.

    Tarantino começou a trabalhar no texto ao mesmo tempo que estava escrevendo “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, porém, só terminou o roteiro após seu clássico máximo ter sido finalizado. A intenção do cineasta era criar um filme de vampiros com a estética trash, cheio de gore e ação que fosse um contraposto aos últimos filmes vampirescos românticos de sucesso do cinema, como “Entrevista com o Vampiro” e “Drácula de Bram Stoker”. Inclusive, Tarantino fornecia entrevistas dizendo que “Um Drink no Inferno” era um “filme sobre vampiros filhos da p*** que mereciam morrer!”. Além disso, um dos slogans do filme era “Muitos Vampiros. Nenhuma Entrevista”.

    Decidido a focar apenas na escrita, Tarantino desistiu de dirigir o filme. O cineasta chegou a oferecer a direção a Robert Kurtzman, que não se achou apto para o desafio. Em conseguinte, grandes nomes do momento se interessaram pela direção do terror, incluindo Tony Scott (que já havia dirigido um roteiro de Tarantino em “Amor à Queima-Roupa”, além de um filme de vampiros clássico dos anos 80, “Fome de Viver”) e Renny Harlin (com experiência em terror por “A Hora do Pesadelo 4 – O Mestre dos Sonhos”, e ação, como em “Duro de Matar 2”). No entanto, Tarantino ofereceu a direção ao seu parceiro Robert Rodriguez, pelo vínculo que possuem através do amor cinéfilo pelo exploitation.

    A escalação dos atores, entretanto, foi bem mais fácil. Harvey Keitel (de “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction”, mas que já era renomado desde os anos 70 trabalhando com Martin Scorsese), já era parceiro de Tarantino desde o início de carreira. Inclusive, foi Keitel um dos principais financiadores de “Cães de Aluguel”. Já Juliette Lewis (em alta desde que foi indicada ao Oscar por sua excelente performance em “Cabo do Medo”), era amiga de Tarantino desde a produção de “Assassinos por Natureza”, que o próprio Tarantino renega, apesar de ser um GRANDE filme de Oliver Stone. Enquanto isso, o próprio Tarantino iria interpretar Richie, um dos irmãos bandidos protagonistas do filme.

    Já a escalação do protagonista Seth foi mais complicada. Vários atores que já haviam trabalhado com Tarantino antes foram considerados: Tim Roth, Steve Buscemi, Michael Madsen e até Cristopher Walken. O roteirista ofereceu o papel a John Travolta quando ele ainda estava escrevendo o roteiro, porém o ator preferiu trabalhar em “Pulp Fiction”. Como Tarantino já havia dirigido um episódio do famoso seriado dos anos 90 “ER: Plantão Médico”, o cineasta ofereceu o papel a George Clooney como uma possível piada irônica; enquanto no seriado o ator interpretava um médico que salvava pessoas em situação de emergência, no filme ele interpretaria um personagem que enviaria pessoas para a emergência (!!). Lembrando que Clooney não era, até então, o GRANDE astro que é hoje, e inclusive já havia trabalhado em filmes trash como “A Volta dos Tomates Assassinos” e “De Volta à Escola de Horrores”. “Um Drink no Inferno” foi sua primeira grande oportunidade nos cinemas.

    A melhor sacada de “Um Drink no Inferno” é o modo como Tarantino conduz seu roteiro. Possivelmente influenciado pelas sessões duplas dos antigos Grindhouses, o roteirista cria dois filmes em um: a primeira metade é um filme fatalista de ação sobre a fuga de dois irmãos criminosos; a segunda metade é um filme de vampiros brutal com tudo que os fãs de filmes B têm direito. E como EXCELENTE roteirista que é, Tarantino usa a primeira metade do filme para apresentar e desenvolver seus personagens com muito talento e dignidade, o que se torna essencial para que torçamos por eles quando o horror chegar e o filme ganhe uma nova dimensão de diversão.

