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Se puséssemos Arthur Penn e Antonioni na cama, encostássemos uma arma na cabeça deles e os obrigássemos a trepar enquanto Bresson olhava pelo buraco da fechadura, teríamos Taxi Driver. (Paul Schrader)

Filmo não importa o quê, mas nunca não importa como. (Claude Chabrol)

Se se ganha dinheiro, o cinema é uma indústria. Se se perde, é uma Arte. (Millôr Fernandes)

Os filmes começam com D.W.Griffith e terminam com Abbas Kiarostami. (Jean-Luc Godard)

É considerado OK em Hollywood ter cenas de sexo nos filmes, contanto que as pessoas envolvidas não pareçam estar se divertindo. Se elas estão, é pornografia. Se não estão, é arte. (John Waters)

Muitas coisas que não percebemos cotidianamente passamos a perceber através da câmera. (Sergei Loznitsa)

Cinema é como um sonho, como uma música. Nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz; vai diretamente até nossos sentimentos, atingindo a profundidade dos quartos escuros de nossa alma. (Ingmar Bergman)

Últimas opiniões enviadas

  • Rodrigo Miguel

    O amadurecimento de um jovem já é um processo difícil em condições normais, onde há uma família para lhe dar suporte. Agora, quando é preciso aprender sobre os obstáculos que o mundo impõe sem um pai e uma mãe, ou quando esses não são totalmente presentes, o caminho se torna ainda mais doloroso. O adolescente Charley Thompson (Charlie Plummer) sente na pele a falta da figura materna em sua vida e por ter um pai (Travis Fimmel) alcoólatra e mulherengo como exemplo. Charley é um entusiasta do atletismo (o filme começa com ele correndo pelas ruas) e possui habilidades no futebol americano, mas é extremamente prejudicado pelas constantes mudanças de cidade que faz junto com o pai, que não consegue manter-se em um trabalho fixo. Todas as aspirações esportivas seriam mais bem trabalhadas se o garoto estivesse matriculado em um colégio. Infelizmente, ele não está. Na Nova cidade, Charley conhece Del (Steve Buscemi) – que possui cavalos de corrida e faz dinheiro com competições semiamadoras – e começa a trabalhar como cuidador dos animais, principalmente de Lean on Pete, que já é velho e possui um problema em uma das patas. Quando Del ameaça vender o cavalo por já não mais conseguir ganhar corridas, Charley foge com o animal.
    Sem nenhum dinheiro, Charley rouba gasolina e comida, mas vê o motor da velha caminhonete parar de funcionar. Por isso, segue a viagem a pé, junto com o seu companheiro, sem monta-lo é claro, porque, afinal, os amigos precisam ser tratados com respeito. O objetivo é chegar até a residência de sua tia, que cuidou dele na infância. Como road movie “A Rota Selvagem” funciona satisfatoriamente, sendo apenas prejudicado pela obviedade do roteiro. Claro que o ineditismo em histórias como essa é praticamente impossível de se conseguir e, provavelmente, não era a intenção dos roteiristas criar algo totalmente original. A saída seria desenvolver situações que exigisse mais da capacidade dos atores e aumentar o clima de tensão durante as cenas na estrada. Explorar principalmente o ótimo Charlie Plummer, que se entrega ao papel durante toda a projeção mantendo o semblante melancólico – chegando até a esconder sua beleza – e uma postura curvada, sempre olhando para o chão (deve ter deixado seu talentoso avô orgulhoso), seria ideal para alcançar um resultado acima do habitual.
    É correta a direção de Andrew Haigh ao apostar nas câmeras intimistas para acentuar os sentimentos e abrindo os planos para mostrar a degradação das cidades durante a viagem e a solidão dos personagens nas cenas do deserto. Deserto esse bem fotografado em sua transição da aridez amarela para o negro frio coberto de estrelas por Magnus Nordenhof Jønck. O negro da noite que acoberta perigos diversos, mas, por outro lado, que inspira a liberdade para um garoto e um cavalo. Os dois que não possuem casa ou família e olham para um passado de dores. Eles não podem voltar porque não são vistos como seres que merecem uma segunda chance, então, o que resta é seguir rumo a um futuro incerto, porém cheio de possibilidades para recomeços.
    Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

