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Se puséssemos Arthur Penn e Antonioni na cama, encostássemos uma arma na cabeça deles e os obrigássemos a trepar enquanto Bresson olhava pelo buraco da fechadura, teríamos Taxi Driver. (Paul Schrader)

Filmo não importa o quê, mas nunca não importa como. (Claude Chabrol)

Se se ganha dinheiro, o cinema é uma indústria. Se se perde, é uma Arte. (Millôr Fernandes)

Os filmes começam com D.W.Griffith e terminam com Abbas Kiarostami. (Jean-Luc Godard)

É considerado OK em Hollywood ter cenas de sexo nos filmes, contanto que as pessoas envolvidas não pareçam estar se divertindo. Se elas estão, é pornografia. Se não estão, é arte. (John Waters)

Muitas coisas que não percebemos cotidianamente passamos a perceber através da câmera. (Sergei Loznitsa)

Cinema é como um sonho, como uma música. Nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz; vai diretamente até nossos sentimentos, atingindo a profundidade dos quartos escuros de nossa alma. (Ingmar Bergman)

Últimas opiniões enviadas

  • Rodrigo Miguel

    O mestre italiano Sergio Leone é intimamente ligado aos westerns, principalmente pelos macarrônicos filmes da trilogia dos dólares e, evidentemente, por esse clássico chamado “Era uma vez no Oeste”. Ele que aparentemente faz parte de outra trilogia chamada de América e que é composta ainda por “Quando Explode a Vingança” e “Era uma vez na América”. Leone é um cineasta de poucos filmes, o que não o impediu de entrar para a história do cinema por causa de sua capacidade em criar cenas e personagens icônicos. A habilidade como narrador visual é notável e junto com outros diretores teve importância na construção do cinema norte americano atual. Junto a ele há nomes como Coppola, Spielberg, Scorsese e George Lucas.
    Há uma disputa acirrada entre “Era uma Vez no Oeste” e “Era uma vez na América” como o grande épico de Leone. Os dois possuem tantas qualidades que fica difícil escolher um ou outro. No oeste há o inicio de uma nação construída em um solo banhado de sangue. A América já formada é mais avançada, porém continua progredindo por meio da violência. Pistoleiros e índios, gangsteres e imigrantes são a matéria prima para criar tramas selvagens, que ficam gravadas nas retinas dos telespectadores. O interesse da câmera por esses seres marginais é carregado de poesia fílmica, mesmo que as mortes brutais estejam em primeiro plano.
    Este humilde texto é para analisar (ou tentar) especificamente Oeste, tentando esmiuçar os elementos que o formam como obra seminal. Obra essa que têm em seus primeiros frames três pistoleiros esperando em uma estação de trem a chegada de Harmonica (Charles Bronson), que, por sua vez, está à procura do assassino Frank (Henry Fonda). Frank tem a missão de tomar a terra da forasteira Jill (Claudia Cardinale), que chega de New Orleans para se casar. Também é importante na história o fora da lei Cheyenne (Jason Robards), que perambula com seu bando em meio à vastidão do deserto cortado pela construção da linha férrea. Dois desses personagens são marcados por Leone em closes que externam suas personalidades por meio dos olhos. Por isso os expressivos olhos azuis de Fonda são fundamentais para empregar a Frank a aparência de um animal selvagem a procura da caça. Selvagem também é Harmonica em um take na penumbra, com seus olhos destacados pelo brilho que parece de um felino. Eles dois são os agentes de ação do roteiro; com eles o filme começa e termina e é por suas ações que os conflitos são formados. São filhos daquela terra inóspita, onde nasceram e irão morrer. Já Jill é uma forasteira e, ao invés dos olhos, o que entrega isso é seu figurino. Em sua primeira aparição ela está coberta dos pés à cabeça e, conforme vai sendo inserida naquela realidade, perde quase todas as peças de roupa (na verdade elas são rasgadas de forma brutal ainda em seu corpo). Sua pele bronzeada e suada coloca quase que em igualdade com os outros e New Orleans fica definitivamente para trás. Para trás, mas não sem deixar marcas, já que o passado é constante em sua vida, algo que ela tenta enterrar e fugir. Para os outros a situação é a mesma: Harmonica quer vingança por acontecimentos do passado, Frank é assombrado por esse passado esquecido, já Cheyenne quer que sua reputação de implacável seja sempre lembrada.
    No entanto, por mais que as memórias importem, é no progresso que está apoiada a narrativa. A linha férrea citada acima é de extrema importância para configurar a América seguindo em seu processo de construção, deixando o velho oeste com seus mitos para os livros de história. Os momentos mais importantes do filme se passaram com os trabalhadores ao fundo, martelando o metal na terra do deserto. Chegando à estação, a Maria fumaça serve para trazer e apresentar personagens, e os malfeitores mortos são esquecidos no meio da poeira levantada pelos trens. Morte e vida, destruição e construção. Leone usa seu estilo cadenciado para que aquelas imagens fiquem registradas nas cabeças dos espectadores. Servindo como um compasso para as imagens, há a trilha de Ennio Morricone. A tensão e o suspense são muito bem representados pelas musicas que vão do sutil ao estridente, às vezes em uma mesma cena. É impossível não reconhecer o trabalho do maestro, inclusive para os espectadores menos apegados aos detalhes.
    Quando a reconstrução e o passo à frente são necessários, é na figura da solteira Jill que vemos a representante. Por outro lado, é constrangedor notar em algumas linhas do roteiro mensagens extremamente machistas, como quando Cheyenne diz a Jill que ela precisa servir alguns trabalhadores e fazer pouco caso se algum deles passar a mão em seu corpo. É como se ele dissesse: “veja, você está aqui para servir os homens que são importantes para o país, por isso, é aceitável que eles façam com você o que eles quiserem.” Evidentemente se trata de uma produção da década de 70, o que a faz ficar bem longe das demandas femininas dessa nossa década. Com certeza, os olhares femininos irão se ofender, porém, é um fator que se pode relevar para que a obra seja apreciada.
    “Era uma vez no Oeste” é imortal porque uniu um grande tema com a roupagem original de Sergio Leone. Seu elenco é afiado e os fatores técnicos são soberbos. Um grande clássico como esse faz escola e gera imitadores (ou aqueles que querem homenagear), por isso, a nova geração talvez não se impressione, pois terá a impressão de já ter visto vários de seus elementos em filmes recentes (como em quase todos os de Tarantino), o que tira um pouco do impacto na revisita, mas não afeta a grandeza dessa obra prima.

