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Últimas opiniões enviadas

  • Raphael Georg Klopper

    Faço logo uma pergunta aqui: antes de vocês terem ouvido o anúncio de que Warner e a Lionsgate estariam planejando o crossover entre Godzilla e King Kong no mesmo filme, que já está planejado para lançar em 2020 como forma de continuidade em seu novo Monsterverse, alguém já tinha noção de que os mesmos icônico monstros já tinham se encontrado frente à frente no mesmo filme?! De fato, não é difícil de imaginar, ainda mais tendo em conta o enorme sucesso que alavancou ambos os personagens por anos em diversas adaptações e versões, etc, cada um com sua marca própria.

    Mas talvez, uma idéia não tão óbvia como é de fato o filme em que vimos aqui com ambos Godzilla e King Kong juntos pela primeira vez no cinema. E que por mais bizarro e enfadonho possa soar em sua trama um tanto despirocada, o filme se garante no final como uma divertidíssima experiência.

    A trama inicia seus eventos quando Tako (Ichirô Arishima), o presidente de uma empresa farmacêutica, descobre que as cerejas vermelhas denominadas de romas que crescem na ilha Farou possuem uma espécie de cura milagrosa, dando início a uma expedição à ilha liderada por Sakurai (Tadao Takashima) e Furue (Yû Fujiki) para coletar as cerejas. Mas ao chegar eles descobrem que os nativos locais louvam um deus chamado King Kong, que supostamente cresceu até o tamanho gigante por comer as cerejas. Tako logo pensa que qual a melhor maneira de promover o produto se não trazer a criatura de volta ao Japão como o marketing perfeito?!

    Mas em simultâneo à isso, um submarino americano é mandado investigar uma estranha atividade sísmica no Ártico, quando descobrem o pedaço da geleira em que Godzilla fora selado anos atrás, e agora despertou em fúria. Agora com os dois destrutivos monstros se aproximando de Tóquio, tem-se início à uma luta que carrega o futuro da humanidade.

    Aceitemos os fatos, juntar dois dos maiores monstros do cinema em um só filme não é só uma tarefa um tanto complicada, como quase atinge o nível do ridículo que permite um salvo conduto de lógica, onde os roteiristas podem despirocar em qualquer idéia absurda possível que sirva como desculpa apenas para garantir ao público o espetáculo que elas esperam e que o título sugere.

    Mas pra chegar até isso, terão que passar por um filme inteiro que inventa seus malabarismos narrativos hilariantes que quase alcançam o nível de satírico, mas que por uma perspectiva mais dura e crítica só revela um tom aparentemente confuso e misturado.

    Tendo que passar por diferentes núcleos narrativos com os personagens humanos, só para pavimentar terreno para o vindouro aguardado confronto. E isso pode tanto recair para personagens e arcos minimamente interessantes ou simplesmente enfadonhos e desinteressantes, mesmo que não sejam mesmo a parte mais importante ou de principal foco do filme. Mas ainda assim pode se notar alguns traços interessantes aqui.

    Como dito antes, há uma linha bem tênue de humor satírico presente aqui e que é horas até muito bem implantado. Como quando vemos Tako olhando para a destruição de Godzilla na TV e surta dizendo: "estou farto de Godzilla" - adressando sutilmente a saturação do gênero de monstros gigantes destrutivos até então, e que porventura o certamente renova por colocar o Kong no pacote, uma intensão partida deliberadamente do hilário personagem.

    Ou até na forma com que o filme estrutura os eventos de destruição do filme com as constantes reportagens do noticiário americano que apontam um certo fator de frieza midiática, mas talvez não tão proposital como se possa imaginar já que haviam feito o mesmo em Godzilla Rei dos Monstros, o “remake” americano do Godzilla original, que basicamente consistia no mesmo filme só que contendo cenas adicionais com o personagem de Raymond Burr reportando todos os eventos.

    E sendo cenas, em ambos os casos, de um tom mais tedioso em comparação às divertidas sequências em que vemos a expedição na ilha seguindo os personagens Sakurai e Furue à procura das cerejas vermelhas e do “novo monstro" para o programa farmacêutico do seu chefe Tako, onde embora tenham um tom extremamente caricato, consegue divertir muito graças aos seus elementos de comédia escrachada assumida bem presentes.

