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Últimas opiniões enviadas

  • Pedro Daher

    Ontem foi meu aniversário. Agora há pouco eu estava no chuveiro, com a cabeça encostada na parede, depois de um dia cansativo, mas gratificante, e me deu vontade de chorar. São 01h46 e eu não estou triste, mas constantemente penso em envelhecer, em perder os sentidos pouco a pouco, em esquecer e ser esquecido, em ficar tão adoecido que minha fala desacelere e meu olhar paralise no instante, mas minha mente fique presa ao passado. Durante as madrugadas, esses pensamentos se tornam mais visíveis, literalmente. Eu me vejo velho, de bengala, em alguma casa abandonada, tentando recuperar fragmentos de memória e lutando pra impedir que o tempo me impeça de não ter mais nenhuma lembrança.

    Se eu penso tudo isso, é porque sempre existiu culpa, e medo. Medo de seguir em frente, culpa de agir (ou não agir). Então às vezes, só às vezes, eu fico parado, deixando a água cair em meus ouvidos enquanto a cabeça repousa, descansa. Todo o resto do tempo, eu tô tentando vencer. Me vencer. Pra viver em paz, e morrer também.

    Eu sinceramente não esperava sair do cinema refletindo tanto, e até tentei dar uma "desligada" nas inevitáveis perguntas que eu faria a mim mesmo ao sair da sala. Mas agora eu tô aqui, com a mente funcionando e os poros abertos. Eu estou vivo, eu respiro, e ainda posso transformar culpa em acerto.

    Os personagens de O Irlandês não podem, porque eles morreram tentando ou tentaram vivendo. Quando eu vejo o personagem do Robert De Niro, que já interpretou outros mafiosos em filmes do Scorsese, num plano contemplativo, com receio de fechar uma porta e virar poeira num quarto vazio, mas cheio de ressentimento, e quando o vejo gaguejando ao telefone, sem conseguir terminar uma frase sobre algo que ele fez e não consegue admitir (nem aos outros e nem a si mesmo), eu não vejo somente um personagem. Eu vejo o próprio De Niro. O ator, a pessoa. O vejo perdendo a luta contra o tempo, mas ao mesmo tempo tentando ganhar. Tentando se manter de pé num mundo onde todos estão caídos. Também vejo Al Pacino, Joe Pesci, e o próprio Scorsese.

    Enquanto isso, eu me vejo parado num banheiro, com muito tempo de vida. Mas, um dia, sei que vou tentar me manter de pé, como hoje. Só que a diferença é que vai ser muito difícil fazer isso sem uma bengala, e sem disposição. Vou viver tudo agora, pra que só meu corpo esteja presente no meu túmulo, mas a mente totalmente livre.

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  • Pedro Daher

    Não teria como eu ter visto esse filme sem a minha mãe. Acho até que fui egoísta porque fiz a gente assistir até o final mesmo que ela estivesse com sono. A imagem que a minha mãe tem de mim é muito maior do que a que eu tenho de mim mesmo, é ela quem me vê voar sob o céu idealizado de quem sonha. Ela me dá forças, e eu a vejo assim, mas acho que só estou conseguindo me ver dessa forma também agora, e é um processo cheio de contradições. Às vezes me inclino a fazer coisas pelos outros, às vezes simplesmente não faço nada, mas poucas vezes faço por mim. Com certeza ter na minha mãe uma pessoa em quem posso me apoiar, faz de mim uma pessoa mais feliz, ainda que não necessariamente melhor. Pra mim, Mulheres do Século XX é sobre um menininho querendo ser adulto, se vendo cercado de pessoas, mas projetando na figura materna um ponto de libertação duplo: ele quer que a mãe voe e ele quer voar sob o olhar dela. Eu também quero.

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  • Pedro Daher

    O surrealismo de Cocteau, mais do que simbolizar, registra, documenta o interior do processo artístico, assim como suas repercussões na mente do artista. A imortalidade aqui é uma construção, como qualquer outra obra de um poeta. É materializada pela necessidade de aprovação, pela geração de ícones, pessoas de importância, que entram para a História e morrem abraçadas consigo mesmas. O artista é o reflexo da sua arte, mas também de sua mania de grandeza, de sua ambição.

    Acho interessante como nada aqui soa como crítica, mas sim como reflexão, como formação de linguagem. Enquanto Cocteau flerta com imagens "irreais", ele filma e elabora a própria realidade do artista: a inquietação com tudo aquilo que ele pode ver e sentir, mas não abstrair. A ele, interessa observar, e nunca se contentar com verdades absolutas. Sempre desconfiar. Sempre.

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