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Últimas opiniões enviadas

  • R.

    Falando sobre ambas as temporadas:

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    Em ambas as temporadas, o anime levanta diversas questões (algumas de forma mais sutil do que outras), que vão da inteiração homem e máquina até questões de políticas de estado. Mas há uma questão que é central em ambas as séries. Tão central que justamente dá o nome ao anime: a ideia de um “Stand Alone Complex” (algo como “complexo que se levanta por si só”, em tradução livre). Ao longo deste texto, farei algumas explanações sobre o conceito tal e qual aparece na série, bem como algumas contra-partidas, tanto teóricas como práticas, que podemos encontrar no mundo real. Para tanto, obviamente será necessário recorrer à spoilers, então se você for do tipo que não gosta de qualquer forma de revelação de conteúdo, e ainda não viu o anime, eu sugiro que pare a leitura por aqui. Juntando todos os episódios das duas temporadas, a série conta com um total de 52 episódios, e certamente vale a pena ser vista, até mesmo para melhor entender as considerações que serão feitas aqui.

    Antes de entrarmos no anime e no próprio conceito de Stand Alone Complex, porém, eu preciso, primeiro, explicar um outro conceito, que servirá praticamente de base para todo este texto: o conceito de “Efeito Copycat“. O termo aparentemente foi cunhado em meados de 1916, para explicar uma série de crimes inspirados pelo famoso assassino Jack, o Estripador, e diz respeito exatamente a isso: crimes que são inspirados por crimes anteriores, transmitidos largamente nos jornais e na televisão, ou em eventos de obras de ficção, como filmes ou livros. Mas, de certa forma, este é um conceito que certamente pode ser ampliado, a depender do escopo da pesquisa. Em seu livro The Copycat Effect: How The Media And Popular Culture Trigger The Mayhem In Tomorrow’s Headlines, Loren Coleman chama a atenção para o então conhecido Efeito Werther. Segundo a autora, que inicialmente reconta as pesquisas do sociologista David P. Philips, que cunha o termo na década de 1970, o termo foi inspirado no livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goether, no qual o protagonista termina cometendo o suicídio (é, eu sei, spoilers, o livro tem mais de 200 anos, supere). Segundo conta a história, este livro inspirou diversos suicídios ao redor da Europa, com vários homens replicando o suicídio do protagonista. O impacto foi tão grande que diversos países chegaram a banir o livro, a fim de evitar mais mortes. Assim, o termo veio a significar exatamente isso: suicídios desencadeados por algum outro suicídio prévio, fosse ele real ou ficcional.

    Pondo as coisas em outras palavras: o que o Efeito Copycat prevê, em última instância, é que a atenção excessiva da mídia (seja o jornal, a televisão, etc.) a um dado comportamento (digamos, o suicídio) tende a levar à replicação daquele comportamento por pessoas suscetíveis a tanto (no exemplo, suicidas em potencial podem, após verem grande manchetes sobre algum suicídio, decidirem efetivamente se matarem). Sendo que, e esta parte será importante logo, um tipo de comportamento que é frequentemente imitado é o crime, a exemplo dos já brevemente mencionados copiadores de Jack, o Estripador. Mas o que isso tem a ver com o conceito de Stand Alone Complex? Bom, acontece que, de acordo com o que podemos interpretar do anime, um Stand Alone Complex é um tipo de Efeito Copycat, mas com uma peculiaridade bastante interessante: a inexistência de um original. Enquanto o Efeito Copycat normalmente assume a existência de um criminoso original, o qual é imitado pelas pessoas, para o Stand Alone Complex não há este original, mas sim a ilusão de um original. Além disso, enquanto no Efeito Copycat os indivíduos são apenas imitadores de um original, e nada mais, no Stand Alone Complex coloca-se que, em conjunto, estas diversas ações individuais independentes parecem criar um esforço conjunto para atingir um dado fim. Se isso parece confuso, vamos tentar usar um pouco do anime para explicar melhor.

