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  • miras

    "No fim do filme, quando ele encontra o Lex, ele não o marca. O Batman do começo do filme marcaria, mas ali ele não marca, apenas assusta, e quando ele está no velório, ele fala à Diana que os homens ainda são bons". Um alien ensinou humanidade pra ele. "Martha!"

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  • miras

    BATMAN (FAUSTO) VS SUPERMAN (ÜBERMENSCH)

    Capítulo 2.6. Fabricação do Medo: duplicação do Morcego

    Batman não reflete a imagem do morcego em sua fantasia de Kevlar por acaso. Mais de uma vez Bruce Wayne alega estar possuído pelo “morcego”. Mas o que significaria para ele este signo, o morcego?
    Em Cavaleiro das Trevas, Frank Miller (1987) acrescentaria um dado biográfico que redimensionaria o papel do morcego no trauma de infância do personagem, e sua carga psicológica. Ao acompanhar uma noite de pesadelos do perturbado Bruce Wayne o leitor descobre que em sua infância, aos seis anos de idade, ao brincar pelo imenso jardim da Mansão Wayne, Bruce se acidentaria e cairia num fosso, uma caverna imensa, infestada de morcegos, no subsolo da mansão. Na verdade o garoto pela primeira vez fez a tentativa de superar a natura e se fazer deus: tenta ser mais rápido que um coelho (Figura 07). Depois que cai no buraco, enquanto seu pai vinha lhe resgatar, entraria em contato de forma dramática com dezenas de morcegos “possuindo sua pessoa” (Figura 08). Os morcegos revoam e se agitam aos olhos do pequeno Bruce, aterrorizado. A caverna, mais tarde, se tornaria a batcaverna.
    Este fato, ocorrido aos seis anos de idade, reforçaria ainda mais o diálogo premonitório que o personagem traça desde a infância com esta estranha criatura. O morcego ganharia um significado mais elaborado no mitologema do personagem.
    O morcego significa pra ele, em uma palavra, o medo. Nesta cena se pode ver o medo que ele sentiu quando caiu na caverna cheia de morcegos, o medo nos olhos vidrados da criança. Mas, como afirma o próprio Bruce Wayne anos depois ao revistar a lembrança, era um medo misto de excitação pelo desconhecido.
    Ali, paralisado em um “tempo morto” de fração de segundos, entre gritos de pavor, ele encara os olhos do marsupial, e o medo é suprimido pelo reconhecimento do medo. O medo se torna a compreensão dos mecanismos do medo. O medo se torna conhecimento. É o momento incipiente na Fenomenologia do Espírito hegeliana em que o medo toma “consciência de si” (Figura 09).
    Mas, no mundo de Mefistófeles, no mundo de Batman, todo e qualquer conhecimento não deve ser utilizado, aplicado? E todo conhecimento aplicado não é instrumento de poder? Não é a ciência que faz do homem algo mais?
    Pois em Batman: Ano Um ali sentado gravemente ferido, exigindo uma resposta, Bruce descobre: se quisesse realmente combater o crime com independência, ele precisaria urgentemente de um método. De sua primeira tentativa irremediavelmente fracassada ele notou que seus oponentes não o “respeitaram”: ele não os amedrontou. Se não bastasse, um morcego estoura o vidro e ele reconhece a criatura que o “aterrorizou quando criança”. O silogismo se compôs a seus olhos:

    “Criminosos são supersticiosos e covardes. Por isso, meu disfarce precisa provocar o terror em seus corações. Eu tenho de ser uma criatura da noite... Sim, pai. Eu me tornarei um morcego!” (MILLER; MAZZUCCHELLI, 1986. p. 30)

    O método seria reproduzir o medo no coração dos adversários; o mesmo medo que sentiu quando criança (ao ver um morcego). Quando criança, Bruce pôde reconhecer o medo, decifrá-lo. Pois conhecer um fenômeno ontológico é conhecer o processo pelo qual ele vem-a-ser. É poder, ao fim e ao cabo, reproduzi-lo. Conhecer o medo, e, sobretudo, compreender o medo, é estar apto a aplicá-lo.
    O insight que lhe ocorre quando um morcego invade o escritório é a tomada de consciência do processo pelo qual ele poderia duplicar o medo. Criar Batman significa reproduzir e duplicar o morcego: duplicar a performance do medo, reproduzir a Razão e o Espírito do medo que uma vez, quando garoto, ele sentiu.
    O medo reconhece a si mesmo, e produz uma síntese: Batman. Dessa forma, no rol de bat-equipamentos produzidos pela fantástica indústria de extensões tecnológicas (e próteses divinas) Wayne, pode-se acrescentar também a indústria da Fabricação do Medo.
    Desde então, o silogismo que relata este insight se tornaria lugar comum nas histórias do Batman. O poder necessário para transformar será atingido pela aplicação astuta do conhecimento. Afinal, tanto em Batman quanto em Fausto há uma transição iniciática entre conhecimento (em estado puro) e ciência prática (aplicação da técnica). A força motriz é a reorganização produtiva de um trauma de infância.

    Capítulo 2.8. Filho da Fortuna

    Bruce Wayne é herdeiro único da inestimável Fortuna Wayne (Figura 13). Assim como Fausto é o Filho da Fortuna.
    Faustus Junior. Há aqui um jogo de palavras. O pouco mais que mágico de feira, o sub-Cagliostro ou Saint-Germain apresentava-se como “filho da fortuna” o que traria consigo o fausto e as coisas propicias. Mas ouçamos a voz alemã da palavra: Faust é “punho”. (fist, em ingles). O punho, o vigor que controla; o vigor que faz as coisas tornarem-se propicias. A ordem segura, a chegada da fortuna. O domínio, a imperialidade; e o paraíso na terra. (...) Sabelicus é o eixo de nosso tempo; em seu pseudônimo encontra-se a proposição de nossa historia atual: o controle que deseja a vida feliz.(In: REVISTA DE CULTURA VOZES Nº5, 1972. p. 91)
    Não se trata apenas de herdar poderio econômico e bens patrimoniais; aponta também para a herança da ciência moderna, o método científico. A substância desta Fortuna é “o punho que domina”: A organização racional moderna que tenta controlar os fenômenos da experiência em nome do bem estar social.
    Dr. Fausto-pai representa, no arcabouço moral do personagem Fausto, o bem como valor. Seu pai dedicou-se à ciência essencialmente humana: a medicina. É celebre quando, no monologo inicial da peça de Goethe, em seu laboratório gótico, Fausto, desiludido, olha ao derredor e desdenha da inocente ciência medieval e seus instrumentos rotos. Tudo lhe era inútil na tentativa de ser divino e alcançar avanços definitivos.