    Levando em conta também de que as mesmas cenas do “núcleo” americano foram adições na versão americana cujo o filme recebera em seu lançamento internacional, que havia sido produzida por John Beck (Meu Amigo Harvey), cuja idéia original do filme viera dele e Willis H. O'Brien antes do projeto ser vendido para a Toho, mas onde a ideia original seria de um filme de King Kong vs Frankenstein (o que mais tarde se tornou no filme Frankenstein Contra o Mundo, também do diretor Ishirô Honda).

    O que faz compreender-se assim a sensação destas cenas estarem completamente fora de lugar. Sem falar da dublagem em inglês do núcleo japonês serem bem sofrível, mas perdoável quanto a execução de todo o resto da obra. Embora infelizmente não sejam tão poucos os momentos narrativos que soam completamente desnecessários dentro da proposta puramente escapista do filme.

    Como todo o arco tedioso envolvendo o casal românico entre a irmã de Sakurai, Fumiko (Mie Hama) e seu noivo Kazuo (Kenji Sahara) que soa basicamente desnecessário na história, mas que vem à mostrar seu real propósito no terceiro ato quando vemos Kong tendo sua usual paixão não correspondida por uma moça histérica.

    Porém, isso só comprova o quanto o filme, mesmo que aparentemente escrachado e satírico em tom, mostra querer honrar os melhores elementos clássicos de cada um de seus monstros. Não só amarrando a história de Godzilla como uma continuação direta dos eventos de Godzilla Ataca Novamente, assim como estabelece elementos já familiares e característicos de Kong como suas origens na ilha onde é cultuado como um Deus e tem seu coração mole para jovens moças.

    Mesmo que supomos que não seja o mesmo Kong que vimos no clássico de 1933, e que, por alguma razão, é dito e posto no filme que o Kong tem a capacidade de absorver força à partir de energia elétrica. Bom, se o Godzilla pode soltar um raio atômico então com certeza o Kong tem direito a ter poderes elétricos. Tanto que na primeira cena que dá indício de sua presença é durante uma tempestade e também o vemos comer literalmente um cabo elétrico para recuperar ENERGIA (piada não intencional).

    Além do que, é o protagonista bem mais beneficiado com tempo de tela no filme. Tanto seja pelo fato de tudo que vemos Godzilla fazendo em cena já é familiar e mais do mesmo, enquanto seu diretor Ishirô Honda quer aproveitar todas as chances que tem com o Macacão que garante alguns dos melhores momentos do filme. Seja sua breve luta na ilha com um polvo gigante (excelentemente criado com incríveis efeitos práticos misturado stop-motion com as miniaturas), e a icônica luta final entre os dois Titãs.

    E por ironia, seria o terceiro filme no cinema de cada um dos personagens. Godzilla vindo do clássico original de Honda e sua continuação Ataca Novamente. Enquanto Kong, mesmo que não partisse de uma continuação direta, também vinha do seu grande clássico de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, seguido pelo sofrível Filho de Kong de Ernest B. Schoedsack. Então era um encontro já marcado nos céus cada um dos monstros terem um encontro épico em seus terceiros filmes, e não poderia ser qualquer um que poderia comandar esse encontro.

    Ishirô Honda foi sem dúvidas a perfeita e completamente merecida escolha de realizar esse filme. Pode não ser um legado tão bem reconhecido quanto à de um mestre autoral supremo do cinema, mas quanto à dirigir e criar os filmes de monstros gigantes, poucos foram tão bons quanto ou melhor que ele. As cenas com os personagens humanos podem carregar quilos de caricatura e fatores genéricos, mas o diretor não deixa de enquadrar tudo em câmera tão bem, levando toda a execução de cenas à sério mesmo que seu roteiro não.

    Montando as sequências em que vemos os monstros destruindo as miniaturas com as sequências em câmera com os atores com perfeccionismo e atenção aos detalhes mesmo dentro de seus limites. Além de ter sido a primeira vez em que ambos os personagens apareceram em cores em filme e filmados no belo formato widescreen, e Honda tira total proveito disso em querer enquadrar os gigantes em planos grandiosos e que só revelam a imensa escala que o filme almeja visualmente dentro de seus limites, e o consegue.