    A cena inicial do filme, aliás, pode figurar entre as introduções de filmes mais impactantes do cinema de gênero, ao lado de sequências iniciais de filmes como “Pânico”, “Mensageiro da Morte”, “Halloween” e “Instinto Selvagem”. Com diálogos intensos que ajudam a ditar a urgência da situação (a discussão sobre os possíveis sinais dados a um policial nos fazem ranger os dentes de tanto nervoso), Tarantino trabalha, com sutileza, a personalidade de cada um dos bandidos. Enquanto Richie (Tarantino) apresenta uma clara delinquência e impulsividade (é claro que o personagem fala mentiras para suprir um certo desejo de confusão e carnificina), Seth (Clooney) se apresenta como uma postura muito mais segura, autoritária e “profissional”, apesar de não medir esforços para proteger seu irmão. Tarantino é certeiro em causar uma estranheza no espectador ao colocar Richie se referindo apenas a Clooney, e não aos outros personagens; além de não poupar os espectadores dos atos cruéis dos personagens, contrapondo o carisma dos atores.

    Em conjunto com o ótimo texto, o diretor Robert Rodriguez trabalha sua câmera e montagem de forma tão dinâmica quanto já estava acostumado em “El Mariachi” e “A Balada do Pistoleiro”. Além de criar closes no rosto dos atores para criar gradativamente com cortes secos para criar um estilo cool com os diálogos de Tarantino (“Everbody be cool! You. Be cool!”), o diretor também sabe trabalhar a montagem dinâmica para imprimir mais tensão à situação através das ações simultâneas (como a discussão de Seth e Richie paralela à abertura de um cofre). Já a cena sem cortes em que há uma explosão ao fundo e os protagonistas discutindo à frente como se nada estivesse acontecendo é hábil ao demonstrar a atmosfera divertida de ação do filme, além da personalidade ousada dos irmãos Gecko.

    Após a sequência inicial sensacional, o filme segue apresentando os planos dos Gecko em paralelo à apresentação da família Fuller, o pai Jacob (Keitel) e os filhos Kate (Lewis) e Scott (o novato Scott Liu). Sabendo acompanhar a inteligência na criação dos personagens de Tarantino, Rodriguez maneja as imagens para ambientar os espectadores. Reparem como ele varia entre zooms in e out, nos rostos de Kate e Jacob, durante um diálogo emocionalmente doloroso durante um café da manhã; variando entre falas de maior intimidade e outras de distanciamento entre os parentes. Notável também são as câmeras subjetivas desconfortáveis que Rodriguez usa entre Richie e sua refém; culminando na montagem em flashes de uma “cena do crime” enquanto Rodriguez faz um longo plano no rosto atônito de Seth, substituindo suas palavras e interpretando, em imagens, o choque do protagonista.

    Se Seth e Richie se mostram personagens MUITO interessantes, seus intérpretes fazem justiça ao texto. George Clooney tem um carisma natural caro aos astros da “Era de Ouro” de Hollywood, como Cary Grant. Encarando todos os outros personagens com um ar sisudo e seguro, migrando de atos cruéis a outros de empatia (como na conversa íntima com Jacob), Clooney traz para Seth uma dignidade insuspeita, conseguindo tornar aquela figura assassina estranhamente carismática. Já Quentin Tarantino oscila um pouco mais, afinal um personagem psicopata como Richie é bem mais difícil de simpatizar. O cineasta é genuíno ao demonstrar o carisma de Richie por aquela família, apesar de parecer um pouco caricato nos momentos de confronto (como ao discutir com seu irmão na primeira cena).

    Harvey Keitel, sempre excelente, transforma Jacob em uma figura trágica através das feições sutis de cansaço em seu rosto. Além de transparecer muita simplicidade, Keitel tem uma postura exausta que transparece uma grande carga emocional, digna de seu passado. Notem a forma niilista como ele conversa com os irmãos Gecko após se encontrarem pela primeira vez, desafiando-os com os olhos justamente por não se importar com seu próprio destino. Já Juliette Lewis demonstra química com todo o resto elenco, chamando a atenção por singelos momentos de comédia, como ao tomar uns “tragos” no Titty Twister.