    Na série de televisão, a Seção 9 se vê obrigada a reabrir um antigo caso de sequestro, realizado pelo então chamado Homem Risonho, um hacker extremamente habilidoso. A reabertura se dá por conta do que inicialmente parece ser a reaparição do criminoso, mas que com o passar do tempo se revela apenas um imitador que deseja tomar para si a fama que o nome carrega consigo. A princípio, parece o seu típico caso de Efeito Copycat, onde um criminoso tenta emular os atos de um criminoso anterior, a fim de ganhar a mesma atenção midiática. Mas com o passar do tempo, algumas coisas estranhas vão acontecendo. Diversos outros imitadores surgem, alguns deles pessoas aparentemente comuns. Uns alegavam que o Homem Risonho havia mandado uma mensagem para eles, os incentivando a seguirem seus passos. Outros chegavam ao extremo de alegarem que eram eles próprios o Homem Risonho. Tudo isso sendo que nenhum dos criminosos parecia ter qualquer relação com os demais. Ainda assim, as ações individuais destes criminosos foi o que levou a Seção 9 a investigar o primeiro caso Homem Risonho, descobrindo uma conspiração política e farmacêutica que impediu o avanço da Vacina Munrai, uma vacina que seria capaz de curar uma doença típica do período em que se passa a série. Agora, vale apontar que nenhum dos imitadores ou plagiadores tinha qualquer conhecimento desta conspiração, mas ainda assim foi a ação individual deles que levou à descoberta do crime e punição dos envolvidos, quase como se este fosse, efetivamente, o objetivo final dos criminosos.

    De certa forma, podemos dizer que o Stand Alone Complex muito se assemelha, ao menos nesse aspecto acima mencionado, ao conceito de Emergência. Para os que não sabem, o conceito de Emergência prevê o surgimento de padrões, regularidades e mesmo grandes “entidades” (políticas, sociais, econômicas, etc.) a partir da interação entre entidades menores, que, em si próprias, não possuem esses padrões ou regularidades. Um conceito que perpassa várias áreas do conhecimento, da química às artes plásticas, um excelente exemplo social do fenômeno de Emergência pode ser encontrado no livro de Robert K. Sawyer, Social Emergence: Societies as Complex Systems, onde o autor cita a linguagem, que surge e se modifica a partir, sobretudo, das conversas e interações entre indivíduos, sempre de um micro cosmos local para um macro cosmos regional ou nacional (isso até, diz o autor, o surgimento dos Estados Nacionais e o movimento de imposição, de cima pra baixo, de uma dada língua como sendo a correta para todo aquele território nacional). Ou, ainda, poderíamos também dizer que o Stand Alone Complex se assemelha ao conceito de Ordem Espontânea, um tipo de Emergência que prevê o surgimento de ordem a partir de um aparente caos. E agora o ponto interessante: ambos os conceitos se assemelham ao de Stand Alone Complex também na medida em que estes preveem o surgimento de padrões, regularidades ou ordem a partir da interação entre diferentes indivíduos, não a partir de um esforço centralizado e organizado.

    Mas tratemos melhor deste ponto. Voltando ao anime, conforme a Seção 9 investiga o caso do Homem Risonho, uma coisa fica imediatamente clara: o criminoso nunca se chamou assim. O título de Homem Risonho foi dado pela mídia, conforme esta cobria o caso no passado. Em fato, isto é algo bastante comum. Em muitos casos em que simplesmente ainda não se tem o nome do criminoso, ou o criminoso não se identifica por nenhum pseudônimo, a mídia e a opinião popular podem acabar inventando um nome para ele, frequentemente fazendo alusão ao local onde o crime aconteceu. Um excelente exemplo brasileiro disso é o chamado Maniaco Do Parque, assassino em série acusado da morte de pelo menos seis mulheres. Nascido Francisco de Assis Pereira, o apelido lhe foi dado pela mídia conforme esta ia noticiando o caso. No anime, este recurso é usado justamente como uma espécie de crítica à cobertura que a mídia faz de certos casos de crimes, e como esta cobertura pode incentivar o surgimento de copiadores, como eu mencionei ao falar do Efeito Copycat. Mas conforme o anime chega ao seu final, um outro dado interessante é adicionado. Enquanto a Seção 9 eventualmente descobre quem foi o Homem Risonho do caso de alguns anos antes, acaba que ele não era exatamente o original. Aoi, o Homem Risonho “original”, havia descoberto a conspiração para ocultar a eficácia da Vacina Munrai enquanto ele vagava pela internet, “tropeçando” em um e-mail antigo que continha a informação. Assim, o anime coloca que o verdadeiro Homem Risonho, aquele que realmente começou todo o processo que levaria à exposição pública da conspiração, seria, em fato, o autor deste e-mail. O problema é que nunca descobrimos quem é o autor, de forma que seguimos sem a identidade do Homem Risonho “original”. Ao invés disso, o que fica são apenas boatos, lendas e exageros, criados a partir dos exageros da mídia e das ações individuais de vários copiadores e plagiadores. Este é o ponto mais importante de um Stand Alone Complex, e mesmo de onde deriva o nome do conceito. E, em fato, é um ponto que possui alguns correspondentes em conceitos que temos no mundo real (fora, obviamente, os já mencionados conceitos de Emergência e de Ordem Espontânea).

