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Últimas opiniões enviadas

  • Jeferson Martins

    Achei interessante como a trilha sonora, logo no início, dá tom ao resto do filme. Do rádio, conseguimos ouvir: “tristeza e mágoa me cercam... todos os dias rezo para que a solidão seja expulsa [...]”.

    Adiante, com o desenrolar da trama, observamos Xiao Wu, que acorda quase que religiosamente todas as noites, exatamente às 4:30 da manhã, para observar Jung, um homem coreano que está hospedado em seu apartamento. O menino, a cada visita, constrói um relacionamento virtual com o homem, encontrando conforto para sua vida solitária.

    Mas o ponto alto do filme não reside na narrativa, mas sim como ela é descrita através das imagens. Escasso de diálogos, Royston Tan nos apresenta dois personagens distintos conectados pela solidão e melancolia que assolam seus cotidianos. Suas performances se destacam e, a cada sequência, conseguimos capturar a profundidade emocional através de seus olhares e linguagem corporal.

    Os planos nos carregam através do longa nos proporcionando um estado contemplativo. As cores, o som, a luz, o enquadramento e a espacialidade dos objetos entram em harmonia com a condição dos personagens, e o diretor, assim, transpõem o sentimento de solidão para o cinema, quase nos lembrando um filme de Tsai Ming-Liang.

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  • Jeferson Martins

    Não tenho certeza se os diretores desse filme são Shin Sang-ok e Choi Eun-hee. Pelo que pesquisei, esse filme é do diretor Kyun Soon Joo, que dirigiu unicamente esse longa.

    Mas fora isso, "A Broad Bellflower" é um prato cheio para entender um pouco dos filmes da Coreia do Norte, que é um país tão fechado para o resto do mundo. Eu diria que o cinema norte-coreano, sem contar o cinema da União Soviética, é um dos objetos mais provilegiados para se pensar a relação entre cinema e política e as diversas configurações do realismo socialista.

    A grosso modo, o realismo socialista nasceu em meados da década de 1930 na União Soviética com a prerrogativa de delimitar o cinema a uma forma de educar o proletariado através da doutrina socialista e do conceito da guerra de classes. Contudo, apesar de ter surgido como um método que deveria superar o realismo crítico (como o neorrealismo italiano), que se abstraia em denunciar os problemas da sociedade burguesa sem propor uma perspectiva de transformação, e o naturalismo, que apenas descrevia determinado setor da sociedade, ele se degenerou num “envernizamento da realidade”.

    Claro que essa é uma visão simplória do que realmente foi e pode ser o realismo socialista. Depois da União Soviética, países como Vietnã, Albânia, China e Coreia do Norte adaptaram a ideia às suas diferentes realidades. No caso da Coreia do Norte, por exemplo, identificamos traços dessa estética mesclados à ideia do Juche, que é a ideologia dominante nas artes e em toda estrutura governamental, militar e política do país.

    O Juche, apesar de ter nascido através das ideias marxistas-leninistas, adapta a filosofia política à realidade coreana. Sinteticamente, o Juche (que pode ser traduzido como “autossuficiência”) propõem que o proletariado é o próprio mestre de sua revolução, sendo ele o responsável pela materialização de sua independência. Nesse sentido, a massa deveria alcançar a revolução através de uma independência geopolítica, autossuficiência bélica e econômica, voluntarialismo, nacionalismo e, acima de tudo, culto à personalidade de Kim Il-sung e sua família.

    O Juche impera em todas as áreas da Coreia do Norte e, por isso, não seria diferente com o cinema. A estética Juche no cinema tem suas raízes principalmente nos escritos de Kim Jong-il sobre o papel do filme na sociedade coreana.

    Curiosamente, o segundo líder norte-coreano tinha grande interesse pelas artes cinematográficas e, por conta disso, dedicou parte de seu trabalho definindo qual seria a estética dominante - e única permitida - nos filmes do país. Em seu livro “On The Art of Cinema” é possível observamos uma série de orientações acerca de como seria o filme ideal: endereçado às massas, o cinema deveria cumprir um papel social de educar o proletariado quanto a luta de classes e a ideologia Juche.

    Essas características se mostram bem claras ao assistimos "A Broad Bellflower". Despido de um cuidado estético e repleto de zoons - que me doíam a cabeça -, o longa é feito pelo governo diretamente para às massas. A narrativa é simples e lembra a estrutura canônica, com agente causal, início, meio e fim. As diversas inserções propagandísticas, que são usuais em todos os filmes norte-coreanos, se anexam a histórica quase como um argumento, onde no fim, tudo se resume a benéfica revolução socialista, que cai como uma luva para salvar toda a sociedade norte coreana dos males do capitalismo.

    Tem disponível no Youtube.

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  • Jeferson Martins

    “O Cheiro do Papaia Verde” foi o primeiro filme do cinema vietnamita que tive a oportunidade de assistir. O diretor Anh Hung Tran resgata o Vietnã de sua infância e nos apresenta imagens de um país tranquilo, distante e intocado pela guerra que devastou seu território entre 1955 e 1975.

    O filme, que acompanha Mui e a família a quem ela serve, se distancia dos problemas políticos para transferir para a tela questões morais e filosóficas. Para isso, o diretor franco-vietnamita reúne uma série de pequenas mudanças que tem como papel principal (re)organizar a vida dos residentes da casa. Ao mesmo tempo, o longa tem como plano de fundo a existência de Mui, que é moldada pelas tarefas diárias e o trabalho doméstico.

    Mui é uma observadora e, gradualmente, enquanto floresce em sua puberdade, aprende a se comportar quase como um bom espírito, que protege, guarda e organiza o lar de seus devotos. Mas o ponto principal é como isso é narrado pelas imagens. Anh Hung Tran nos apresenta planos sequência milimetricamente organizados, que passeiam pela casa tendo a arquitetura vietnamita e tecidos de seda como suporte para emoldurar os personagens na tela, tornando a mise-en-scène um dos pontos mais altos da obra.

    O ritmo do filme é quase como uma poesia visual e, sua narrativa, longe da poética aristotélica, pode decepcionar os que ainda sentem a necessidade de uma estrutura clássica, com um protagonista como agente causal e atos demarcados. Indo em direção divergente, o diretor quase se apoia num realismo sensorial, e os afetos causados no filme são subjetivos a cada indivíduo que o assiste.

    Assim, o desenvolvimento da narrativa a partir de algum conflito ou problema cede espaço para uma estética de fluxo que privilegia imagem e som em seu estado mais puro, onde o pensamento dialético do cinema narrativo dá lugar a contemplação. Por isto, eu arriscaria dizer que os planos sequência, a grande atenção aos detalhes, a preocupação intensa com a mise-en-scène e a quase inexistência de uma narrativa me lembram o cinema realizado por outros diretores asiáticos como Tsai Ming Liang, Apitchapong Weerasethakul, Abbas Kiarostami e Hou Hsiao-Hsien.

    Para além dessas características, outro tópico que chama minha atenção é o título da obra, que ao mesmo tempo que remete à infância do diretor, torna o mamão uma metáfora para o desabrochar de Mui. Para aos que não sabem, em alguns lugares da Ásia o papaia é considerado um vegetal quando está verde e, acredita-se que somente quando ele chega em sua fase madura ele se transformará em uma fruta. Semelhantemente segue a evolução de Mui na fina narrativa, como um mamão verde que se tornará um fruto doce após sua fase de crescimento.

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