    Como destaque negativo está interpretação apática de Scott Liu. Como destaque positivo está o veterano Michael Parks (“Twin Peaks”) como o Texas Ranger Earl McGraw. O personagem ficou tão interessante na pele de Parks, com uma postura de experiência sábia e cínica, que retornou para vários outros filmes dos cineastas, incluindo “À Prova de Morte”, “Planeta Terror” e os dois “Kill Bill”.

    A fotografia de Guilhermo Navarro (parceiro de Rodriguez) consegue trazer um tom de crueza realista fiel à estética exploitation; em adição a cores fortes de amarelo e bege que acentuam o ambiente desértico em que os personagens se encontram.

    E se depois de Tarantino e Rodriguez nos ambientarem no clima de filmes de ação de gangsteres violentos, na vibe exploitation 70’s, é quando os personagens chegam no boteco Titty Twister que as coisas mudam de figura; e que um novo filme começa a ser projetado naquele “cinema Grindhouse”.

    Nos ambientando naquele novo universo, o diretor Rodriguez utiliza de uma trilha-sonora EXCELENTE que abusa de blues rock e southern rock’n’roll, principalmente de bandas como ZZ Top e Tito & Tarantula. Esta última, aliás, faz presença tocando suas músicas cheias de energia naquele “inferninho”. Até a fotografia de Guilhermo Navarro se modifica, abusando de cores mais fortes e quentes (vermelho e amarelo), tornando aquele local um verdadeiro inferno.

    Da mesma forma, o roteiro de Tarantino nos apresenta a personagens cada vez mais divertidos em seu absurdo para mudar o tom do filme. A começar pela caricatura Chet Pussy (Cheech Marin, da dupla “Cheech e Chong”), o mestre de cerimônias tão asqueroso quanto engraçado do Titty Twister, ficando famoso por seu extenso, nojento e entusiasta, discurso sobre as variedades de “pussies” do local. Marin ainda interpreta outros dois personagens no filme, um dos guardas mexicanos na fronteira, e o gangster Carlos. Enquanto isso, Tom Savini (a LENDA viva do cinema de terror) também fez história por seu Sex Machine, um motociclista com caracterização sadomasoquista que possui uma arma sugestivamente sobre a região pélvica (hilária em sua invencionice); inclusive, a arma já havia sido vista no filme “A Balada do Pistoleiro”. É importante citar que Sex Machine é referência direta a um personagem similar que Tom Savini já havia interpretado no clássico “Despertar dos Mortos”, de George A. Romero. Esse seguimento do Titty Twister também conta com a participação de Fred Willianson, um ator icônico do blaxploitation como “O Chefão de Nova York” e “Os Guerreiros do Bronx”; além do mexicano Danny Trejo (figura carimbada do cinema de Rodriguez) no papel de Razor Charlie, o barman que marcou presença em todos os filmes de “Um Drink no Inferno”.

    Focado em trazer a fluidez dos filmes de John Carpenter (reparem no “Precint 13” da camiseta de Scott, referenciando “Assalto a 13ª DP”) e a energia insana de Sam Raimi, Rodriguez aplica um entusiasmo ainda mais intenso na segunda metade do filme. Para nos apresentar a insanidade daquele local de bebedeira e sexo, Rodriguez já cria um plano sequência que mostra todo aquele ambiente fumegante, ao mesmo tempo que monta o filme de acordo com o ritmo da música tocada pela banda do local. O design de produção de Cecilia Montiel (“A Máscara do Zorro”) aproveita ao máximo as possibilidades do ambiente do Titty Twister, criando uma arquitetura ampla, como se fosse um templo dos infernos; com arquitetura malcuidada, iluminação sombria, objetos decrépitos, com um pé direito enorme, cheio de reentrâncias sinistras (gosto especialmente dos balcões superiores das dançarinas), pinturas de parede com formas sinistras e descascadas, ambiente imundo e estátuas infernais.