    Um destes conceitos é o de Comportamento de Bando, que prevê a capacidade de um grupo atuar de forma coletiva sem que, no entanto, haja qualquer forma de poder centralizado comandando esse grupo. Um exemplo desse tipo de comportamento pode ser visto em revoltas e manifestações. Ainda que por vezes este tipo de aglomeração humana tenha um iniciador, seja ele um particular ou um grupo, é bastante comum que a mobilização, qualquer que ela seja, saia rapidamente do controle desse grupo inicial, a multidão quase aparentando uma “vontade própria”. Vimos isto aqui mesmo, no Brasil, apenas dois anos atrás, nas chamadas Manifestações de Julho de 2013. Inicialmente um movimento criado e liderado pelo Movimento Passe Livre, em repúdio ao aumento de 20 centavos no preço das passagens de ônibus, o movimento cresceu de tal forma que logo foram surgindo pautas e exigências que nada tinham a ver com a intenção original da manifestação. Já outro conceito que talvez seja interessante termos em mente é o de Prova Social, o qual prevê que, em uma situação social onde o comportamento adequado é desconhecido, a pessoa tenderá a imitar aos demais, a fim de tentar ter o que parece ser o comportamento correto. Este conceito é particularmente interessante por conta de um momento em específico do anime, que é quando ocorre o primeiro atentado do imitador do Homem Risonho. Após uma primeira tentativa de matar o Superintendente-Geral, que falha por conta das ações de proteção da Seção 9, pessoas em meio à multidão começam a tentar completar o assassinato. Civis, sem qualquer relações uns com os outros, a cada vez que um falha outro tenta completar o serviço, em uma espécie de efeito dominó que pode muito bem ser entendido pelo ângulo do conceito de Prova Social. Curiosamente, o nome do episódio em questão é “The Copycat Will Dance – MEME”, uma alusão ao já mencionado conceito de Efeito Copycat, bem como ao conceito de Meme, cunhado por Richard Dawkins e que prevê a transmissão, de pessoa a pessoa, de uma dada ideia ou comportamento, que vai então se espalhando, modificando e adaptando.

    Provavelmente, eu ainda poderia citar diversos conceitos que se assemelham ao de Stand Alone Complex, todos com esta característica intrínseca de produzir uma aparente ordem a partir de um aparente caos. Por exemplo, a noção de “etiqueta“. Como a conhecemos, ela provavelmente surgiu em algum momento da Idade Moderna. Nessa época, o avanço da chamada “burguesia” (em termos bastante gerais, empreendedores não pertencentes à aristocracia) já era relativamente notável. E com membros da plebe enriquecendo, alguns até mais do que alguns nobres, a aristocracia se viu forçada a começar a buscar outras formas de distinção social que não mais apenas a riqueza e a ostentação. O portar-se, portanto, ganhou particular atenção, ao ponto de termos mesmo uma maior produção de “manuais de etiqueta” (não exatamente uma novidade da época, a depender da interpretação, mas certamente mais abundantes aqui). Possivelmente estes manuais tinham base já em costumes relativamente já bem estabelecidos, de forma que não devem ter criado toda uma nova forma de comportamento social, mas na medida em que eles incentivavam e valorizavam estes comportamentos, os manuais os afirmavam como corretos, criando assim um ciclo vicioso. Além disso, é interessante notar que estas normas de etiqueta acabaram sendo adotadas, em maior ou menor grau, por outros grupos sociais, independente aqui de riqueza ou instrução. Obviamente que nem sempre foram adotadas exatamente como eram praticadas pela corte, mas ainda há uma tentativa de imitação. Uma imitação de outros imitadores, sem que haja ai um original. E o mesmo poderia ser dito para toda sorte de costumes, tradições, normas sociais, etc.

