Você está em
  1. > Home
  2. > Usuários
  3. > jefmsg
22 years (KOR)
Usuário desde Outubro de 2012
Grau de compatibilidade cinéfila
Baseado em 0 avaliações em comum

Últimas opiniões enviadas

  • Jeferson Martins

    Aos poucos estou conhecendo o trabalho de Naomi Kawase e ficando hipnotizado com seu cinema. Há alguns meses tive a oportunidade de assistir à ‘A Floresta dos Lamentos’ e fiquei num estado de contemplação com toda a estrutura que ela cria: desde a narrativa lenta (e sublime) à câmera bamba e inocente sob os personagens. O filme era de uma sutileza tão grande que resolvi tirar um tempo para reflexão antes de conferir suas outras obras.

    Em ‘Nanayo’, esse sentimento ainda perdura. A narrativa é tímida e apresenta uma estrutura de flutuação, onde os enquadramentos e movimentos de câmera de Naomi nos carregam pela trama como ondas no oceano, tudo num estado contemplativo. A história é simples ao extremo: não sabemos muito sobre a vida das personagens, nem de seus objetivos e perspectivas. Todavia, essa condução e desenvolvimento geniais da diretora funcionam como um ótimo artifício e vão criando reflexões potentes acerca das relações humanas, o que torna tudo uma inexorável crônica sobre a (in)comunicabilidade e barreiras linguísticas.

    Dentre todas as características de Naomi, o que mais me chama atenção é sua capacidade de transformar todo o filme num estado de espírito, onde o deslocamento e a sensação de pertencimento caminham de mãos dadas. Ninguém sabe a língua do outro, mas suas relações começam a mesclar-se para além da formalidade.

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    A sequência onde Toi some consegue ilustrar isso muito bem: é o ápice da barreira que se forma entre as personagens, sendo que ao mesmo tempo a busca pelo garoto é tudo que os une.

    De resto, basta aceitar que precisarei de mais um tempinho para absorver essa experiência antes de me encontrar em outros de seus filmes

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • Jeferson Martins

    Baraka (Ron Frickea, 1992), palavra de origem Sufi que pode ser traduzida como “benção”, “sopro” ou “essência da vida”, é um documentário que propõe um retrato do nosso planeta. Não suportando diálogos em sua trama, o filme é conduzido por um álbum vertiginoso de imagens ao redor do globo, que se mescla a sons ambientes, conversas e cantos. Através de planos surpreendentes, que funcionam como um espelho perante a vastidão da Terra, o longa (re)constrói a variedade da natureza em sua mais bela e cruel forma, reproduzindo civilizações indígenas, rituais religiosos, destruição, pobreza, vida urbana, ruínas antigas e guerras. Em Baraka, o diretor perpassa por uma intensa busca para que cada quadro consiga capturar a grande pulsação da humanidade, interligando, dessa forma, nossas consciências e sentimentos numa só frequência.

    Muito mais que somente um documentário, é necessário encarar a película como uma experiência sensorial de reflexão espiritual-artística que fala ao espectador de qualquer lugar ou de qualquer crença. Sendo assim, é um filme dialético, que depende da percepção e interpretação de quem vê. De modo não-linear e não-verbal, Baraka consegue discutir o sagrado e o humano; a ordem natural e a entropia; a santidade e o materialismo. É como se as energias universais resolvessem se debruçar e traçar um paralelo entre as suas diversas criações, transcorrendo por todo o planeta e construindo um olhar livre de julgamentos de seu yin e yang.

    Sua estrutura poético-imagética nos possibilita, portanto, variadas leituras. E é nesse caminho que podemos identificar a hipótese de Gaia, de James Lovelock, como um dos reflexos desse prisma. Através de uma perspectiva que combina pesquisa científica e metafísica, o autor aponta que a biosfera, a atmosfera, os oceanos e o solo formam um sistema autorregulador com capacidade para manter o planeta sadio por meio do controle do ambiente químico e físico. Essa estrutura, que age como um organismo vivo, é chamada de Gaia, em referência à deusa grega Terra.