    Compartilhando também dos vários avanços vistos em Godzilla Ataca Novamente, Honda consegue capturar a magnitude dos monstros dentro dos cenários móveis, seja com o uso de tanques, carros e trens remotos, e as miniaturas de prédios que passam o sentimento de palpabilidade convincente, e que se torna bem mais prazeroso do que antigamente em ver toda a destruição causada no Reino humano enquanto vemos os dois Titãs se digladiando.

    E quando tudo se resume na luta final, vemos o quanto a criação de expectativa foi eficiente e o filme não desaponta em entregar um confronto épico, ao mesmo tempo em que é hilariantemente divertido. Com Kong atirando pedras como se fossem bolas de futebol, Godzilla revida com seu sopro atômico que deixa os pelinhos de Kong tostadinhos. Depois Kong tenta enfiar uma árvore na goela de Godzilla fervendo em raiva só pro lagartão revidar com uma épica e literal voadora, e muito mais. Impossível não abrir um enorme sorriso durante toda a sequência!

    E o que pode ser dito da cena em que Kong é transportado em balões até a localização da grande luta final. Idéias assim, absurdamente malucas, que demonstram o porque desses clássicos filmes de monstros japoneses serem tão atrativos até hoje. Afinal você realmente vai ligar para lógica quando temos dois dos maiores monstros gigantes de todos os tempos se enfrentando mano à mano? Qualquer desculpa para os colocar juntos é completamente válida!

    Um confronto que consegue no final ter um significado maior do que se pode esperar do resto do filme que segue a veia humorada acima de tudo, e isso é graças à direção de Honda. Consertando um dos vários problemas vistos no filme predecessor do Godzilla onde víamos simples destruição por destruição, e podemos ver Honda voltando sutilmente ao espírito alegórico do filme original ao mostrar na trama como a imprudência e influência humana no meio natural ocasionaram novamente nas consequências que agora atingem as criaturas.

    Tanto seja no despertar de Godzilla, com as fortes imagens de um submarino vazando remetendo à óbvia poluição marítima e claro ao derretimento glacial quando Godzilla desperta. Ou quando vemos Kong sendo arrastado à força de seu habitat. Ambos trazendo sua ira causada pela humanidade contra ela. Só para vermos depois os mesmos humanos fazendo todos os esforços para tornar ambas forças da natureza encarnadas contra si, até a morte.

    É um retrato trágico, ao mesmo tempo que é hilário em execução. Uma estranha mas prazerosa mistura no final das contas que faz do filme ser tão especial mesmo com suas bizarrices e momentos enfadonhos. O que pode mesmo não ser um ótimo ou totalmente bem executado filme, mas mostra ter total respeito e admiração pelos seus icônicos protagonistas e deixa seu confronto ser um verdadeiro espetáculo de entretenimento à moda antiga.

    E que nos faz pensar o quanto arroz e feijão de criatividade o diretor Adam Wingard vai ter que se esforçar em comer para conseguir fazer de seu vindouro Godzilla vs. Kong um filme com personalidade tão especial quanto esse filme de Ishirô Honda, algo que talvez nem mesmo as mais avançadas tecnologias conseguem criar ou alcançar. Apenas com destreza e coração no qual esses filmes eram feitos!

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  • Raphael Georg Klopper

    Poucos são os filmes que podem se vangloriar desse título tão chamativo e ambicioso que o clássico de Ishirô Honda mostrava aqui conquistar e merecer. E que viria à inspirar gerações de filmes em uma incessante busca de conquistar o seu mesmo brilhantismo. E no que diz respeito à um filme sobre o icônico Godzilla, ainda continua insuperável até hoje!

    Mas se em um mundo onde quase todas das inúmeras continuações, spin-offs, e remakes que o filme teve, ou até alguns dos filmes que fortemente inspiraram o clássico de Ishirô Honda, desde o próprio King Kong de 1933 ou seus contemporâneos O Monstro do Mar de Eugène Lourié ou O Mundo em Perigo de Gordon Douglas, são hoje (alguns questionavelmente) vistos como datados, o que faz essa pioneira versão de Godzilla ser um clássico tão único e admirável até hoje?!