    E assim fizemos nós com drogas infernais,
    Por todos estes campos e montanhas, mais
    Mortes do que as pestes podiam alcançar (GOETHE, 1968. p. 58)

    Fausto, que dedicou uma vida inteira à medicina, laboriosamente circundou a fragilidade da ciência presa aos grilhões do obscurantismo. O ceticismo quanto à ciência obscurantista e à medicina medieval revolta o intelecto de Fausto: segundo sua perspectiva, os médicos matam mais que as pestes ao tentar curá-las.
    No entanto, posteriormente, quando Fausto assina o pacto com Mefistófeles usando o próprio sangue, ele assume a scientia que outrora criticara: a ciência paterna. Mas com um novo método. A transição iniciática da ciência medieval para a ciência moderna, que a personagem apreende, se coloca como eixo da ideia de modernidade – ao mesmo tempo em que cumpre a sina edipiana do homem moderno e “mata” a figura paterna.
    Quando acolhe a ciência mefistofélica (que é a herança da ciência medieval paterna acrescentada do método científico moderno), acolhe a dor como parte inerente do progresso; acolhe a dor como episódio fenomenológico da aprendizagem e do desenvolvimento. A intensificação do processo impulsionaria verdadeiros avanços e maiores tragédias.
    Na série de 12 volumes O Longo Dia das Bruxas (LOEB; SALE, 1997), um flashback mostra quando a criança Bruce Wayne por uma única vez vê seu pai doutor Tomas Wayne trabalhar. Uma emergência médica, em que um mafioso famoso em Gotham toca a campainha da Mansão Wayne em plena madrugada, com o filho baleado. Doutor Thomas Wayne, relutante, o atende e lhe salva a vida (Figura 14).
    Ao ver seu pai trabalhar, a fascinação pela ciência é despertada em Bruce. Surge a fascinação pela alquimia industrial que transforma elementos, a fascinação pelo conhecimento que transmuta valores, a nicromancia medicinal que ressuscita o convalescente, a magia da ciência que transforma o mundo. Porém, quatro anos mais tarde, esta mesma criança entraria em contato com o lado trágico do lema positivista “ordem e progresso”: constataria que a ciência moderna contém ambiguidades e contradições.
    Adulto, depois de um árduo processo de aprendizagem, Bruce Wayne descobriria um método para usar sua Fortuna, a detenção dos meios técnicos de produção, para combater as ambiguidades da Fortuna, os impactos e contradições do progresso científico, social e econômico. Cumprindo o ideal gramsciano de mudar o sistema por dentro: um santo de casa (Gotham) tentando fazer milagre.
    O Filho da Fortuna da literatura fez seu pacto com Mefistófeles. O Filho da Fortuna dos quadrinhos fará o seu com Batman.

    Capítulo 2.9. A Tragédia Fáustica de Batman

    Bruce Wayne carrega consigo um significativo trauma de infância. Esse drama permeia sua existência de forma tão intensa que é obsessivamente lembrado (Figura 15).

    A síntese histórica hegeliana, através da oposição dialética da consciência, procura uma conclusão além da simples compilação histórica. O sujeito científico que pesquisa o ser com o “método” hegeliano conheceria engrenagens do progresso (o vir-a-ser) enquanto processo doloroso; “o passado que funda a memória; a memória que funda a dor; e a dor que funda progresso” (CHÂTELET, 1995. p. 64).

    Em seu julgamento moral sobre o latrocínio que vitimou a família, Bruce Wayne sabe que seus pais ajudaram a criar o que lhes destruiu. Sabe por exemplo que, enquanto grande industrial, totem capitalista, alimenta a desigualdade social, indiretamente incentiva a marginalização, produz subjetivamente também a miséria; a criminalidade é uma seqüela deste sistema financeiro global.
    Numa leitura norteada pelo materialismo-histórico, as Organizações Wayne é, enquanto protagonista desse sistema financeiro global, historicamente responsável pela situação daquele criminoso, coadjuvante deste mesmo sistema financeiro, que aborda a família Wayne na noite fatídica no Beco do Crime (Figura 16).
    O antagonismo entre classes sociais é evidenciado pela aparência indefectível daquela família e o colar de pérolas de Mrs. Wayne, objeto de furto no latrocínio. A prosperidade e a vida exultante interrompida abruptamente, à prova da segurança social, quando a Família Wayne dispensa a limousine para fazer um passeio junto ao povo, sentir os ares integrados da experiência urbana moderna (Figura 17).
    Sua fortuna, entretanto, para além de sua tragédia pessoal, possibilita a detenção dos meios técnicos de produção e a posse do conhecimento necessário, (do Saber), para transformar o mundo. Batman é certamente um dos poucos super-heróis dos quadrinhos com consciência histórica. Bruce Wayne, por vias tortas, é o homem histórico-cósmico hegeliano, o homem que atingiria uma síntese e a partir dela olharia o futuro.
    Aceitar a fortuna e usá-la para redenção significa dolorosamente progredir, desenvolver. Quando Bruce assume o morcego, Bruce assume a Fortuna Wayne. Assume Batman como aquele que combateria, com as forças da fortuna, os estragos da fortuna. Entretanto, a dor e a violência que contrastaram os progressos e avanços foram traumatizantes para o herói (Figura 18). Ele percorreu um longo caminho ate achar o método.
    Como o Fausto de Goethe, outro exemplar de homem histórico hegeliano, Batman não almeja ser algo além-do-homem por meros anseios pessoais: seu objetivo é autodesenvolvimento, que significa desenvolvimento social. Não é apenas descarga de consciência, é também amor à humanidade. É um humanista na concepção da palavra.
    Marshall Berman (1998), em sua leitura do Fausto, atesta que a dialética dor e progresso é o subtexto na obra de Goethe.