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  • Rodrigo Miguel

    O que é o cinema se não a representação da vida? O que é a vida sem a inevitável morte? São perguntas que o cineasta mexicano Michel Franco tenta responder no delicado e, ao mesmo tempo, brutal “Chronic”, onde dirige e escreve. Ganhador de melhor roteiro no festival de Cannes em 2015, Franco entrega um filme “puro”, aquele que tem por principio mostrar a realidade sem as amarras narrativas ou estilísticas, quase se aproximando do documentário. Faz um recorte de vida de pessoas comuns de forma minimalista, mas inteiramente competente. Trata-se de uma proposta onde um fio de história serve para o filme todo, não necessitando de grandes arcos dramáticos ou de uma jornada pré-definida. De fato, é a realidade que bate à porta.
    Como nome mais conhecido do elenco, Tim Roth dá vida a o enfermeiro David, que fornece assistência em domicílio a pacientes em fase terminal. Seu trabalho dedicado vai além das tarefas atribuídas a ele, levando-o a se envolver emocionalmente com cada um dos enfermos. Por outro lado, David tem no passado algo que o atormenta e que o fez se afastar da filha estudante de medicina. A solidão do homem é tanta que, em algumas vezes, ele toma para si a história dos pacientes de quem cuida. Um exemplo é quando, em um papo de bar, ele diz que era casado, mas que a esposa havia morrido de AIDS. Isso logo após ter cuidado de uma aidética antes dela falecer. Diferentemente dos personagens explosivos da carreira de Roth, seu David beira a inércia em uma atuação que depende do olhar e dos pequenos gestos. Sua constante vontade de ajudar com sorriso no rosto contrasta com a melancolia de quando está sozinho em sua casa escura.
    O que ajuda Roth em seu desempenho é a maneira que Franco constrói os planos. Pouco movimentando a câmera e apostando em seguidos planos “mortos”, onde a situação se desenrola naturalmente, sem mudança focal ou cortes, o diretor força o espectador a olhar a degradação que traça o limite da breve existência do ser humano. David está sempre por perto; enquadrado entre batentes de portas e colunas, que o integram e o aprisionam naquelas casas. Os poucos travellings usados são para mostra-lo em suas corridas durante as folgas ou quando chega à casa de um paciente que morreu fora de seus cuidados, ou seja, em momentos de stress, onde nada está sobre seus cuidados. A figura do enfermeiro pode ser comparada a dos anjos mitológico que espreitam o leito de morte. Estão ali para levar a alma quando a vida chegar ao fim. Porém, não há nada de mitológico em “Chronic”, há sim a grande discussão existencial do sentido da vida em seres que já nascem com o cronometro contando o tempo para o fim. Às vezes o cronometro é adiantado por uma doença ou qualquer outra fatalidade. Por isso, para que amaram, se reproduziram, ou mesmo viveram? Pelos rumos tomados pelo roteiro é fácil decifrar a ideia de uma vida efêmera e sem significado. Deixando a irônica reflexão de que o que resta a ser feito é amar, se reproduzir e viver.
    Com enxutas e suficientes uma hora em meia de duração, é possível traçar todos os dilemas de David sem forçar uma resposta fácil ou precipitada. Decisões polêmicas são tomadas e gerariam enorme discussão se o filme fosse direcionado a um publico mais amplo, fora dos circuitos de festivais. Infelizmente algumas obras são apreciadas por poucos e discutidas em esferas menores. A intenção desse texto é trazer mais um suspiro a essa produção de três anos atrás e torcer para que alguém se interesse em conferi-lo.