    Depois de um inesperado evento que explode e afunda vários navios civis na costa do Japão, o país entra em estado de pânico. No início, as autoridades pensam que é uma das minas submarinas ou uma atividade vulcânica submarina. Mas na Ilha Odo, perto de onde vários dos navios foram afundados, algo vem em terra e destrói várias casas e mata várias pessoas. Uma expedição é enviada à ilha liderada pelo paleontólogo Professor Kyôhei Yamane (Takashi Shimura), sua filha Emiko (Momoko Kôchi) e o mergulhador Hideto Ogata (Akira Takarada) logo descobrem algo mais devastador do que se imaginava, na forma de um monstro de 50 metros de altura que os nativos chamam de Gojira. Agora, o monstro começa uma fúria que ameaça destruir não apenas o Japão, mas o resto do mundo.

    Não é talvez segredo nenhum que o hoje clássico teve seu início partindo de várias inspirações para fazer o mercado cinematográfico japonês adentrar no rentável cinema de monstros que começava a gerar uma moda clássica de filmes B de diversos tipos e espécies nos anos 50. O que se tornaria o Godzilla produzido por Tomoyuki Tanaka, que provinha tanto de uma óbvia inspiração do clássico King Kong de 1933, e que faria os Japoneses criarem um dos mais clássicos monstros da cultura popular.

    Inspirações claro que vão além do puro fator monstro gigante destruindo miniaturas de cidades, vide que o seu próprio nome é uma mistura de Gorila e Baleia em japonês. Não à toa o Godzilla é confundido no início do filme como uma criatura marítima antes de dar as caras, mas comparações acabam aí. Pois também provém do fator de ser uma criatura gerada pelas energias nucleares nascidas dos intensos testes gerados na época, assim como fora o caso do lagarto gigante de O Monstro do Mar e os insetos gigantes de O Mundo em Perigo.

    Contudo, ao contrário desses filmes que levavam sua trama para o território escapista e onde os militares eram os grandes heróis da pátria contra o perigo nuclear, o Godzilla de Ishirô Honda ia um passo além em tratar dessa trama e temas com uma pegada muito mais dramática e que se leva mesmo à sério. A prioridade em ação de monstros vs monstros e destruições maciças presentes até hoje, não eram o foco aqui.

    Ao conceberem a história do filme, Honda e seu co-roteirista Takeo Murata eram tão cientes do medo e paranóia da bomba nuclear presentes no meio social Japonês que fizeram do seu monstro uma encarnação viva desse medo e das temíveis consequências ocasionadas pelo mesmo. Pois se o Godzilla que hoje é visto como o grande “protetor" do Japão e humanidade, era aqui retratado como uma temível força da natureza se vingando contra a humanidade que o despertara através da destruição e guerra entre humanos e que agora ele pagará na mesma moeda.

    Até toda a destruição que se ocasiona no filme, vemos a palpabilidade desse horror presente na forma com que é criada. Quando temos o que viria ser o icônico tipo de cena com o monstro dizimando prédios como se fossem brinquedos e os desesperados civis são pequenas formiguinhas no cenário sendo esmagadas, não são cenas que passam o sentimento de entretenimento sádico, e sim são cenas geradas como o que são de verdade, verdadeiros desastres e que está gerando incontáveis vítimas.

    Com Honda fazendo um trabalho fenomenal na montagem das cenas dos ataques, ao coincidir todas as cenas de destruição com os ótimos efeitos práticos em miniaturas sendo postos em todas as inimagináveis formas de caos, junto de cenas como a destruição de uma pequena vila logo no primeiro ato sendo tratada com uma ótica muito íntima e com efeitos de emoções muito mais trágicas ao vermos o filho caçula ver a casa com toda sua família dentro sendo esmagada e arrastada em segundos. Ou quando foca em uma mãe abraçada com os filhos em meio às ruínas de Tóquio, só aguardando pela inevitável morte.

    Cenas e momentos que chocam muito mais do que simplesmente vermos civis sendo evaporados ou sendo lançados de carros em chamas, elementos que também estão presente, mas não são o grande ponto de atenção. Elementos que serviriam sim de forte inspiração para o que seria o Godzilla de Gareth Edwards, mas talvez sem o mesmo peso ou cuidado dramático cujo aqui recebe com um enredo muito bem escrito e construído junto de seu retrato alegórico das consequências da guerra.