    Uma das ideias mais originais e frutíferas do Fausto de Goethe diz respeito à afinidade entre o ideal cultural do autodesenvolvimento e o efetivo movimento social na direção do desenvolvimento econômico. Goethe acredita que essas duas formas de desenvolvimento devem caminhar juntas, devem fundir-se em uma só, antes que qualquer uma dessas modernas promessas arquetípicas venha a ser cumprida. O único meio de que o homem moderno dispõe para se transformar — Fausto e nós mesmos o veremos — é a radical transformação de todo o mundo físico, moral e social em que ele vive. A heroicidade do Fausto goethiano provém da liberação de tremendas energias humanas reprimidas, não só nele mesmo, mas em todos os que ele toca e, eventualmente, em toda a sociedade a sua volta. Porém, o grande desenvolvimento que ele inicia — intelectual, moral, econômico, social — representa um altíssimo custo para o ser humano. Este é o sentido da relação de Fausto com o diabo: os poderes humanos só podem se desenvolver através daquilo que Marx chama de “os poderes ocultos”, negras e aterradoras energias, que podem irromper com força tremenda, para além do controle humano. O Fausto de Goethe é a primeira e ainda a melhor tragédia do desenvolvimento. (BERMAN, 1998. p. 46)

    O estranhamento nas análises de Berman sobre o Fausto de Goethe é que às vezes elas parecem tratar também deste octogenário dos quadrinhos. Também na tragédia fáustica de Batman, o herói arrasta consigo aqueles a quem ama para sua danação.
    Tema central da alegoria de Batman é, portanto, a ciência e o ser humano estranhando-se mutuamente, relevando a “tragédia fáustica do desenvolvimento”. Ao mesmo tempo em que acalenta sua sede de vingança, o herói também pratica a justiça como filantropia. Este é seu pesadelo filantrópico e sua vontade de transformar sua cidade natal (Figura 19).

    Capítulo 2.10. Metáfora do Cavalo-Vapor

    No trágico dia em que o garoto Bruce viu seus pais serem assassinados na sua frente, sua fortuna se apresentou por inteira, com todas as suas ambiguidades. Conviver com este trauma de infância era o ônus de sua herança familiar. Desfrutar de sua fortuna significa sobreviver à dor e aprender com ela.
    Ele não conseguiria mais usar sua fortuna sem defrontar as contradições. Poderia tentar alienar-se, se tornar um “estrangeiro” em outra cidade, tentar anular o contexto se descontextualizando, renunciar à Fortuna, fazer-se em oposição a ela. Mas ao simples mortal, ao homem condenado à sua humanidade, não resta senão assumir seu destino: ficar e lutar – lançar-se ao turbilhão moderno onde há prazer e dor (Figura 20).
    O tema da magia e do ocultismo comparece no Fausto de Goethe como a via mais rápida de atingir a transformação da realidade. Ele descobre que deixar de ser apenas um sábio, com sua ciência rústica e medieval de resultados paliativos, significaria se tornar bruxo e alquimista, e, com uma ciência potente e dominadora, transmutadora, fazer o mal para fazer o bem.
    No caso de Bruce Wayne, a transição iniciática entre o sábio consciencioso e o bruxo/alquimista ocorre quando sua imperialidade e seu espírito reformista, enfim, seu narcisismo industrioso, atinge livre curso na materialização de Batman (Figura 21). Ele é um super-herói porque se utiliza de maneira heroica da tecnologia e de todo aparato que sua fortuna dispõe à sua vontade. É a resposta positiva de alguém que quer se integrar, mas que para isso tem de transformar a sociedade à sua imagem e semelhança. É sobretudo a noção de que a scientia moderna produz meios para combater males que ela mesmo produz, e de que a variabilidade e adaptabilidade do gênio humano é capaz de produzir respostas criativas e produtivas para suas mais profundas indagações trágicas. Um mero ser humano, que através da Ciência se torna algo além.
    O jovem Wayne estudou com afinco os vários campos da ciência. Preparou-se com técnicas investigativas apuradas. Bruce é a mente responsável pela criação de toda a tecnologia do bat-cinto, o batmóvel, as granadas de luz e de gazes variados, os antídotos e venenos em cápsulas, o cabo com o qual ele voa sobre a cidade, suas pistolas, embora ele seja renitente com armas de fogo, que mataram seus pais. Na verdade, é um número infindável de equipamentos que o fazem algo mais que um homem; as extensões tecnológicas fazem dele um super-herói; um semi-deus.
    Mefistófeles e Fausto também tinham suas extensões do corpo humano, suas próteses, seus bat-equipamentos.

    Os cavalos cujas vinte e quatro patas teriam como suas.
    Mira, meu bom senhor, os bens desta existência!
    Como coisas humanas as vemos dia a dia,
    Devemos sempre agir com a máxima prudência
    Cuidar que no viver não nos falte alegria
    Um carrasco tu és! Mãos e pés certamente
    E cabeça e nádegas são todos teus.
    Também todos os bens que gozo livremente
    Deixam por acaso de ser sempre meus?
    Se eu posso adquirir seis poldros bem folgosos,
    Não são minhas as forças que eles todos têm?
    E posso cavalga-los. Sou homem dado a gozos

    Qual vinte e quatro patas tivera também? (GOETHE, 1968. p. 91)
    Zaratustra critica os homens superiores que fazem, da técnica, extensões humanas. Assim com o Superman, que se faz frente à tecnologia. Para ele, de nada adiantariam vinte e quatro patas se um pé aleijado carrega consigo.

    Se quereis atingir as alturas, usai as vossas próprias pernas! Não vos deixeis levar para cima, não vos senteis nas costas e cabeças alheias!
    Tu porém, montaste a cavalo? Cavalgas ligeiro, agora, subindo para tua meta? Muito bem, meu amigo! Mas o teu pé aleijado cavalga contigo!
    Quando chegares à tua meta, quando já desceres do cavalo, justamente na tua eminência, ó homem superior – tropeçarás! (NIETZSCHE. 1975. p. 292)

    Mcluhan (2001) cita o salmista, no Salmo 113, acerca das extensões humanas, máquinas que maquinizam e desumanizam o homem.