    Rodriguez também é responsável por criar uma das cenas mais sensuais do cinema, apresentando a dança hipnotizante da Santanico Pandemonium (Salma Hayek) ao som de “After Dark”. Na verdade, Hayek tinha fobia de serpentes, e a intérprete da personagem seria Madonna, sob o nome de Blonde Death. Porém, Hayek ficou com o papel após superar seu medo de serpentes com um terapeuta; e o nome Santanico Pandemonium foi escolhido como homenagem a um filme de terror B mexicano, “Santanico Pandemonium: La Sexorcista” (1975). Sem contar que Tarantino realiza seu fetiche por pés de uma forma grandiosa.

    E quando o terror finalmente começa, Rodriguez não dá tempo para o espectador respirar. Da mesma forma que Sam Raimi turbina seus “Evil Dead” com um vigor insano, Rodriguez cria um banho de sangue que não envergonha seu mestre. Com vampiros realmente bizarros e sanguinários, Rodriguez intensifica a violência com cortes dinâmicos, trilha sonora que traz tons de cânticos satânicos como em “A Profecia” e os movimentos animalescos e selvagens de seus vilões. E tudo isso ao som pesado de uma banda vampiros tocando instrumentos feitos de partes do corpo humano!!!!

    O diretor consegue nos fazer arrepiar de medo daqueles vampiros, como na cena silenciosa que acompanha um vampiro desmembrado se rastejando até uma vítima; ou até o plano externo do Titty Twister à frente de uma gigante lua e totalmente tomado por morcegos. Ao mesmo tempo, Rodriguez nos diverte com os embates absurdos. Dentre elas, destaca-se o uso do chicote de Sex Machine (que referencia o videogame “Castlevania”); a morte de um vampiro sobre uma mesa de sinuca (reparem onde os olhos daquela caveira irão parar) e até na transformação BIZARRA de um vampiro em um monstro ainda mais absurdo. Deve-se destacar o trabalho de maquiagem e efeitos especiais intencionalmente toscos e exagerados (reparem nos derretimentos dos vampiros), que exibem uma criatividade digna da falta de recursos de produções B. As figuras vampirescas adotam um tom realmente grotesco, com olhos esbranquiçados, carrancas enrugadas e demoníacas (como os demônios de “Uma Noite Alucinante 2”), além de bocarras absurdas que remetem aos vampiros de “A Hora do Espanto”.

    Tão sanguinolento e despudorado quanto o terceiro ato de “Fome Animal”, o roteiro de Tarantino ainda cria soluções inventivas e bem-humoradas acerca do método de morte dos vampiros, como ao criar “granadas” de camisinhas com água benta, uma britadeira com uma estaca em sua ponta e “arminha” de água que esguicha água-benta. Rodriguez ainda reserva uma montagem no melhor estilo “Comando para Matar” para mostrar os personagens se armando para uma luta. Também interessante é o momento metalinguístico em que os personagens discutem formas de se matar um vampiro aprendidas no cinema, citando o GRANDE Peter Cushing, o Van Helsing do “Drácula” de Cristopher Lee, da Hammer.

    Ironicamente, no mesmo ano foi lançado um “Bordel de Sangue”, baseado no universo do seriado de terror “Contos da Cripta” que tratava do mesmo tema: um bordel cheio de prostitutas vampiras. Apesar de ser divertido, e trazer atores de filmes de vampiros clássicos, como Corey Feldman (“Os Garotos Perdidos”) e Chris Sarandon (“A Hora do Espanto”), “Bordel de Sangue” não chegou ao patamar de “Um Drink no Inferno”.

    O filme concorreu a nove prêmios ao redor do mundo, inclusive venceu dois deles no Saturn Awards, de Melhor Filme de Terror e Melhor Ator para George Clooney. Já Quentin Tarantino, infelizmente, venceu um Framboesa de Ouro de Pior Ator Coadjuvante. Sucesso de bilheteria, o filme arrecadou US$ 58 milhões, somente nos cinemas, para um orçamento de US$19 milhões. Isso sem contar o mercado home video.