    Não é difícil perceber hoje o quanto o Godzilla de Honda faz parte da categoria de filmes que usam de seu palco de gênero, seja na fantasia (O Labirinto do Fauno - Guillermo Del Toro), no terror (O Despertar dos Mortos - George Romero) ou na ficção científica (Blade Runner - Ridley Scott) para retratar um pedaço da história, ou o aqui e agora da humanidade através da trama de ficção escapista em que se apresenta. E poucos são hoje os filmes que realmente conseguem fazer isso de forma com que realmente atinja o público sem que um texto crítico enaltecedor venha ter que explicar as “mensagens subliminares” dentro de um filme ou nesse caso que seria hoje um blockbuster de monstros gigantes. Mas também que não seja um que entrega isso de forma tão óbvia e mastigada.

    Vide por exemplo um filme como O Hospedeiro de Joon-ho Bong, que talvez seja o melhor herdeiro do Godzilla de Honda no que diz respeito à sua forma de abordagem da temática do desastre sendo visto por uma escala íntima e trágica dos personagens humanos frente ao evento letal em que estão presenciando e sofrendo por ele. Mesmo que a cena final do filme martele um pouco isso como uma lição de moral, todo o filme até ali já demonstrava essa forte alegoria em seu visual e estrutura muito bem dirigidas.

    A belíssima fotografia de Masao Tamai auxilia muito na construção do tom de melodrama que a história carrega ao realçar muito das consequências, tanto físicas como psicológicas que o caos e destruição que estão sendo causados pela criatura. Com algumas longas passagens devotadas em mostrar toda a destruição vítimas de forma trágica e pesarosa, quase fazendo parecer cenas tiradas de um documentário pós guerra e das brutas consequências de Hiroshima e Nagasaki.

    Além do que é um admirável trabalho técnico por parte da direção ao conseguir fazer tanto as cenas enclausuradas do arco dos humanos visualmente interessantes como o belo enquadramento no escritório do Professor Kyôhei (de um ótimo Takashi Shimura, o eterno confrade de Akira Kurosawa) com a escuridão e o clima vazio indicando a pressão moral com que está lidando, ao ser a única pessoa do filme que pensa no fruto científico que pesquisar a espécie do Godzilla poderia trazer enquanto outros só pensam em sua imediata destruição.

    E que falham miseravelmente nisso quando o monstro dizima por completo qualquer ataque militar à ele como uma força da natureza imparável. Com o belo visual de Tamai convencendo na escala e palpabilidade do cenário em miniatura como se fossem reais. E a ação do Godzilla capturada pela tecnologia do “suitmation” (um figurante fantasiado do monstro destruindo as miniaturas) são trabalhos impecáveis mesmo dentro das limitações de sua época e conseguem passar o terror da criatura.

    Mas que não é uma demonização completa da criatura se enxergar pela perspectiva de que quando o Professor Kyôhei realça as origens pré-históricas da criatura no filme e diz que os "testes" nucleares tanto acordaram Godzilla como também podem ter o modificado, daí sua deformidade e poderes de raios nucleares. O que torna o embate final do filme tanto um sacrifício dos personagens humanos como um trágico fim para a espécie da criatura onde apenas o professor que parece nutrir simpatia e ao mesmo tempo enxergar suas consequências.

    Você pediu por complexidade moral em um filme de monstros gigantes? Aí está! Até a excelente e clássica trilha de Akira Ifukube tanto pode ser vista como uma exaltação do perigo do monstro na forma de construção de espetáculo grandioso, como também um som de inevitável tragédia que acompanha à todos no filme.

    Tragédia essa que acompanha e também deu fruto ao ótimo e extremamente alegórico personagem atormentado do Dr. Serizawa (Akihiko Hirata) e a criação de sua letal invenção que mata todo o oxigênio de seres marítimos, no qual ele teme ser usado como arma são óbvias representações de Robert Oppenheimer, o criador da bomba nuclear e o tormento moral e psicológico que sofreu pela sua letal criação.

    O filme tem esses tipos de exemplos de sobra que servem como prova de como é sim possível construir personagens envolventes mesmo que dentro de um filme sobre monstros gigantes, já que os personagens são o próprio reflexo dos ataques e destruições da criatura. Até o triângulo amoroso presente entre os personagens de Hideo, Emiko e Serizawa não dilata ou soa forçado dentro da narrativa graças aos sentimentos e drama genuínos com que esses arcos são trabalhados e bem atuados pelos atores.