    Seus ídolos são de prata e ouro,/Obras de mão de homem./Têm boca e não falam;/Tem ouvidos e não ouvem;/Tem narizes e não cheiram;/Tem mãos e não manejam;/Tem pés e não caminham,/Nem falam pelas suas gargantas. Quem o faz será como ele,/Como eles todos os que neles confiam. (In: MCLUHAN, 2001. p. 63)

    Como se não bastassem as bat-tecnologias tradicionais de Batman, Frank Miller introduz, como o próprio titulo da revista sugere, em Cavaleiro das Trevas uma alusão explicita à Metáfora do Cavalo-Vapor. Nesta história, o herói constrói um dispositivo que produziria um pulso eletromagnético que atingiria toda a cidade de Gotham, provocando uma pane em todos os dispositivos eletrônicos num raio ate Metrópolis, impossibilitando Batman a usar seu aparato tecnológico.
    O super-herói segue o conselho da scientia mefistofélica segundo a qual, com a aplicação astuta do conhecimento, um homem, se está montado a cavalo, usa as patas do animal como se fossem extensões de seu próprio corpo (Figura 22).

    Capítulo 2.11. Ambivalências Psíquicas

    Desde as primeiras histórias Bruce Wayne não deixa de transparecer certo grau de desequilíbrio mental.
    Durante o dia, Bruce Wayne é o presidente das Empresas Wayne (WayneTech, WayneCorp, Wayne Esterprises). Também é famoso por ações filantrópicas: faz donativos para subsidiar várias entidades, como o Asilo Arkham, através da Fundação Wayne, braço beneficiente das Organizações Wayne. Bruce Wayne é um filantropo, mas mantêm paralelamente a imagem pública de um playboy milionário. De fato, Bruce faz tudo para convencer as pessoas de que é um socialite egocêntrico, principalmente nas aparições públicas ou em reuniões e festas sociais. Bruce Wayne é o disfarce; Batman é a verdadeira personalidade.
    Durante a noite, Batman é quem sai às ruas para salvar vítimas inocentes através da milícia e do vigilantismo. Sua obstinação, sua insônia crônica, resulta num transtorno obsessivo-compulsivo caracterizado pela sucessão intermitente entre intranquilidade e bem estar: vestir-se periodicamente de Batman torna-se a única garantia de alivio.
    Bruce Wayne cria Batman, e Batman cria Bruce Wayne; criador e criatura se misturam. Bruce Wayne não suportaria seu papel social se Batman não oferecesse o equilíbrio. Batman não poderia agir se Bruce Wayne não oferecesse sua fortuna e sua identidade acima de qualquer suspeita. Batman e Bruce Wayne se completam, se suportam, sobrevivem enquanto dualidades.
    Contudo, a revista O Cavaleiro das Trevas, de 1986, mostra que a relação de interdependência é anterior ao Batman, na verdade se estabelece entre Bruce Wayne e o Morcego. Nesta história Bruce, aos 50 anos, havia “aposentado” o Batman a mais de uma década. Fora da luta noturna contra o crime, Bruce vivia entre o total desânimo e a “crise de abstinência” pela “amputação” de sua outra metade.
    Na batcaverna os equipamentos estão cobertos por mortalhas. Melancólico, atravessa noites bebendo e assistindo televisão. Um zapping pelos canais e ele é bombardeado por notícias que relatam o estado caótico da cidade. Quando ouve o anuncio da próxima atração – “A famosa aventura de Zorro, estrelando Tyrone Power” (MILLER, 1987. p. 13) –, ele é confrontado mais uma vez com seu passado, a noite fatídica no Beco do Crime.
    A figura seminal do morcego insurge em alucinações. A criatura conversa com ele; tem voz própria, Bruce Wayne ouve o chamado (Figura 23). O espírito de Batman (o espírito do Morcego), sufocado na alma de Bruce, ruge para se libertar. Bruce nota sua quase insanidade. Declara-se possuído por Batman, pela figura do Morcego (Figura 24).
    Em outras histórias, não seria apenas o morcego, seria também uma espécie bizarra de demônio como um dragão morcego hominídeo que surgiria para dominá-lo. No entanto, retrospectivamente, o primeiro contato de Bruce Wayne com um morcego havia sido aos seis anos de idade, quando caiu numa caverna cheia de morcegos. Mais de uma década depois, sentado em seu escritório, prestes a cometer o suicídio, clamando por uma resposta em frente ao busto do pai, um morcego estoura os vidros da janela e lhe traz a resposta, completando o silogismo. Neste instante ocorre uma dissociação.

    "Dissociação" é um fracionamento da psique que provoca uma neurose. Encontramos um famoso exemplo deste estado na ficção, no romance Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), de R.L Stevenson. No livro, a "dissociação" de Jekyll se manifesta através de uma transformação física e não (como na realidade) sob a forma de um estado interior psíquico. (JUNG, 1964. p. 24)

    Na peça de Goethe, o papel de Mefistófeles representa um alter-ego construído por desejos reprimidos de Fausto. O pacto fáustico é o estopim da personalização antropomórfica de um estado interior psíquico. Mefistófeles é a materialização de uma valência psíquica de Fausto. Este que é precisamente o caso de Fausto e Mefistófeles parece ser o caso de Bruce Wayne e Batman.
    Fausto é o sábio medieval; a valência pastoral (critica em relação à ciência), neoclássica em uma palavra, que teme os efeitos trágicos do progresso e a alienação maléfica da ciência como extensão do homem. Mefistófeles é o cientista moderno; a valência positivista que afirma adesão total às causas iluministas, que afirma o saber como extensão e prótese, a instrumentalização do conhecimento em poder. No caso de Batman, uma força psíquica independente dentro dele, o morcego é o lado sombrio de Bruce.
    A dissociação que ocorre em ambos os personagens cria valências ambivalentes que interagem numa dialética criador/criatura. Um tipo de mecanismo de defesa normal, essa dissociação deve ser encarada como uma habilidade e uma capacidade, e não uma deficiência ou manifestação patológica. Bruce Wayne/Batman (Bruce Wayne/Morcego) correspondente à Fausto/Mefistófeles como caso de ambivalências psíquicas.