    Sem deixar de contar com a marcas registradas dos roteiros de Tarantino (como a marca de cigarros Red Apple e a lanchonete Big Kahuna Burger), “Um Drink no Inferno” fez tanto sucesso que possibilitou duas sequências lançadas diretamente em vídeo: “Um Drink no Inferno 2: Texas Sangrento” e “Um Drink no Inferno 3: A Filha do Carrasco”, ambos com produção executiva de Tarantino e Rodriguez. Sem contar a atual série de TV produzida para a Netflix.

    “Um Drink no Inferno 2: Texas Sangrento” foi lançado em 1999. Dirigido por Scott Spiegel (roteirista parceiro de Sam Raimi em “Evil Dead 2”) o filme não se passa no Titty Twister e investe em uma trama criminal bem característica do universo de Quentin Tarantino (não faltando nem surf music). Apesar de sobreviver pela memória afetiva, o filme é bem ruim e com péssimos diálogos e personagens. Nem em relação ao terror o filme funciona, já que a caracterização dos vampiros, e seus momentos, são todos realizados sem o vigor necessário. No entanto, o filme se beneficia de uma participação rápida de Bruce Campbell (nosso eterno Ash) e do protagonismo de Patrick Stewart, o T-100 de “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final”, além da aura trash divertida.

    “Um Drink no Inferno 3: A Filha do Carrasco” foi lançado em 2000. Bem melhor que o filme anterior, o longa segue mais o estilo de ação “faroéstico” de Robert Rodriguez e se apresenta com uma fotografia mais bem realizada e momentos de terror e gore que remetem ao primeiro filme. Sendo uma prequel, o filme traz alguns personagens do filme de 1996 de forma interessante e passa bastante tempo dentro do Tetilla del Diablo, o antigo Titty Twister. Além disso, o filme ainda conta com atuação da GRANDE Sônia Braga (sim, ela mesma), que não negou nem a maquiagem bizarra de vampirona; além do excelente Michael Parks em um papel histórico de Ambrose Bierce (escritor de terror que se juntou ao grupo rebelde de Pancho Villa na Revolução Mexicana). Filme B bem divertido.

    “Um Drink no Inferno” é uma experiência cinematográfica divertidíssima. Um filme de gangsteres e vampiros que entrou para a história e dispõe de duas mentes criativas MUITO talentosas. Um dos melhores filmes de terror dos nos 90.

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  • Guilherme

    O Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon, 1954) de Jack Arnold

    Enquanto os anos 30 e 40 exploraram o terror oriundo do sobrenatural, mitos e lendas, a década seguinte explorou um terror oriundo da ciência e do desconhecido espaço sideral. O fim da II Guerra Mundial gerou a Guerra Fria, a Corrida Espacial entre EUA e União Soviética, e as possibilidades terríveis da ciência em nome da guerra, já que as tragédias de Hiroshima e Nagasaki marcaram toda a população mundial. Desta forma, vilões mitológicos como Drácula, Frankenstein e Lobisomem não só haviam se desgastado pelas inúmeras sequências de seus clássicos filmes; como também já haviam sucumbido para filmes paródicos (como os da dupla Abbott e Costello).

    O verdadeiro terror do cinema na nova década estava relacionado à monstros terrestres oriundos de radiação e experimentos científicos, ou sci-fis com alienígenas assassinos. Longas como “A Mosca” (refilmado nos anos 80 por David Cronenberg, no clássico homônimo), “O Monstro do Ártico” (também refilmado nos anos 80 por John Carpenter no clássico “O Enigma de Outro Mundo”), “O Monstro do Mar Revolto”, “O Terror que Veio do Espaço”, “A Invasão dos Discos Voadores” e tantos outros, enchiam as matinês da época.

