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''Cinema é a fraude mais bonita do mundo.'' - Jean-Luc Godard

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Últimas opiniões enviadas

  • Ari

    Vendo Arábia e depois esse primeiro filme de Affonso Uchoa, já dá pra perceber que o diretor gosta de falar sobre personagens inertes, que desejam uma vida melhor mas não conseguem sair do lugar onde estão. Se em Arábia, Cristiano passa por vários lugares à procura de um emprego e uma condição de vida digna pra sobreviver, aqui, os personagens nem ao menos saem de seu bairro. Eles brincam, trabalham e seguem com uma rotina que cada vez mais se perpetua em suas vidas.
    A Vizinhança do Tigre é um filme de desconstrução. Desconstrução tanto da narrativa clássica, transitando entre a ficção e a realidade, como da desconstrução simbólica dos personagens em suas (não) jornadas. Até mesmo um casamento e a construção de um lar para um nova vida parecem sem brilho. E a conclusão que se chega, é somente de que nem essa mudança ou a de Juninho ao final conseguirá levá-los a algum lugar.

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  • Ari

    Mais do que um visual lindo para um filme de sci-fi, Arrival é um filme que acaba levantando questões completamente existenciais (como qualquer obra-prima do gênero): sobre a finitude da existência, a memória, e o tempo.

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    E o que de fato chama a atenção, é como se vê o enorme poder da montagem (que claro, é uma consequência da brilhante estrutura do roteiro) que ressignifica a mesma morte. Nos emocionamos primeiramente com a morte de uma garota com câncer e o sofrimento de sua mãe, e ao final, nos emocionamos igualmente (ou até mais) por sermos lembrados daquela mesma morte, mas de um jeito diferente.
    E por isso, se pode pensar que esquecemos da morte, ou nos lembramos mais amargamente que ela existe?
    Mais do que qualquer herói ou heroína, Louise é a suprema de todos. Ela vive com o fardo que verá sua filha morrer antes dela e aceita isso. E aceita isso porque mais do que qualquer herói ou heroína, ela é um ser humano.
    Louise vive e sente algo que ela sabe que um dia vai acabar, mas por que não viveria e sentiria mesmo assim? Somos mais que seres errantes e sem propósito no Universo, somos seres que sentimos e vivemos, como uma forma de esperarmos pela morte, mas ainda mais, como uma forma de nos sentirmos vivos.
    Trabalhando com uma estrutura circular, onde a temática do ciclo da vida está enraizada no filme, vemos nascimento e morte caminhando juntos. Desde o começo, até o final. Seja na maravilhosa música tema do Max Richter que toca no começo e no fim, na forma oval da concha (representando o útero e o nascimento - e consequentemente, a morte) e até mesmo no nome da filha de Louise, Hannah, que tem seu nome sendo um palíndromo, podendo ler lido da esquerda para direita ou vice-versa.
    E assim, se abre espaços para mais simbolismos do filme, onde Louise aparece como uma verdadeira figura messiânica. Se na bíblia, Jesus teve seus 12 discípulos e o seu sacrifício final em prol dos outros, aqui, Louise ajuda os habitantes da 12 naves e a humanidade, e tem seu sacrifício ao receber o ‘’presente’’ dados pelos seres extraterrestres. E não falta nem a auréola em sua cabeça formada pelo símbolo linguístico dos heptapods, quando os mesmos acabam por expressar o ‘’oferecer arma’’ para ela.


    Já faz alguns anos que Denis Villeneuve nos entrega um filme incrível após o outro, mas é com Arrival que ele definitivamente faz uma obra-prima absoluta. Desde já, é um dos melhores filmes de sci-fi já feitos.

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  • Ari

    ''Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: 'Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’’’.
    Com filmes excelentes lançados em 2015 sobre o empoderamento da mulher, visto mais em blockbusters como Mad Max e Star Wars, em que já mostram a mulher superando o mundo machista, Ex Machina é o mais inteligente, não só pela forma como ele aborda sobre o que fala, mas porque ele foca em uma das questões mais importantes sobre o tema: a relação da mulher com deus e o seu papel visto pela bíblia e pela cristianismo.
    Mais do que o controle de nossas criações (o que também poderia representar a relação entre deus - mas um impotente - com o homem) e a vontade de sobreviver, o filme é sobre a mulher se emancipando de deus e suas amarras, pelo machismo perpetuado por um livro onde a mulher tem como principal objetivo servir ao homem - para reprodução, para seu prazer e ainda ficando à mercê dele. Ava (a evolução/diferenciação de Eva) não tem a necessidade de reproduzir, ela sente prazer e não sente nenhuma necessidade de servir a ninguém - pelo contrário, ela tenta fugir disso.
    Nathan, é o deus/homem, o bilionário que tem tudo o que o dinheiro pode comprar, e com isso, cria a vida. Afinal, segundo o Caleb, sua criação não seria apenas ''o maior evento científico da história da humanidade, mas sim, da história dos deuses’'.

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    Caleb então descobre o que o Nathan faz com suas criações a seu bel prazer - e há de se falar sobre duas cenas que são poeticamente lindas: quando a Kyoko tira partes de sua pele em frente a ele, começando justamente pela costela; e então, quando perturbado, ele se olha no espelho, analisando a sua costela, e logo depois, se cortando.
    Aliás, a questão da costela também aparece no final e com ainda mais força: Ava (com o lindo design da personagem que apenas dá partes de um corpo humano da sua cintura para baixo, do seu busto e do seu rosto - deixando suas costelas, seus braços (!) e sua cabeça (!) com aparência de uma máquina) acabara de se desprender de seu opressor, e prestes a de fato viver por si só, ela muda.
    É interessante então falar sobre o experimento de pensamento que o Caleb comenta pra ela - o de Mary no quarto em preto e branco: em que Mary é uma especialista em cores, mas mora em um quarto preto e branco. Ela nasceu e foi criada lá, e ela só pode observar o mundo exterior através de um monitor em preto e branco. Então um dia alguém abre a porta, e ela sai. E que naquele momento ela aprende algo que seus estudos nunca lhe ensinaram… ela aprende a ver as cores. E que o experimento era pra mostrar aos alunos a diferença entre um computador e a mente humana - Mary é o computador no quarto preto e branco. O humano é quando ela sai de lá.
    E assim como Mary, Ava sai de lá como um ser humano, como uma mulher, pronta pra viver no mundo de verdade, e não na prisão em que ela foi colocada por toda a sua vida.

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