    Capítulo 3.2. Os Super-Poderes
    O debut do super-herói na sua forma clássica, um ano antes de Batman, vem através do Superman, de 1938, o herói dos mass media. A ciência não o produziu; ele não usa nenhum aparato tecnológico, apesar de dispor de qualidades alienígenas como visão de raio-X, voar, ouvir à distância.
    Exilado no planeta terra, Clark Kent descobre durante a puberdade que o sol amarelo da Via Láctea lhe dá super-poderes. Em Kripton, onde o sol é vermelho, ele é um cidadão comum. É justamente esta diferença eletromagnética entre os astros que o faz superior aos seres humanos e aos bens da ciência moderna (mais ágil que um avião, mais rápido que uma bala, consegue parar um trem).
    A invencibilidade de seus superpoderes o coloca como algo além-do-homem, porém esgota consideravelmente suas possibilidades narrativas.

    Nas estórias do Superman, ao contrário, o tempo posto em crise é o tempo de narrativa, o que vale dizer a noção de tempo que liga uma narrativa à outra. No âmbito de uma estória, o Superman pratica uma dada ação (desbarata, por exemplo, uma quadrilha de gângster); nesse ponto, termina a estória. No mesmo comic book, ou na semana seguinte, inicia-se uma nova estória. Se ela retomasse o Superman no ponto em que o havia deixado, o Superman teria dado um passo para a morte. Por outro lado, iniciar uma estória sem mostrar que fora precedida por outra, conseguiria, de certo modo, subtrair o Superman à lei do consumo, mas, com o passar do tempo (o Superman existe desde 1938), o público perceberia o fato e atentaria para a comicidade da situação. (ECO, 1998. p. 257)

    Superman não tem em Metrópolis um adversário à altura. Qualquer que seja o poder do vilão e a arma ou máquina que se levanta contra ele ou contra o meio social é superado pelo poder incomparável do herói. Fazer o Superman consumir-se quinzenalmente foi um desafio enfrentado pelos roteiristas.
    Não resta mais, portanto, que colocar o Superman em confronto com uma série de obstáculos, curiosos pela sua imprevisibilidade, mas, inquestionavelmente, superáveis por parte do herói (...) Agir (...), para o Superman, como para qualquer outra personagem (e para cada um de nós), significa consumir-se. Ora, o Superman não pode consumir-se, porque um mito é inconsumível. (ECO, 1998. p. 252-253)
    Se ao ser humano cabe a superação através do aprendizado árduo e do progresso doloroso, o ethos de homo superior esgota as possibilidades de autodesenvolvimento e progresso. Ele não necessita de aperfeiçoamento progressivo como um autêntico humano – ele se tornou poderoso desde que chegou ao Planeta Terra.

    O Superman, que por definição é a personagem incontrastável, acha-se na inquietante situação narrativa de ser um herói sem adversário e, portanto, sem possibilidade de desenvolvimento. (ECO, 1998. p. 251-252)

    A superioridade do Superman o exime de evoluir. Põe em xeque o tempo narrativo e suprime a ideia de progresso. A natureza incontrastável de seus superpoderes exclui o aprendizado e a dor do aprendizado. Se o Zaratustra nietzscheano almeja superar a dialética dor e progresso, o Superman da Indústria Cultural é a própria negação da tragédia fáustica do desenvolvimento.
    Assim como no caso do Übermensch a superioridade do Superman é sustentada por sua descontextualização. A invencibilidade do Superman se deve ao fato dele ser um estrangeiro no planeta dos homens. O ocaso do Zaratustra, que aniquila suas moralidades antinaturais após décadas de reclusão nas montanhas, o faz também um estrangeiro ao seu mundo, quando Zaratustra a ele retorna.
    O ocaso de Superman remete à sua origem extraterrestre (natureza/máquina), além da sua infância e adolescência ter sido vivida numa cidade pequena, Pequenópolis (vida rural/vida urbana). A superioridade que o estrangeirismo de Superman conota é uma superioridade antropológica. Sua superioridade está apoiada no relativismo cultural que resulta do choque entre valores estrangeiros e padrões e valores preestabelecidos em um determinado meio social.

    Capítulo 3.3. A scientia Sem Ambigüidades

    O Superman não é um terráqueo, mas chegou à Terra, ainda menino, vindo do planeta Crípton. Crípton estava para ser destruído por uma catástrofe cósmica e o pai do Superman, hábil cientista, conseguira pôr o filho a salvo, confinando-o a um veículo espacial. Crescido na Terra, o Superman vê-se dotado de poderes sobre-humanos. Sua força é praticamente ilimitada, ele pode voar no espaço a uma velocidade igual à da luz, e quando ultrapassa essa velocidade atravessa a barreira do tempo, e pode transferir-se para outras épocas. Com a simples pressão das mãos, pode submeter o carbono a uma tal temperatura que o transforma em diamante; em poucos segundos, a uma velocidade supersônica, pode derrubar uma floresta inteira, transformar árvores em toras e construir com eles uma aldeia ou um navio; pode perfurar montanhas, levantar transatlânticos, abater ou edificar diques; seus olhos de raios-X permitem-lhe ver através de qualquer corpo, a distâncias praticamente ilimitadas, fundir com o olhar objetos de metal; seu super-ouvido coloca-o em condições vantajosissímas, permitindo-lhe escutar discursos de qualquer ponto que provenham. É belo, humilde, bom e serviçal: sua vida é dedicada à luta contra as forças do mal e a polícia tem nele um colaborador incansável. (ECO, 1998. p. 247)