    Mesmo se ficarmos apenas no campo criminal, existe uma pequena série de casos que são particularmente interessantes para este texto. Me refiro aos casos em que foram usados a chamada “Defesa da Matrix“. Nestes casos, o criminoso foi considerado inocente por motivos de insanidade mental, após afirmar que ele ou ela cometeu o crime acreditando estar na Matrix, a exemplo do caso de Tonda Ansley, como podemos ver nesta notícia do site da CNN, de 2003. Agora, se você por algum motivo que seja não tem a mínima ideia de sobre o que é a franquia Matrix, trata-se de uma série de filmes, iniciada em 1999, na qual o pressuposto base é o de que toda a nossa realidade é só um mundo virtual criado e operado por máquinas. A princípio isto pode parecer não ter muito a ver com um Stan Alone Complex, ainda que seja um caso claro de Efeito Copycat. Mas pensamos um pouco. Ao olharmos mais de perto, a ideia central de Matrix (a de que a realidade é apenas um mundo artificial, falso, inventado) não é exatamente muito original. A ficção já vinha flertando com essa ideia em outras obras, mas, se você quiser forçar um pouco a barra, nós poderíamos mesmo voltar ao famoso Mito da Caverna, de Platão, que coloca que o mundo que vemos não é nada mais do que uma projeção do mundo “verdadeiro”, invisível à nós. E isso lá pelo século IV antes de Cristo! Dizer, portanto, que Matrix foi o primeiro a propor a ideia de que nosso mundo é falso é simplesmente irreal. A franquia popularizou essa ideia, disso não há dúvidas, mas nem de longe a originou. Levemente parecido com o caso do Homem Risonho, não? Dado curioso, ainda, é o fato de que Matrix recebeu inspiração de diversas fontes, mas uma fonte que foi decisiva foi justamente o filme Ghost In The Shell, do qual o filme de 1999 tira bastante de seu visual. Curiosamente, quem assistir à segunda abertura da série animada, de 2004, poderá encontrar diversos paralelos visuais com o segundo e terceiro filme da franquia Matrix, ambos de 2003. O copiado copiando a cópia? Talvez apenas uma leve coincidência. Em todo caso, não deixa de ser um dado interessante.

    Quando paramos para pensar, o conceito de Stand Alone Complex é relativamente simples. É tão somente um tipo de Efeito Copycat onde o “original” não passa de um rumor. Mas quando pensamos a respeito das implicações deste conceito somos capazes de compreender (ou, pelo menos, de perceber) um aspecto curioso da humanidade: a capacidade de seguir o fluxo, mesmo sem saber onde a correnteza dará (ou mesmo como foi parar no rio, em primeiro lugar). Como seres sociais, a imitação sempre cumpriu um papel nada desprezível nas relações humanas. Talvez alguns leitores já tenham lido ou ouvido a respeito de que, durante uma entrevista de emprego, é recomendado ao entrevistado imitar a postura corporal do entrevistador, a fim de conseguir certa empatia deste. Faz lá certo sentido: como humanos, estamos sempre procurando por iguais, e a postura corporal certamente pode influenciar nessa imagem de igualdade e desigualdade. Entretanto, essa capacidade imitativa do ser humano acaba produzindo um resultado que muito possivelmente não desejaram ou mesmo notaram. Ao imitar o comportamento social visto como “adequado”, cada indivíduo acaba por reforçar aquele comportamento como certo, fazendo cada vez mais com que certos comportamentos se tornem quase que entidades à parte, desgarradas da sociedade para se tornarem quase que como leis divinas e imutáveis. O anime não chega a tocar nestas questões, infelizmente, mas certamente nos fornece material para no mínimo começarmos a pensar no papel que nós mesmos desempenhamos na criação e manutenção de sistemas maiores do que nós mesmos, o que por si só talvez seja um bom incentivo para vê-lo. O que cada um fará com esta informação, porém, é completamente individual. Ou… ao menos assim pensemos.

