Você está em
  1. > Home
  2. > Usuários
  3. > joaovantol
33 years Florianópolis - (BRA)
Usuário desde Março de 2016
Grau de compatibilidade cinéfila
Baseado em 0 avaliações em comum

Se rir é o melhor remédio, RoboCop e Tropas Estelares são os filmes que mais me fizeram bem.

Últimas opiniões enviadas

  • João van Tol Guerra

    Nas primeiras cenas de Elegia da Briga já se percebe que os atores são muito velhos para os estudantes que interpretam. Não sei se isto foi o objetivo da escolha do elenco, porém este desconforto inicial felizmente se dissipa logo que se percebe a sem-vergonhice do argumento do filme. A discrepância de idades só fortalece a piada em cima do ultranacionalismo que levou o Japão à Guerra do Pacífico. Não é necessário nenhum esforço para associar os adolescentes valentões com hormônios represados do filme aos adultos que iriam à luta apenas alguns anos mais tarde após aderirem a uma ideologia crente de um destino manifesto asiático, pois em boa parte o alvo da sedução fascista foram os homens imaturos / crianças grandes. O mesmo garoto que em meados da década de 1930 toca piano com a genitália e ao final do filme tem um articulador da extrema direita como modelo a ser seguido, logo será o soldado que se acha moralmente superior aos inimigos e, quem sabe, talvez seja devorado pelos próprios superiores famintos em algum campo do arquipélago malaio. Parece uma piada maldita; enquanto no filme os quitutes ufanistas e o encontro no bar com Ikki Kita sinalizam um devorar ideológico sereno e figurado, a História mostra a queda de militares japoneses ao canibalismo literal.

    Seijun Suzuki já incomodara os produtores da Nikkatsu com alguns de seus filmes anteriores, por isso aqui ele teve que se contentar com a restrição ao preto e branco, mas se Elegia da Briga fica devendo na opulência multicolorida de predecessores como Tóquio Violenta ou Portal da Carne, em quesitos de energia cinética e humor cartunesco o filme entrega o mesmo estilo de montagem desvairada/descolada. As cenas da segunda escola são bem ilustrativas: os cortes súbitos que ressaltam o fervor quase sobrenatural do ultranacionalismo toda vez que se fala o nome da cidade; a obstrução alternada de parte da tela indicando uma juventude já indo a uma outra direção. O humor do filme é levado por um personagem meio alienado que parece se levar a sério demais, o que me fez lembrar um bocado o estilo de cara de pedra do Buster Keaton. O cerne do ridículo é a percepção de que alheios e centrados em si, fascistas podem soar engraçados sendo sinceros em suas crenças, como quando se marcha de peito inflado e nem se percebe as risadas em sua volta.

    Parece que Seijun Suzuki gostava de Yojimbo, filme do Kurosawa de 1961. A óbvia similaridade da trama em Juventude da Besta de 1963 torna-se homenagem neste Elegia da Briga de 1966 durante a cena em que o jovem protagonista observa do alto a briga que ele mesmo fomentou entre duas gangues. No filme do Kurosawa o fim do Período Edo fornece um vislumbre de mutação nas relações entre samurais e seus empregadores, aqui os turbulentos anos iniciais do Período Showa dão espaço a jovens e adoráveis punheteiros pré-fascistas ainda buscando grupos e ideias. A mudança de valores é um tema que percorre o filme inteiro, no nível individual o protagonista tenta suprimir seus desejos carnais através de meios religiosos, lutas com outros estudantes, rebeldia às regras escolares e por fim à adesão militar, e no nível coletivo há a marcha militar que atropela a garota sem esperanças e esmaga um crucifixo ao lado de duas bandeiras do Japão em estado de guerra. Talvez caiba a narrativa mistificadora de que após o castigo divino na forma de um grande terremoto em 1923 era necessário reconstruir o Japão buscando novos valores, e cabe também o paralelo com o irretocável Vidas ao Vento.

    Paul Verhoeven quis durante muitos anos fazer um filme inspirado no nazismo e a juventude alemã, e conseguiu realizá-lo em 1997 com o seu Tropas Estelares, totalmente zombeteiro e ainda hoje muito incompreendido. Seijun Suzuki, por sua vez, entregou sua própria sátira juvenil da sedução do autoritarismo pré-guerra na sua velocidade típica de linha de montagem e numa época em que a Segunda Guerra Mundial ainda estava viva na memória recente da população. Pelo que leio o Seijun Suzuki tinha muito pouco controle sobre os materiais que chegavam às suas mãos e era pressionado a cumprir agendas apertadíssimas, frequentemente filmando sem muito planejamento. Ainda assim creio que Elegia da Briga entrega um contundente e hilário argumento político, tirando sarro sem pudores de um passado doloroso. Só tenho elogios para Elegia da Briga, vejo como um dos filmes mais fortes desse diretor cuja filmografia é repleta de joias.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • João van Tol Guerra

    A experiência de assistir a Boi Neon me proporcionou algo que me é bastante incomum: imediatamente após ver o filme senti vontade de revisitá-lo. Duas semanas após a sessão, sem remédio em vista para essa aflição, não consigo evitar revisitar o filme mentalmente. Ele me é como um quadro absurdamente belo e detalhado, momentos sutis parecem ser cheios de significado e também não machuca o fato da apreciação plástica não ser apressada. É uma narrativa desinteressada de história, repleta de simbolismos, associações, humor e subversão, é tanto trágica quanto humanista ao ilustrar os sonhos e desejos de tantos personagens. Não me envergonho em dizer que escrevo este texto numa madrugada insone e lacrimejante após inexoravelmente voltar ao filme mais uma vez. Assim defino Boi Neon.