    Provas de uma competentíssima direção de Ishirô Honda tratou sua obra com seriedade e dedicação o suficiente para tornar Godzilla o clássico que é e seu monstro tão icônico, pois ele tinha uma razão e significado dramático para isso. E mesmo que ele tenha se tornado mais tarde a figura chamativa de sequências atrás de sequências de filmes onde a prioridade seria o puro entretenimento de assistir monstros vs monstros, vários cujo Honda seria o diretor e possuem suas qualidades distintas. Mas nunca alcançarão o que fora tão bem realizado aqui e que até hoje inspira à tantos outros que tentam recriar seu brilho.

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  • Raphael Georg Klopper

    Dentre os vários clássicos do gênero buddy-cop que despertam tantos níveis diferentes de nostalgia e as duplas icônicas de atores com rostos e personalidades marcadas para sempre na memória dos fãs de machos experts em tiro, porrada e testosterona sem fim; me surpreende que um filme como Tango e Cash: Os Vingadores, não seja um dos mais celebrados, ou até lembrados.

    O que é um tanto injusto, pois o filme cumpre todos os pré-requisitos de um perfeito filme do gênero: uma dupla com personalidades distintas e de extrema boa índole no cumprimento de seu trabalho pela justiça; uma investigação policial envolvendo cruéis poderes corruptos e frias injustiças contra seus heróis; ação com altas doses de adrenalina para satisfazer todos os gostos; e simplesmente temos Sylvester Stallone e Kurt Russel como a dupla protagonista, também conhecidos como Rambo e Snake Plissken, que carregam o filme nas costas em tamanha e garantida diversão testosterônica!

    A trama segue duas personalidades completamente opostas, Ray Tango (Sylvester Stallone), um agente suave e sofisticado, e Gabe Cash (Kurt Russel), seu parceiro de cabeludo como um surfista e desbocado como um Martin Riggs tirando as tentativas de suicídio. Que trabalham incansavelmente para derrubar o tráfico na cidade de Los Angeles, gerido pelo implacável Yves Perret (Jack Palance).

    No entanto, quando Perret consegue bolar um plano de incriminar a equipe com provas falsificadas, Tango e Cash logo vão acabar em uma prisão de segurança máxima, onde um repertório quase interminável de detentos anteriormente encarcerados por eles, está esperando por seus captores com impaciência. Agora, mais do que nunca, Tango e Cash precisam deixar suas diferenças de lado e se unir, não apenas para escapar dos muros da prisão, mas também para acertar o placar com o chefão maligno que os colocou atrás das grades de uma vez por todas.

    Mas também, não é difícil de imaginar o porquê do filme não ser pouco citado hoje se conhecer um pouco dos inúmeros problemas de bastidores que o filme teve durante sua produção. E não, calma, não envolveu nada relacionado à Stallone e Kurt Russel se esbofetearem de verdade durante as gravações e decidiram filmar e colocar no filme como parte do roteiro. E sim fora o caso do filme ser outra pobre vítima de briga de produtores e diretor etc; (essa porradaria sim daria um ótimo filme!).

    Pois se por um lado o diretor Andrey Konchalovskiy (Expresso para o Inferno; Gente Diferente) queria realizar um filme policial de tom dramático e se levando mesmo a sério em seus temas de justiça e corrupção, o produtor Jon Peters queria basicamente o filme que temos aqui, que não se leva nada à sério e prioritiza seu nível de diversão oitentista acima de qualquer lógica que se pode levar à sério. Ver o Cash de Kurt Russel se vestindo de stripper para fugir da polícia é uma bizarra e hilária realidade nesse filme.

    Sem claro citar os usuais problemas envolvendo Stallone sempre estando fortemente envolvido no processo de seus filmes, roteiro produção etc, um deles envolvendo ele demitir o diretor de fotografia inicial Barry Sonnenfeld, e sempre tendo parte do controle criativo. Mas nem ele parece saber o que o filme deveria ser.

    Essa diferença de tons é bem visível ao longo do filme, espelhado numa fotografia bem Noir e soturna de Donald E. Thorin, para um filme de personalidade tão espalhafatoso e brega. E que vai por percursos horas bem sombrios e violentos quando vemos Tango e Cash basicamente sendo torturados em uma cena e em outras vemos eles fazendo piada com os parceiros de cela com conotações gays e tirando sarro um do outro no chuveiro.

    Não quer dizer claro que filmes do gênero não podem balancear o drama e a comédia ao mesmo tempo, apenas vide todos os filmes Máquina Mortífera como prova disso. O caso é que aqui dá pra se notar as mudanças quase drásticas de direção. Tanto que o pobre Andrei Konchalovsky fora demitido e substituído por Albert Magnoli (Justiceiro da Noite) que filmou todas as cenas de tiroteio e explosões no clímax.