    Link: https : // esoumdesenho . wordpress . com /2015/04/01/ghost-in-the-shell-s-a-c-o-individual-e-o-coletivo-do-efeito-copycat-ao-stand-alone-complex/

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  • R.

    Ajudando a entender Texhnolyze:

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    Bem, antes de conseguirmos entender como o final de Texh funciona de um ponto de vista narrativo, precisamos analisar como ele é estruturado tematicamente, pois o anime, em sua totalidade, é intrinsecamente metafórico, entrelaçando sua narrativa e temas de forma que sejam quase simbióticos. Como já deve ser óbvio, o maior ponto focal da série é a cidade de Lux, as relações de seus habitantes com seu ambiente, e como suas interações alteram seu estado; pense nela como uma linha de montagem, onde cada pessoa tem sua função, por menor que seja, e caso alguém decida abandonar o que, supostamente, "nasceu para fazer", seu funcionamento cessaria (como o próprio final demonstra). Mas, afinal, o que isso significa? É bem simples quando pararmos para pensar, na verdade; se todos têm uma função pré-determinada e imutável, qual o sentido de viver se sua vida toda vai se resumir a esta única função? Quando alguém desafia o status quo, ela vai sempre ter dois destinos; o de um herói ou o de um tolo, e o único fator determinante, neste caso, seria sua vitória ou derrota, e é aí que o desfecho de Texh começa a fazer sentido.

    Mas, antes de tudo, precisamos nos atentar aos detalhes; dito isso, quando caracterizamos a cidade de Lux, podemos muito facilmente perceber sua ambientação primordialmente hostil e primitiva, na qual a sobrevivência dos mais fortes e bem preparados reina, criando uma hierarquia social na qual os mais poderosos controlam os mais fracos, dominando-os e os usando como fontes de recursos; mas, veja bem, a hierarquia social aqui caracterizada não é uma que prioriza força bruta ou poder num sentido convencional, mas sim uma que prioriza a força de espírito, e o poder de submeter os outros à sua vontade. Dito isso, podemos entender claramente o porque figuras tão importantes como Onishi, Shinji, ou até mesmo o próprio Kano estão em suas ditas posições como líderes de seus grupos; por mais que não destruam exércitos com seus olhares, os três possuem um carisma inabalável, que os ajuda a conquistarem multidões, não à força, mas sim com palavras. Mas, então, o que acontece com os que não possuem esse tipo de carisma? Novamente, é bem simples; eles os servem em troca de sua sobrevivência, ou tentam usurpar suas posições de poder, frequentemente falhando, o que acaba por criar um ciclo vicioso de morte e renascimento dentro do ambiente da cidade, fruto da troca constante de lideranças e disputas por poder, o qual o próprio Yoshii descrevia ao início da série.

    Tendo estas informações em mente, por fim, que falemos do final climático da obra. Como já é de se notar, o mesmo já vinha recebendo inúmeros foreshadows desde seu primeiro episódio, através tanto das premonições de Ran, as quais a garota tanto desejava impedir de se concretizarem, quanto através dos discursos de Yoshii, que já tinha em mente uma imagem do que a cidade se tornaria ao fim de seu suposto último ciclo; ou, pelo menos, seu último ciclo em um longo período de tempo. A humanidade foi extinta, Ichise foi o último ser humano vivo no planeta; sim, o último ser humano vivo no planeta, pois aqueles que decidiram continuar na superfície não estavam realmente vivendo, mas sim apenas existindo, embora eu vá falar sobre este aspecto em maior detalhe em outro momento. De qualquer modo, o ponto aqui é: por que a humanidade foi, supostamente, extinta? A extinção da humanidade como um todo, tanto de uma maneira literal quanto metafórica, representam uma crítica ao comportamento conformista e, de certo modo, até mesmo niilista da sociedade atual, onde muitos vivem apenas esperando os dias de suas mortes, sem qualquer motivação ou vontade por trás do que fazem, justamente como os habitantes da superfície, o que contrasta diretamente com os habitantes de Lux, por motivos óbvios. Se a superfície é a personificação do conformismo e aceitação factual da realidade, na qual todos desistiram de viver justamente por esta ser sua única opção, então Lux, como o purgatório que é dito ser, motiva seus habitantes a quererem continuar vivendo, mesmo que naquele ambiente injusto, hostil e sujo, justamente por querer desprovi-los da opção de poderem viver suas vidas como quiserem, o que acaba criando uma situação onde, enquanto um lado abandona completamente seu orgulho e se rende à circunstância, o outro abandona completamente a circunstância em nome de seu próprio ego; e é esse ego, é essa vontade de viver, de ter autonomia, de poder fazer o que quisermos, quando quisermos, que nos torna humanos.

