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Últimas opiniões enviadas

  • Pedro Daher

    Sei lá, esse filme me deixou anestesiado. Não aquele tipo de anestesia que paralisa os sentidos e te faz repousar numa cama de hospital até você retomar a consciência e alguém te dizer que tá tudo bem. Não. Na verdade, eu estava bem consciente, e ouvi minha respiração, e também o barulho silencioso do ar que cerca o ambiente, a calmaria da rua deserta e tudo aquilo que não era dito por conveniência, mas estava pairando nos arredores do instante. Esse filme, de alguma forma, me permitiu um foco duplo de atenção, como se ela tivesse tomado proporções diferentes, pra minha realidade e a do filme. Indo além, parece que eu tava respirando o mesmo ar angustiante e ao mesmo tempo reconfortante de todas essas pessoas que acordam cedo pra ir do nada a lugar algum, pra andar milhas e permanecer na mesma distância em relação a si mesmas, e ainda assim serem capazes de continuar no dia seguinte, e no seguinte ao seguinte... A vida não para, ela é um eixo sem fim, uma eterna linha reta que estamos fadados a traçar todos os dias, mas eu sempre achei que mesmo assim dá pra andar por ela. Dá pra ir num posto de estrada às seis da manhã, com o céu querendo ganhar cor, comprar um suco e sorrir pra pessoa do caixa, ou simplesmente só ficar parado na porta, sem fazer nada, ou ainda dirigir um carro até a porta de uma universidade pra ver alguém que te inspira de repente.

    Viver numa cidade interiorana, sem muita coisa pra fazer e com o que se distrair, não deve ser fácil. As obrigações têm um peso maior, a dor é mais dolorida, e se você for adulto provavelmente terá um casamento infeliz com alguém que te trai com outra pessoa que você nem conhece, e todo dia você chegará tarde do trabalho desejando que seja cedo. Se você for mulher e se sentir estagnada, fica pior ainda. Em contrapartida, essa solidão acaba, estranhamente, acolhendo. As nuvens que compõem o céu te fitam (ou você fita elas?), a intensidade da gota da chuva faz chover mais molhado, o calor do sol queima mais. Nada vai mudar, você vai continuar sendo infeliz, mas não vai querer sair dali.

    É estranho o que sinto, mas acho que descobri o que permeia minha mente todos os dias. Eu me sinto angustiado, mas confortável com a minha angústia. Eu não moro em uma cidade interiorana, e não sofro o que as mulheres do filme sofrem, mas por quase duas horas eu me senti como tudo tivesse muito calmo na superfície. Ninguém falava na rua. Ninguém me incomodava. Mas por dentro, tinha essa coisa truculenta que costumam apelidar de angústia.

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  • Pedro Daher

    Ontem foi meu aniversário. Agora há pouco eu estava no chuveiro, com a cabeça encostada na parede, depois de um dia cansativo, mas gratificante, e me deu vontade de chorar. São 01h46 e eu não estou triste, mas constantemente penso em envelhecer, em perder os sentidos pouco a pouco, em esquecer e ser esquecido, em ficar tão adoecido que minha fala desacelere e meu olhar paralise no instante, mas minha mente fique presa ao passado. Durante as madrugadas, esses pensamentos se tornam mais visíveis, literalmente. Eu me vejo velho, de bengala, em alguma casa abandonada, tentando recuperar fragmentos de memória e lutando pra impedir que o tempo me impeça de não ter mais nenhuma lembrança.

    Se eu penso tudo isso, é porque sempre existiu culpa, e medo. Medo de seguir em frente, culpa de agir (ou não agir). Então às vezes, só às vezes, eu fico parado, deixando a água cair em meus ouvidos enquanto a cabeça repousa, descansa. Todo o resto do tempo, eu tô tentando vencer. Me vencer. Pra viver em paz, e morrer também.

    Eu sinceramente não esperava sair do cinema refletindo tanto, e até tentei dar uma "desligada" nas inevitáveis perguntas que eu faria a mim mesmo ao sair da sala. Mas agora eu tô aqui, com a mente funcionando e os poros abertos. Eu estou vivo, eu respiro, e ainda posso transformar culpa em acerto.

    Os personagens de O Irlandês não podem, porque eles morreram tentando ou tentaram vivendo. Quando eu vejo o personagem do Robert De Niro, que já interpretou outros mafiosos em filmes do Scorsese, num plano contemplativo, com receio de fechar uma porta e virar poeira num quarto vazio, mas cheio de ressentimento, e quando o vejo gaguejando ao telefone, sem conseguir terminar uma frase sobre algo que ele fez e não consegue admitir (nem aos outros e nem a si mesmo), eu não vejo somente um personagem. Eu vejo o próprio De Niro. O ator, a pessoa. O vejo perdendo a luta contra o tempo, mas ao mesmo tempo tentando ganhar. Tentando se manter de pé num mundo onde todos estão caídos. Também vejo Al Pacino, Joe Pesci, e o próprio Scorsese.

    Enquanto isso, eu me vejo parado num banheiro, com muito tempo de vida. Mas, um dia, sei que vou tentar me manter de pé, como hoje. Só que a diferença é que vai ser muito difícil fazer isso sem uma bengala, e sem disposição. Vou viver tudo agora, pra que só meu corpo esteja presente no meu túmulo, mas a mente totalmente livre.

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  • Pedro Daher

    Não teria como eu ter visto esse filme sem a minha mãe. Acho até que fui egoísta porque fiz a gente assistir até o final mesmo que ela estivesse com sono. A imagem que a minha mãe tem de mim é muito maior do que a que eu tenho de mim mesmo, é ela quem me vê voar sob o céu idealizado de quem sonha. Ela me dá forças, e eu a vejo assim, mas acho que só estou conseguindo me ver dessa forma também agora, e é um processo cheio de contradições. Às vezes me inclino a fazer coisas pelos outros, às vezes simplesmente não faço nada, mas poucas vezes faço por mim. Com certeza ter na minha mãe uma pessoa em quem posso me apoiar, faz de mim uma pessoa mais feliz, ainda que não necessariamente melhor. Pra mim, Mulheres do Século XX é sobre um menininho querendo ser adulto, se vendo cercado de pessoas, mas projetando na figura materna um ponto de libertação duplo: ele quer que a mãe voe e ele quer voar sob o olhar dela. Eu também quero.

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