    A ação em si é explosiva e decente dentro do esperado, e é inegavelmente divertido ver a dupla dirigindo um blindado que parece ter sido tirado de um filme de ficção científica futurista, metralhando para todos os lados. Mesmo que seja em um clímax meio jogado de última hora só pra ter mais ação, mas tem todos os tiros e explosões para satisfazer os gostos escapistas, embora não sejam o grande highlight do filme.

    Duas sequências em particular são ótimas e bem construídas na estrutura do filme (que por ironia não tem nenhuma troca de tiros). A hilária emboscada de “boas vindas” na lavanderia da prisão, com nossos dois protagonistas suadões entrando em verdadeira desespero e trocando socos com tudo que veem pela frente, com Konchalovskiy filmando tudo como se fosse um verdadeiro tiroteio de faroeste de socos e músculos.

    E a outra é a própria fuga da prisão que quase lembra um Sonho de Liberdade para machos, com seu setting chuvoso intenso e uma boa construção de suspense quando o plano de um deles dá completamente errado e eles tem que rapidamente improvisar. O que basicamente termina com eles fazendo um verdadeiro zapline em um cabo elétrico durante uma chuva. Pois é, impossível não abrir um enorme sorriso!

    Se bem que, ouso em dizer, que toda a parte de ação do filme não seja onde o filme tenha suas melhores qualidades, e ao mesmo tempo alguns de seus problemas. Parece até meio desnecessário falar de estrutura de roteiro em um filme de ação, mas têm prós e contras interessantes para o filme nesse quesito. Pois se por um lado arranjam um uso de suspense muito fácil e repentino envolvendo a mocinha Katherine (Teri Hatcher) que aparece DO NADA no clímax do filme, temos ao mesmo algumas ótimas sacadas de trama.

    A idéia envolvendo a incriminação de dois policiais tão distintos mas inspiradores é uma sacada inteligente, que tanto eleva a crueldade do vilão Yves o tornando em uma criatura completamente odiável, como também poderia levar à um arco bem dramático para a dupla, embora o filme opte mais pela comédia, o que não deixa de funcionar graças à até bem escritos diálogos (assinatura de Stallone) e inspiradas sacadas entre a dupla principal. Exatamente o ponto principal desse filme nos fazer esquecer todos seus possíveis problemas técnicos que faz parecer pura implicância em apontar, enquanto temos uma excelente dupla aqui.

    Stallone e Russel parecem uma dupla programada nos céus. Não só ambos estavam no ápice de suas carreiras como trazem todo o seu carisma à disposição com uma química instantânea. Os personagens passam grande parte do filme discutindo seus planos de ação, mas que uma hora um acaba aceitando a idéia do outro em sinal de respeito e admiração, coisa que ambos atores com certeza mostram ter entre si só através de suas performances. O que garante com que cada pequeno momento do filme com ambos contracenando seja um puro deleite à parte de toda a ação em volta.

    Uma dupla impagável e que merecíamos ter visto muitas vezes mais juntas. Pena até que ambos nunca tenham voltado a contracenar juntos em outros filmes até hoje. Ou que o filme pusera ter emplacado um relativo sucesso para garantir alguma continuação. Embora hoje o filme tenha sim seus fãs que o colocam como um “clássico cult” dos filmes buddy-cop e marmanjos de ação, merecidamente.

    Pois se mesmo carregue seu pequeno histórico de problemas de produção, Tango & Cash é um filme que sobreviveu à isso tanto graças a diversas boas idéias presentes aqui e ali, assim como também sua infalível dupla de atores ícones que nos faz amar completamente o filme e esquecer quaisquer tipo de probleminhas que possa ter.

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  • Luiz Felipe
    Luiz Felipe

    Estranho pois eu havia curtido essa lista, aparecia o seu nome - por isso vim até o seu perfil -, e quando nela entrava, aparecia que o acesso estava restrito e agora ela sumiu. Se foi um erro de sistema do Filmow, peço desculpas pelo equívoco, mas que seu nome estava lá, como criador, estava.

  • Luiz Felipe
    Luiz Felipe

    Você restringiu o acesso a sua lista de filmes perturbadores?

  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/