    Com isso, inserindo o processo de texhnolização dentro deste contexto, percebemos como este é apenas mais um meio da obra nos provar o quanto a humanidade, o quanto os habitantes de Lux, desejam continuar vivendo, mantendo-se funcionais através de membros artificiais que, ainda assim, os tornam mais humanos que os habitantes supostamente "superiores" da superfície. No fim, com a texhnolização total da humanidade, e com seu desejo incessável de continuarem vivendo, Ichise, e todos os outros que o apoiavam e lutavam contra a suposta extinção de sua espécie, perderam; eles foram os tolos, por terem sacrificado tudo de mais importante para eles mesmos, apenas pelo seu ego e vontade incessante de continuarem vivendo suas vidas duras, miseráveis e sem propósito. Mas, então, eu lhe pergunto; ao final da série, a humanidade realmente foi extinta?

    O ponto que Texhnolyze faz é extremamente simples, mas tão impactante e importante quanto; o que nos faz humanos é a nossa vontade de viver acima de tudo, e jogar fora todos os seus instintos de sobrevivência e desejos incessantes, por mais imorais e pecaminosos que sejam, seria o mesmo que jogarmos fora nossa própria humanidade. E, por mais que isso seja uma questão um tanto quanto subjetiva, há duas interpretações pro desfecho da obra como um todo; se todos os Shapes (a suposta versão final da texhnolização) ainda existem, e vão ser reativados daqui a milhares de anos, é realmente justo dizer que a humanidade, como um todo, morreu? Afinal, todos os Shapes já foram, um dia, humanos, e seus desejos por autonomia e liberdade foi o que os moveu a assumir esta forma pra início de conversa, então quem pode dizer que estes mesmos desejos e vontades egoístas ainda não são tão prevalentes em suas mentes quanto antes? E, ao mesmo tempo, quem pode provar o contrário? O resto, só cabe ao espectador dizer.

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  • R.

    Assisti novamente e continua incrível. Wolf's Rain é o tipo de anime que me agrada, com uma pegada mais séria, sombria e violenta, sem alívios cômicos detestáveis. Gosto também de como o anime deixa lacunas para o espectador pensar por si só, sem a necessidade de longas explicações.

    A obra trata de questões como companheirismo, fé, perseverança e racismo, tudo dentro de um ambiente desolador e hostil, onde os seres humanos vivem constantemente em conflitos, enquanto os lobos apenas buscam seu lugar no mundo.

    Os 4 personagens principais são lobos que estão procura de um lugar que chamam de ''paraíso'', mas não sabem como é esse lugar, apenas desejam encontrá-lo para poderem sobreviver e viver em paz. A maioria dos lobos perderam a fé e não acreditam que o tal ''paraíso'' exista, e vivem conformados com a situação na qual se encontram, enquanto o protagonista da história mantém sua esperança de encontrar tal lugar.

    O que aprendemos com essa obra é que em meio a tanta luta, desespero, tragédias e injustiças, a união é que faz a força, e no fim o que todos nós queremos é aconchego, amor e aceitação.

    PS: Você pode pular do episódio 14 pro 19, porque do 15 ao 18 são apenas recapitulações do que ocorrera anteriormente. E depois do episódio 26, assistam os 4 OVAS que fecham a história.

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