    Se adequando aos novos tempos, a Universal criou seu último personagem do “Legado de Monstros” em acordo com o viés científico do novo cinema fantástico. “O Monstro da Lagoa Negra” não é um alienígena, ou uma criatura oriunda de radiação, mas sim um elo perdido entre os seres aquáticos primitivos e os terrestres, que é encontrado através de um grupo de pesquisa. E acreditem ou não, o Gill Man (como é chamado o monstro do filme) é BRASILEIRO! Sim, isso mesmo. O Brasil também tem seu representante no cânone de monstros do cinema clássico. O Gill Man é uma criatura que vive no meio da floresta amazônica, e um reduto completamente selvagem, onde fica a sombria “Lagoa Negra”.

    O filme foi rodado com uma técnica primordial de 3D, para aproveitar ao máximo as possibilidades das cenas embaixo d’água. Apesar desta técnica arcaica ter sido muito criticada, o diretor Jack Arnold explorou muito bem a grande profundidade de campo que cenas submersas possibilitam. Com uma bela fotografia em preto e branco, o diretor explorar a paleta monocromática para dar ao lago o tom macabro que justifica o título do filme. Além disso, o diretor cria planos plasticamente belíssimos ao fotografar a protagonista Kay (Julie Adams) nadando em um magnífico contra-plongèe. O quadro não é só elegante, como também chega à genialidade quando percebemos que aquilo é um olhar subjetivo do monstro, e o modo “invertido” como ele enxerga o mundo.

    O diretor Jack Arnold se especializaria em filmes B sci-fi da década de 50, dirigindo ainda longas cultuados como “Veio do Espaço”, “Tarântula!”, e o clássico “O Incrível Homem que Encolheu”. Arnold cria várias boas sequências de ação embaixo d’água, criando um imagético tão rico em beleza e ritmo (com os movimentos necessariamente lentos) quanto as cenas submarinas semelhantes de “007 Contra a Chantagem Atômica”. Além disso, o diretor filma com muita credibilidade seus ambientes externos da floresta úmida; não só por aproveitar o design de som (que é rico em barulhos da mata e de animais selvagens ao redor dos protagonistas), como também ao dar uma sensação de encurralamento naquele sombrio lago, já que a floresta é incrivelmente densa.

    O roteiro do filme traz muitos elementos de “O Mundo Perdido” (1925) e “King Kong” (1933). O Gill Man é um monstro da natureza selvagem que vive em seu ambiente natural assim como Kong. Além disso, ambos se apaixonam pela protagonista feminina, inclusive levando-a para uma caverna opressora em determinado momento. No entanto, os erros temáticos de “King Kong” são (um pouco) melhorados em “O Monstro da Lagoa Negra”. No geral, o roteiro exibe uma forte mensagem de responsabilidade ambiental através de seus heróis, já que o Gill Man não é tratado como um monstro sádico, mas sim uma criatura que tenta proteger seu “Lar” da invasão de outros animais possivelmente ameaçadores. Diferente de “King Kong”, que tratava a criatura como uma besta selvagem que merecia ser capturada e exibida a bel prazer dos seres humanos.

    Apesar da compaixão que sentimos pela criatura, é inegável que ela seja aterradoramente fascinante, principalmente pela violência animalesca como mata suas vítimas com as próprias mãos. A maquiagem de Bud Westmore (“Spartacus”) mistura elementos reptilianos e anfíbios com bastante inventividade. Não somente os detalhes das cristas e membranas interdigitais são bem resolvidas, como também a textura das escamas é bastante crível. O modo como a criatura respira fora d’água (como movimentos rítmicos das brânquias) é um detalhe que não só fornece mais realismo à criatura, como também revela é um belo trabalho de atuação. O nadador Ricou Browning (que interpretou o monstro em todas as sequências), ainda exibe muita imaginação ao criar os movimentos ondulares da natação do monstro. Os efeitos sonoros criados para o monstro combinam muito com a sua figura grotesca, combinando tons guturais e “úmidos”.