    Superman é superior graças à sua descontextualização, e opõe sua natureza intacta contra a tecnologia humana. Justamente aí, ele se explica: a kriptonita é tão extraterrestre quanto o Superman, e é este mineral, a kriptonita que o coloca na posição de pobre humano. Ou seja, perto dos seus, contextualizado, ele é comum e medíocre.
    Dentro da relação ciência e ser humano tem-se um herói cujos poderes naturais são incontrastáveis, ou seja, seus poderes são superiores à máquina mais elaborada da ciência moderna e do progresso científico. Afinal, cabe apenas aos homens entregues à sua própria incompletude recorrerem à máquina.
    Na verdade, a tragédia fáustica do desenvolvimento em Metrópolis está apenas deslocada e subvertida, e não ausente. A máquina é usada pelos vilões: são eles que representam o cientista fáustico moderno. A ciência moderna e o progresso tecnológico, no universo de Superman, são constantemente vigiados por este super-herói, que a policia e a combate com valeres naturais, como faria o bom crítico apocalíptico. Portanto, a tragédia fáustica do desenvolvimento em Metrópolis só desaparece quando o Superman, vencendo os vilões, extirpa as ambiguidades e contradições do progresso tecnológico e da aplicação astuta da ciência moderna.
    Tirando as ameaças alienígenas, ou seja, as ameaças de uma natureza igual à dele, o principal vilão é um rico industrial, Lex Luthor. As ambiguidades e contradições da indústria são representadas por Lex, e através dele faz parte da vida de Metrópolis. O vilão surge como um industrial que extrapola os limites do aparato técnico, na tentativa de desgovernar as forças naturais da indústria sem ambiguidades de Metrópolis. Seus planos sempre consistem em minar usinas hidrelétricas, sabotar trens e aviões comerciais, romper diques; sempre acrescentando ambiguidades trágicas à tecnologia, sempre desgovernando a ciência que Superman, através do policiamento constante, torna governável. Quando fogem dessa moralidade, imposta pelo Superman, os vilões confirmam-se contraventores, detidos pelo Homem-de-aço.
    O poderoso industrial sempre tenta sobrepujar o Superman. Sua ciência é obscura como a de Batman, e também é alquímica. Mas, como se o personagem, cujo nome é uma corruptela de Lutero, soubesse que qualquer ciência é inútil frente à natura do Superman, ele está constantemente em busca de Kriptonita, o mineral radioativo de Kripton.
    O Superman vigia e extingue a parcela trágica da scientia em Metrópolis, a liberdade individual e a capacidade de empreendimento e iniciativa do cientista fáustico moderno se extingue. É a concretização plena do ideal apocalíptico da independência do herói e de seu meio social em relação à ciência moderna e a tecnologia, e a radicalização do discurso contra a modernidade. A análise do discurso tecnológico de Superman aparentemente chega a uma encruzilhada.
    A lógica do comportamento humano tem sido a lógica da eficácia tecnológica. As razões da modernidade têm sido as razões da ciência. Se o século de Nietzsche deu-lhe campo para radicalizações do discurso apocalíptico, na primeira década do novo milênio a preocupação do critico moderno é avaliar não apenas os impactos que a ciência e a tecnologia fatalmente causam na vida contemporânea, mas descobrir, principalmente, a dependência irreversível que tais usos conduziram. O fim da era dos extremos, marcado pela queda do Muro de Berlim, em 1990, prova que a radicalização do discurso contra a dependência do homem em relação à tecnologia é impraticável e inviável justamente porque essa dependência, a esta altura, parece irreversível.

    Capítulo 3.4. Gotham City e Metrópolis

    O tema central na alegoria moderna de Batman é o pacto entre ciência e ser humano. Batman é um voluntário no combate ao crime. Ele usa a fortuna Wayne para combater ambiguidades e contradições sociais que são subprodutos, ele tem consciência, desta fortuna. Ele usa uma infinidade de bat-tralhas tecnológicas como extensão do corpo humano, próteses divinas. Essa dialética entre dor e progresso é o destino do homem moderno em sua busca pela superação; em sua busca do bem estar social. A essencialmente humana tragédia fáustica do desenvolvimento.
    Diametralmente oposta à humanidade de Batman está a desumanidade do Superman. Este último é um ente perfeito e incontrastável, estrangeiro e descontextualizado, que, turbinado pelo Sol amarelo da Via Láctea e pelo relativismo cultural, dispensa a tecnologia enquanto instrumento: sua superioridade está em sua própria natureza e se faz contra a máquina. Superman dispensa a dor e o progresso, não tem necessidade de desenvolvimento, já atingiu a superação.
    Como bem sabe o herói integrado, como Batman ou Fausto, o autodesenvolvimento está necessariamente vinculado ao desenvolvimento social, econômico e científico. Quando o Superman, através de sua superioridade, dispensa a evolução e vigia os progressos desmedidos da ciência em Metrópolis, ele compromete também a evolução do seu meio social. Se Superman dispensa o progresso sua sociedade está estagnada, impedida de desenvolver.
    Esta é uma grande idiossincrasia: a superioridade e o poder incontrastável de Superman implicam que sua sociedade seja tão “perfeita” quanto ele – ou, em uma segunda hipótese, enquanto ambiente que dispensa o progresso, uma sociedade atrasada pelo obscurantismo. Os bens e riquezas do progresso num meio social cosmopolita amplamente desenvolvido, de ponta e de vanguarda, é o que se vê na realidade de Metrópolis, nas páginas dos gibis do Superman. A confirmação da primeira hipótese.
    A utopia de uma sociedade “perfeita” e completamente evoluída, sem as ambiguidades da ciência moderna, é sustentada, portanto, pela interferência direta do Superman. Em Metrópolis, a indústria é somente benéfica, pois altamente controlada pelo super-herói da cidade. Os bandidos de Metrópolis possuem armas tecnológicas avançadíssimas, financiadas por Luthor, para fazer frente ao indestrutível homem-de-aço. Mas sempre são derrotados com facilidade pelo herói. É uma ciência bem distante à de Gotham City, onde uma indústria cria e combate criminosos.
    A posição de Batman em relação à ciência é muito clara: sem tecnologia, o homem-morcego não teria vilões para combater, muito menos ferramentas para combater tais vilões. Os vilões são frutos desta dialética entre super-herói e tecnologia, não estão desvinculados da realidade que os produz. Poucos mitos da indústria cultural se permitiram a essa leitura, e poucos foram tão críticos quanto à representatividade da sociedade industrial.
    A scientia de Gotham City, uma metrópole que experimenta diariamente as consequências trágicas do progresso, se contrasta à Metrópolis, onde a liberdade individual se dispersa e some, e o castigo do progresso desaparece. Lex Luthor é o único que desafia está lógica ao prezar pela liberdade na utilização da tecnologia.
    O controle que Superman exerce sobre as ambiguidades do progresso científico sugere uma sociedade utópica, e este controle pressupõe uma estagnação antiprogressista e antimodernista que destoa. Esta áurea de estagnação poderia pressupor também uma sociedade crítica em relação à ciência moderna, pois nos séculos da era moderna a fé inabalável no progresso e no bem estar social foi força motriz para os avanços científicos e tecnológicos. Superman oferece à sua pólis – bem-estar social desvinculado do progresso. Metrópolis se configura, desta forma, uma sociedade utópica do bem estar social.
    Estas afirmações fecham o ciclo de discussão que compreende Batman e Fausto como heróis integrados e Superman e Übermensch como críticos apocalípticos. Afinal, enquanto representação da relação ciência/ser humano, Metrópolis e Gotham City subvertem definitivamente estes paradigmas.
    A ideia de um Superman bem educado pelos melhores valores da família norte-americana, que policia os desgovernos do progresso em Metrópolis, aproximando-a de uma sociedade totalitária, integra o forasteiro nietzschiano ao meio social em que vive e alivia sua tirania. O perigo de um herói desumano, de poder incontrastável e sem empatia pelas falhas humanas, era denunciado nas páginas da DC Comics apenas pelo vilão Lex Luthor.
    Foi assim até 1986, em O Cavaleiro das Trevas, onde Batman questiona o discurso da humanidade do Superman.