    O postulado de Gaia é uma hipótese que fornece suporte científico para a interconectividade da vida em nosso planeta. Uma vez que a Terra responde a influências externas, é possível dizer que ela incorpora uma forma de inteligência.

    Baraka, da mesma forma, é um filme sobre a vida, um registro da humanidade e sua relação com seu lar. É livre da narrativa formal e diálogo, mas nunca vazio de emoção ou significado: é poesia da vida cotidiana, despertar para a vida e reconhecimento da desgraça de se estar indo rumo ao nada. Não importa quem você seja ou onde viva: você também está em Baraka.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • Jeferson Martins

    Para falar de Mary Reilly, primeiramente devemos voltar ao texto que inspira o livro: "O Médico e o Monstro", escrito em 1886, por Robert Louis Stevenson. A história é contada em relatos, através da perspectiva do advogado Utterson, que vai desvendado o caso ao decorrer da obra.

    Utterson, advogado e amigo do Jekyll, recebe um testamento do Jekyll oferecendo todo seus pertences e dinheiro para um tal de Sr. Hyde, da qual ele não conhece e nunca ouviu falar. Ele começa a investigar, conhece o Hyde e não se agrada nada com o que vê, pois ele é reflexo do que a sociedade vitoriana abomina. Um ano se passa e um assassinato, cometido por Hyde, acontece. Mas ele some sem deixar rastros. Depois de um tempo, ao ser chamado pelo empregado do Dr. Jekyll. Utterson se depara com Hyde morto no laboratório de Jekyll e descobre toda a verdade através de uma carta escrita pelo próprio doutor.

    A obra foi tão aterradora para a época, que dela vieram diversas transposições. No cinema a primeira versão foi de 1908, de Otis Turner. Depois dela vieram diversas outras. Além do cinema, muitas outras mídias fizeram releituras e tomaram como inspiração a história do Médico e o Monstro. Esse é o caso do livro escrito em 1990 por Valerie Martin, que foi transposto para o cinema Stephen Frears, 1996.

    O filme consegue manter quase que fielmente os acontecimentos do livro (apesar de não ser uma característica importante para avaliarmos uma transposição). O livro, não traz muitos pontos adicionais para a narrativa em relação ao livro que o inspira. Temos a mesma história, só que contada através da perspectiva de outra pessoa, a empregada Mary Reilly, que não aparece no livro de Stevenson. O filme continua com essa perspectiva, mostrando Mary desvendando o que acontece ao longo da história. O filme é construído através dos olhares dela e de suas percepções.

    Quando o personagem Jekyll aparece no texto, os ambientes quase sempre são fechados: ele sempre está dentro de casa. Frears seguiu o mesmo. O que é bastante interessante, porque a casa, simbolicamente representa sua própria mente: o fato de Jekyll ter uma entrada em sua residência por onde transita Mr. Hyde é uma alusão ao seu subconsciente, lugar onde “habita” esta outra personalidade que se apossa do seu consciente quando toma uma fórmula.

    Outro ponto interessante é em relação ao personagem de Hyde. No livro, ele é um personagem construído para ser totalmente detestável: ele é grotesco, sem boas maneiras, violento e sinistro. No filme, como oposto do Dr Jekyll, ele continua mantendo essas características, mas o diretor optou por mostrar um outro lado mais “cativante” ao personagem que só Mary tem a capacidade de captar.

    Assim, o cineasta continua emulando as estratégias do gótico, mas mescla o estilo gótico com um toque de romance entre Mary e Hyde, criando um jogo de sedução entre eles. O diretor aproveita-se da construção de Mary, que teve uma vida difícil e desde pequena conhece o mal das pessoas e da sociedade, criando uma fascinação estranha dela para com Hyde.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.