    O filme também possui um tema musical bastante presente durante a projeção. Apesar de claramente forte em seu tom de terror melodramático, é fato que as incursões do tema são realizados para criar uma iconografia particular do ataque do monstro. As imagens da mão do monstro saindo de dentro do lago para capturar algo na superfície, ou até a silhueta do monstro nadando em paralelo, e de frente, com uma personagem são difíceis de tirar a cabeça. A verdade é que a trilha sonora do longa fornece uma atmosfera de filme B que, unida às imagens, torna “O Monstro da Lagoa Negra” uma experiência muito divertida.

    O filme teve duas sequências: “A Revanche do Monstro” (1955) e “À Caça do Monstro” (1956). Apesar de, curiosamente, ser o monstro do “Legado de Monstro” da Universal que mais vendeu produtos licenciados (todos os tipos de brinquedos, gibis, livros, jogos e bonecos possíveis), o Gill Man só seria visto de novo em sua versão original no nostálgico “Deu a Louca nos Monstros”. Essa pérola dos anos 80 mistura “Os Goonies” e “Os Caça-Fantasmas” com os monstros da “Era de Ouro” do cinema. É uma aventura muito divertida, com atores muitos carismáticos e que presta uma linda homenagem aos monstros clássicos da Universal. Destaque para a SENSACIONAL maquiagem de Stan Winston (“Aliens – O Resgate”, “O Exterminador do Futuro”, “O Predador”), que trouxe, dentre vários monstros, o Gill Man de uma forma ainda mais orgânica e intensa. Um GRANDE filme que, até hoje, é bastante subestimado.

    Recentemente tivemos o lançamento do, já clássico, “A Forma da Água”, do querido Guilhermo Del Toro. Mesmo que, ao assistir ao filme, não seja surpresa pra ninguém que Del Toro baseou a criatura de seu filme “n’O Monstro da Lagoa Negra”; o diretor esclareceu em entrevistas que ele sempre sonhou em refilmar o filme para dar um destino mais justo à criatura. Porém, todas as ofertas que ele fez à Universal foram negadas. Talvez o estúdio tenha ficado bem arrependido após ver o filme de Del Toro arrebatar todos os seus prêmios (incluindo Melhor Filme e Diretor no Oscar), no mesmo ano que o início do “Dark Universe” foi um fracasso retumbante com a mais nova versão de “A Múmia”.

    A verdade é que “A Forma da Água” não só prega justiça à figura trágica do monstro, como também é um conto de fadas belíssimo sobre o poder da união das minorias, a aceitação das diferenças e a superação dos padrões e conceitos da sociedade. É sintomático que uma mulher muda, um homem homossexual e uma mulher negra se unam para salvar uma criatura vulnerável e em situação de crueldade, das mãos de um homem branco, sexista, racista, misógino e em situação de poder (Donald Trump? Alguém?). Del Toro é um diretor incrivelmente talentoso, amante inveterado do gênero fantástico (terror, ficção científica e fantasia) e que sempre “entendeu” os monstros clássicos com uma sensibilidade redentora. Inclusive, seu discurso no Globo de Ouro é emocionante justamente por vê-lo agradecer sua carreira aos “monstros” e fazer uma menção especial a Lon Channey.

    Fechando com chave de ouro o cânone essencial do “Legado de Monstros” da Universal, “O Monstro da Lagoa Negra” é um exemplo perfeito de filme de terror sci-fi B dos anos 50: possui uma atmosfera sinistra, um monstro bizarro criativo e um subtexto científico bem intencionado; além de nunca deixar de ser divertido.

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  • Arthur Ferreira
    Arthur Ferreira

    Excelente gosto aí, meu caro! E é isso aí, 0 filmes no "Não Quero Ver". 0 preconceito!

  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/

  • Lolline Carvalho
    Lolline Carvalho

    Muito obrigada por me aceitar. Adorei os seus comentários e análises dos filmes :D