    Capítulo 3.5. Übermensch

    Superman e Batman foram criados como oposição um do outro. E quando atuam juntos que esta oposição fica ainda mais clara. Certa semelhança entre entre os dois, contudo, coincidem com o amor à humanidade e a vontade de transformar a sociedade encontrada em figuras tão igualmente antagônicas como Fausto e o Übermensch. Pois este amor à humanidade rege o ocaso de Zaratustra: “’E porque foi então’, disse o santo, ‘que eu me recolhi à floresta e ao ermo? Não foi porque amei demais os homens? ’” (NIETZSCHE, 1975. p. 28) E, afinal, não foi por amor à humanidade que Zaratustra voltou à plebe para anunciar o Übermensch?
    No capítulo derradeiro, a parceria entre Batman e Superman será usada para entender como o Filho de Kripton também segue o destino do Übermensch nietzschiano quando constantemente se humaniza e se contextualiza, perdendo seu discurso de alienígena desumanizado.
    Em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller (1986), o discurso da humanidade do Super-Homem amadureceu e ganhou uma abordagem crítica. O Superman, nesta história, trabalha para a Casa Branca, é tratado como arma secreta pelo Presidente dos Estados Unidos. A partir de então Superman sempre adotaria uma postura de reprimenda em relação aos métodos pouco ortodoxos de Batman; e isto causaria decepção em Bruce Wayne com relação ao estado de alienação política do Filho de Krypton. Em alguns celebres diálogos, Superman o censura por seu caráter persuasivo, o repreende por não respeitar as instituições, por não respeitar o Estado – que, para revolta de Batman, é um Estado ditatorial, tirano!
    Nesta revista, um legalista Superman parece se incomodar com a independência das ações de Batman, pelo seu vigilantismo miliciano e seu aparente desrespeito pelas leis que regem um hipotético Estado de Direito. As investigações do cavaleiro das trevas levam-no a combater também o “sistema”; descobre conexões entre o crime organizado e figuras poderosas do alto escalão político-empresarial de Gotham.
    Quando sua luta avança sobre políticos e autoridades, Batman entra em choque direto com Superman. Então, a cena se transfere para a Casa Branca, em Washington DC. O Presidente dos Estados Unidos diz ao Superman que “seu amigo” tornou-se uma “ameaça”. O Presidente pede para que Superman “converse” com ele. Pede para que ele “amanse o cavalo revolto” (Figura 32). Superman passa a policiar Batman a mando do Pentágono.
    Esta é a dialética subvertida entre eles: Batman, o “cavalo-vapor revolto”, que age por contra própria porque preza pela independência de suas ações, e Superman, um herói do Imperialismo global, que cuida dos assuntos diplomáticos americanos em nome do “mundo livre” e da democracia; um “pau-mandado do governo”, como o chama Batman na versão de Frank Miller.
    Estas posturas podem ser apreendidas no dialogo entre Clark Kent e Bruce Wayne. Ironicamente, Clark, o inconsumível, diz a seu amigo: “Você vai se consumir” (Figura 33). Kent ameaça Bruce Wayne: “Mais dia, menos dia, alguém vai me obrigar a prender você” (Figura 34).
    A rivalidade dos dois super-heróis neste ponto da história se torna insustentável. Batman se propõe a combater o Superman. Arma-se de uma potente tecnologia; uma armadura robótica que simula através da tecnologia superpoderes que rivalizam aos do homem-de-aço. Batman repete a ele o “epíteto escarnecedor” que o Espírito da Terra lançou sobre Fausto: “Já passou da hora de você aprender o que é... ser um homem!” (Figura 35) Porém, na próxima página, Superman lhe retira parte da armadura metálica de combate: “você é apenas carne e osso... como os outros.” (Figura 36)
    Por um lado, Batman é o critico integrado, meramente humano, que tenta utilizar a tecnologia e os bens do progresso pra enfrentar as contradições e ambiguidades de uma modernidade fundamentada no desejo de desenvolvimento. Ele usa sua fortuna e seu método científico (fáustico) para mudar as injustiças do sistema - um sistema injusto que possibilita a fortuna. Como um autêntico humano, Batman tem uma posição política.
    Por outro lado, Superman é o crítico apocalíptico que se faz contra a tecnologia em favor de valores naturais, sustentados por sua descontextualização (é um alienígena no planeta dos homens). Ao mesmo tempo, a desumanidade do personagem não é sequer cogitada. A aparência humana indefectível e a educação de Clark Kent no american-way-of-life, sua família e sua esposa, seu posicionamento político, o faz integrante definitivo da sociedade americana, herói institucional e cidadão.
    Mas é justamente seu posicionamento político que faz Batman desconfiar de um Super-herói tirano, sem a necessária empatia pela humanidade, alienando seus poderes ao Estado ditatorial, fazendo um controle policialesco sobre a livre iniciativa individual do cientista-industrial moderno, cumprindo seu papel enquanto herói institucional e cidadão americano. Batman não acredita mais na humanidade do Superman e quer ensiná-lo novamente a ser um homem.