    O cenário é o das vaquejadas do nordeste e de início somos impactados com uma cena sufocante de bois amontoados, em preparação à violência arcaica de dois vaqueiros competindo para perseguir e derrubar um desses bois pelo rabo. Talvez os outdoors das estrelas das vaquejadas sejam apenas mais uma introdução urbana no meio rural, assim como os tecidos e os manequins descartados, a chapinha elétrica, ou como o próprio boi neon, mas essa área de intersecção parece tão natural quanto qualquer outra e, mais do que isso, muito real. É fruto da naturalidade e competência dos atores em situações banais como quando o vendedor de calcinhas xaveca a mãe inicialmente não muito confiante no produto; quando a menina no meio dos vaqueiros faz piada do umbigo do amigo gordo; e quando o vaqueiro conhece tanto o ofício que sabe que a melhor maneira de limpar a bosta do boi é com as mãos.

    Um olhar superficial no cenário e nas situações do filme já é muito recompensador pela riqueza visual e de sentimentos, há oportunidades de sobra para empatia e humor (pelo menos em duas cenas a sala em que eu estava explodiu em gargalhadas), mas abaixo dessa camada é possível uma riqueza alegórica extra. Parece-me que aqueles bois confinados e aglutinados no início servem de símbolo à própria existência dos personagens humanos, e a menina ao brincar tristemente com o cavalo alado sobre um curral cheio de animais aprisionados está representando seus próprios sonhos e frustrações. O filme trata muito sobre desejos (sexuais, como nas páginas coladas da revista erótica e na euforia da dança sensual) e aspirações (profissionais, como o vaqueiro que quer fabricar roupa e a menina que quer ser vaqueira), mas é realista a ponto de impor limites e é decepcionante ver o vaqueiro sendo escorraçado de sua tentativa de produzir um número módico de peças como resultado de seu analfabetismo técnico, ele está tão aprisionado quanto os bois que guia para as vaquejadas.

    Interessante também são os inúmeros paralelos exibidos ao longo do filme entre os personagens humanos e os animais. Há o cheiro do pano embebido na vagina da égua no cio que, da mesma forma que o perfume no pescoço do vaqueiro, incita ao sexo. No caso equino isso resulta no ato decepcionante da masturbação, num paralelo das já mencionadas páginas coladas com esperma de um homem solitário. Bois cagam e o vaqueiro mija ao ar livre sem cerimônia. Odores, esperma, mijo e bosta; boi, cavalo, homem, mulher, somos todos animais. No picadeiro homem e cavalo parecem um só; no palco dançarina e cavalo é uma só. Mas se tem algo físico que nos distingue de outros animais é nosso hábito de nos vestir, o que dá um peso simbólico para a aspiração do protagonista e toda a cidade fashion. Um diálogo no final do filme tem algo de significativo quando uma mulher grávida aponta ao vaqueiro como ele parece diferente com aquela vestimenta social, o vaqueiro por sua vez dá uma resposta semelhante ao ver a vendedora de perfume vestida de vigia. Isso talvez sirva como pontuação para um filme de subversão de estereótipos: um vaqueiro estilista, uma mãe caminhoneira e mecânica, uma menina que sonha em ser vaqueira, uma grávida que tem apetite sexual. Mas é a ausência de roupas e a nudez desprovida de gratuidade que caracterizam as minhas duas cenas preferidas: o banho dos vaqueiros com o contraste entre a delicadeza do vaqueiro estilista e a bestialidade de todos os outros; e a explosão de atração, sexo e gozo num plano longo após o aspirante a estilista tocar o cenário de seu sonho maior.

    Um filme profundamente humanista, um elogio ao bicho humano desprovido de preconceitos, de uma delicadeza ímpar e de uma tristeza sorrateira.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • João van Tol Guerra

    O Julgamento de Viviane Amsalem é um filme israelense e por vezes hilário ao abordar uma faceta da religião ortodoxa: lugar de mulher é em casa lavando roupa, cozinhando e cuidando das crianças. A Viviane do título é uma mulher nos seus quarenta anos que trava uma longa batalha para conseguir seu divórcio. Em Israel o único poder que pode unir duas pessoas em matrimônio ou divorciá-las é um tribunal composto por rabinos e a palavra final no segundo caso é a do marido. É um típico filme de cenário singular: o tribunal é o palco único para os absurdos da lei judaica, das meias-palavras de crentes histriônicos e da suposta inferioridade da mulher, mas não é palco para um resultado justo. É um filme movido por diálogos e talvez por isso dificilmente segurará a atenção do espectador hiperativo, afinal o filme mostra apenas cinco anos de um casal que não se fala indo ao tribunal e lavando roupa suja perante burocratas judeus que não dão voz à mulher. Quando a voz dela explode a vontade foi de juntar-me à falta de decoro.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • Nenhum recado para João van Tol Guerra.