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  • Rodrigo Miguel

    Imagine um mundo onde os livros e, consequentemente, todos os tipos de arte são proibidos. Nesse mundo, os bombeiros não combatem incêndios, porque são os agentes causadores do fogo; uma força policial que procura rebeldes acumuladores de arte e faz fogueiras de livros em praça pública a mando de um governo ditatorial que controla a população por meio de uma ideia deturpada de felicidade. No ideal desses homens, para que servem os livros, filmes e musicas com suas propostas autorais, fazendo com que as pessoas fiquem confusas em suas entrelinhas ou em suas confusões filosóficas? O controle vem por meio da tecnologia onde o big brother vigia a todo o momento e transmite ao vivo a privacidade dos cidadãos em rede nacional.
    Ray Bradbury escreveu o ícone da ficção cientifica distópica “Fahrenheit 451” na década de cinquenta, mas a sua história se encaixa perfeitamente na sociedade moderna. A escravização tecnológica promovida pelas telas de celular e internet pode ser o inicio de uma realidade próxima ao do livro, só falta um governo como, por exemplo, o de Donald Trump nos EUA, para dar o golpe final. As ditaduras tomam forma quando a população está distraída com outros assuntos e não consegue perceber quando algo está errado. Retirar a arte e cultura é o estopim para formar cidadãos sem a capacidade de formar pensamentos críticos, sendo relegados a miseras formigas trabalhadoras. François Truffaut já tinha dado a sua visão em 1966 quando filmou a história com Oskar Werner e Julie Christie e conseguiu êxito com um filme que, assim como o livro, virou clássico.
    Em 2018, a sempre confiável HBO lança a versão modernizada de “Fahrenheit 451” trazendo o astro do momento Michael B. Jordan no papel do bombeiro com peso na consciência Guy Montag. Como cadete Montag espera a promoção de seu superior e amigo Beatty (Michael Shannon) para que fique em seu lugar como capitão. A péssima recepção crítica em Cannes, onde foi mostrado fora de competição, fez com que o longa caísse no limbo das preferencias cinéfilas, tendo um lançamento frio por parte do canal. Felizmente, os críticos de Cannes não estavam totalmente certos em suas análises. Claramente se trata de um filme que não transparece nenhum tipo de emoção em seu roteiro. Seus frios personagens são geram qualquer ligação com os espectadores. Frieza que parte principalmente de seu protagonista extremamente desinteressante. B. Jordan tem parte de culpa em relação a isso, já que cria um Montag sem inspiração, praticamente no automático. Já Shannon precisa urgentemente pedir a seu agente que lhe mande papéis diferentes do que ele fez em “A Forma da Agua”. Um ator de alto calibre como ele não pode ficar preso em estereótipos de vilões sem escrúpulos. Por fim, Sofia Boutella entrega o que pode nas linhas rasas de sua Clarisse McClellan.
    Todas as adaptações de livros consagrados ao cinema receberão por parte dos fãs e especialistas algum tipo de ressalva, o que não é diferente aqui. Talvez, a parte de ser exatamente uma adaptação não esteja sendo entendida por todos. Um roteirista não é obrigado a transcrever exatamente o que está na obra literária, e isso é impossível. O cinema possui suas particularidades e precisa se valer delas para destacar-se perante as outras artes. Dito isso, o roteiro de Ramin Bahrani não é totalmente um desastre em criar novos personagens e situações, assim como alterar o final, em prol de um fluxo narrativo mais de acordo com as propostas iniciais. Também cuidando da direção, Bahrani consegue de forma aceitável mostrar suas intenções em cenas bem construídas. Ajudado pela boa fotografia de Kramer Morgenthau, que ilumina um mundo de forma escassa, apostando nas penumbras e em cores que lembram destruição o tempo todo, o diretor usa do vermelho e amarelo do fogo refletido nos rostos para externar as suas facetas. Distorcendo os planos, principalmente quando caminhão dos bombeiros é mostrado em ação, Bahrani lembra que aquela sociedade está doente.
    Tecnicamente bem executado, mas com falta de inspiração, essa nova aposta fica na média se comparado com as produções mais comerciais feitas nos EUA atualmente. Nada fora do comum, porém, bem longe da imagem execrável feita após o festival de Cannes. Afinal, Bahrani não é Truffault, dificultando assim a tarefa de fazer um filme que se tornasse memorável.

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