    Conclusão

    Vejam esses dois personagens ícones das histórias em quadrinhos da indústria cultural globalizada. Olhem para esses dois super-heróis do panteão da editora estadunidense DC Comics, Batman e Superman. Marcas rentáveis e longevas em sofisticadas narrativas iconográficas. Notem que suas mais desesperadas reivindicações de existência não passam de slogans de sucesso.
    Observem esses dois expoentes de seu gênero – esses super-heróis cujos projetos ideológicos já começam por seus nomes. Já se vão 70 anos de ativismo heroico e são acusados das mais bárbaras atitudes politicamente corretas, e incorretas. Mais de uma guerra enfrentaram em nome da Liberdade. Raramente trouxeram ambiguidades, reflexão social independente, edemas dramáticos complexos. Apenas subliteratura. Os críticos foram impiedosos diante das páginas perecíveis coloridas. Muito mais ruidosos foram os jovens leitores maravilhados numa linguagem de infinitas possibilidades narrativas.
    Agora mirem bem estes dois, Bruce Wayne e Clark Kent. Fitem seus olhos de gente. Descubram suas infâncias, ponderem seus métodos. Pesquisem um pouco mais suas histórias. Sigam seus rastros até a era dos quadrinhos de autor, leiam suas histórias da década de 1980. Contemplem seus instantes libertários. Atentem para os momentos em que suas vidas atingiram picos de insuperável concepção artística. Pois entendam que eles se contradizem. Compreendam a dialética. E principalmente, leiam suas histórias na década de 1980.
    Enxerguem nestes dois super-heróis suas fragilidades. Verifiquem de uma vez por todas sua humanidade. Viajem com eles em seus universos. Reparem suas posições e oposições. Considerem a ficção-científica como a mitologia moderna. Vislumbrem roupas colantes, cuecas por cima das calças, capas e máscaras, voando por aí, superpoderes, tecnologia, honra, missão, lealdade, dor, trauma, medo, perda. Em uma palavra, percebam a fantasia.
    Definitivamente contextualizem sua criação. Conheçam suas guerras. Reflitam sobre seus berços. Superman criado em 1933, publicado em 1938. Batman publicado em 1939. O germanismo latente através dos séculos eclodindo num purulento tumor ultranacionalista e Adolf Hitler sendo nomeado chanceler da Alemanha em 1933.
    A arte era um importante pilar para o Partido Nacional Socialista Alemão; mas somente a boa arte, a arte clássica. A arte moderna era apresentada como degenerada, considerada bolchevique ou judaica. A Indústria Cultural norte-americana era legítima afronta ao ideal de arte clássica da antiguidade. O orgulho nacionalista alemão cultuava os grandes artistas e pensadores do germanismo expoentes desde o Iluminismo Alemão. Autoridades nazistas desenvolveram a Defesa da Cultura Alemã, cujo objetivo era assegurar as boas condições da arte clássica germânica que se encontrava ameaçada devido às novas formas propostas pela arte moderna. Hitler, apreciador da arte clássica que era, tinha especial apreço pelo neoclássico Goethe, como demonstra em Mein Kampf (Minha Luta, 1926).

    Protestos moles já não podiam ser aplicados. Bastava que se examinassem os seus cartazes e se conhecessem os nomes dos responsáveis intelectuais pelas monstruosas invenções no cinema e no drama, nas quais se reconhecia o dedo do judeu, para que se ficasse por muito tempo revoltado. Estava-se em face de uma peste, peste espiritual, pior do que a devastadora epidemia de 1348, conhecida pelo nome de Morte Negra. E essa praga estava sendo inoculada na nação.
    Quanto mais baixo é o nível intelectual e moral desses industriais da Arte, tanto mais ilimitada é a sua atuação, pois até os garotos, transformados, em verdadeiras máquinas, espalham essa sujeira entre os seus camaradas. Reflita-se também no número ilimitado das pessoas contagiadas por esse processo. Pense-se em que, para um gênio como Goethe, a natureza lança no mundo dezenas de milhares desses escrevinhadores que, portadores de bacilos da pior espécie, envenenam as almas. (HITLER, 2010. p. 33)

    Não somente a Guerra Fria foi uma guerra de ideias, envolvendo corações e mentes. É provável que toda guerra seja também ideológica. Conseguem entender essa guerra? Conseguem ver porque eles brigavam? Adolf Hitler e sua “sofisticada” ontologia da arte moderna que a dividia entre arte bolchevique e arte judaica. Observem Goebbels apontando:

    Já o ministro das Comunicações – digo, da Propaganda – de Hitler, enciumado com a concorrência do personagem em quadrinhos (tal como os filmes de Hollywood e outros bonecos dos quadrinhos, recrutados por Roosevelt), alistado na luta da democracia contra a tirania, Goebbels, viu o super-homem de Nietzsche, ariano, ‘über alles’, ameaçado pelo viajante precursor da bomba V-2 de Von Braun. E não teve duvidas – denunciou que o “S” do peito da fantasia era uma cruz de Davi: “Superman é um judeu!” (MOYA, 1996. p. 131)
    Pois, apreciem a fúria deste Füher neurastênico artista fracassado ao ver a Indústria Cultural norte-americana fazer um pastiche de dois símbolos do idealismo alemão para criar dois super-heróis dos quadrinhos.
    Este trabalho mostrou linhas gerais do clássico discurso científico da tragédia fáustica do desenvolvimento dimensionada por Goethe, no personagem Batman – o que muitos já tinham observado no super-homem nietzschiano de Kripton.
    De fato, tanto Jerry Siegel e Joe Shuster, quanto Bob Kane, eram judeus.

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  • Minha Visão do Cinema
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    Olha o link dele no meu perfil aqui do filmow, nao colo pq marca spam kk é o Minha Visão do Cinema, vlw amigo abraço!

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    Oi amigo, vi que tu curtiu minha postagem, interessado em escrever para um blog?