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  • Rodrigo Miguel

    Já se tornou comum dizer que comediantes se dão muito bem em papéis dramáticos, chegando até a concorrer a prêmios por suas atuações. Basta citar Jim Carrey em “O Show de Truman” e “O mundo de Andy” e Steve Carrel em “Foxcatcher”. Bom, chegou a vez de Melissa McCarthy aspirar ao Oscar no novo “Poderia Me Perdoar?”, onde faz a escritora de biografias fracassada e cheia de dividas Lee Israel, que passa a falsificar cartas de personalidades do cinema e da literatura falecidas a fim de ganhar dinheiro. O esquema dá tão certo que ela larga a vida de escritora para se dedicar a criar cartas mais detalhadas e vender por valores cada vez maiores. A história se passa na década de 90, quando a avaliação de tais obras não era tão eficiente, facilitando a vida dos criminosos.
    Baseado em fatos, o filme mostra a personalidade corrosiva de Israel e sua incapacidade de fazer amigos ou manter os poucos que lhe restam. Ela vive em um apartamento nova-yorkino entulhado de lixo e livros com sua gata, o único ser que lhe suporta. McCarthy consegue segurar a sua veia de comédia e cria uma personagem legitimamente repugnante, o que não é uma tarefa fácil, devido aos tantos papéis engraçados que representou. Fácil também não é para o espectador – em especial aos que são fãs da atriz – em vê-la tão diferente em tela. Sempre haverá aquele que esperará que ela solte uma piada para amenizar um pouco todo o clima melancólica do longa. Claro que o figurino e a maquiagem ajudam a esconder um pouco a persona de McCarthy. O primeiro cobrindo-a de trapos sem cor, que a fazem parecer uma espécie de mendiga hipster e o segundo deixando-a extremamente pálida. Como complementando há os óculos grandes e peruca de cabelos quase brancos, curtos e mal cuidados.
    Logicamente que os ambientes acompanhariam o contexto por trás da construção da personagem com os locais mais escuros de Nova York e os bares mais afastados do glamour que a cidade representa. Uma pessoa sem valores só poderia transitar nesse submundo. A diretora Marielle Heller também leva ao apartamento com cômodos apertados da escritora todas as sobras presentes do lado de fora e praticamente a encurrala com closes sufocantes quando ela está deitada na sua cama cheia de moscas atraídas por fezes de gato e restos de comida. Cabe ao amigo de bebida Jack Hock (Richard E. Grant) ajuda-la na limpeza do local, porém, eticamente, o sujeito não é o mais indicado em limpar a sujeira dos outros, já que possui as suas próprias para empurrar para debaixo do tapete. Digamos que ele é uma versão dela um pouco mais charmosa, e o ator inglês ajuda nessa composição com sua notável presença de cena e suas linhas de diálogos certeiras. O fato é que nenhum dos dois se importa com quem estão prejudicando, o que vale é o dinheiro que entra, para depois sair em suas bebedeiras. Com isso, a amizade se fortalece.
    Aqui há um conto moral que a academia adora premiar e isso é um ponto a favor e também um ponto contra o filme. Se for agraciado com alguma estatueta, logo entrará no hall dos filmes bons, porém esquemáticos, que são lançados todos os anos por Hollywood. Esse esquematismo confunde o espectador, fazendo com que todas as produções se misturem em suas cabeças e se tornem iguais em suas essências, para logo serem esquecidos. Se não ganhar nenhuma, será apenas um filme comum que talvez seja lembrado pela primeira atuação “séria” de uma estrela da comédia. Sinceramente, não é possível saber o que é pior.

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  • Rodrigo Miguel

    A definição popular de família é aquela em que há vários indivíduos do mesmo sangue vivem harmoniosamente em um ambiente perfeito. O pai provê o sustento, a mãe cuida dos filhos e da casa e as crianças seguem a rotina de lazer e estudos. Esse panorama, evidentemente, foi imposto à sociedade por sonhadores que julgam o que é certo e errado ou feio e bonito de acordo com suas concepções fabricadas pela mídia. Mídia essa onde o cinema se inclui e que tem em Hollywood o seu mais poderoso construtor de ilusões. Infelizmente, o mundo real pode ser bem mais cruel e sombrio com suas famílias dissolvidas; seus filhos, mães e avós abandonados e a constante violência doméstica. Por outro lado, existem também casos de completos desconhecidos que se encontram e, numa demonstração de fraternidade, se unem em comunidade, buscando fugir da solidão. Apenas artistas com uma visão de mundo mais ampla podem fugir do maniqueísmo comercial e representar pelo menos parte das verdadeiras histórias.
    Pois bem, dito isso, no vencedor da Palma de Ouro em Cannes deste ano, “Assunto de Família”, o celebrado Hirokazu Kore-eda aponta suas lentes para um grupo de pessoas que vive em um cubículo bagunçado na periferia de uma grande cidade do Japão. Só que esses indivíduos não possuem parentesco entre si, eles simplesmente passaram a morar juntos por motivos diversos: há a idosa que foi abandonada por seus parentes, o casal que não consegue ter filhos e dois adolescentes, sendo um garoto, ignorante sobre seus verdadeiros pais, e uma garota, deixada com a idosa em troca de pagamentos mensais. Se junta a eles, uma pequena garotinha que é achada vivendo sozinha nas ruas. Todos eles tiveram algo que os afastou de seus familiares reais e agora estão unidos como entes que se importam uns com os outros e não apenas fisicamente.
    Mesmo enfrentando a pobreza com subempregos e furtos em pequenos supermercados, essa inusitada família é feliz em seu microcosmo abastado de cumplicidade e união. Suas tristes vidas passadas são superadas e mesmo esquecidas, deixando as dores para trás. O exemplo mais evidente é o da garotinha que encontra nos braços de estranhos o amor que não tinha com seus jovens pais, que a espancavam com frequências. Porém, a ilegalidade do atos do grupo, já que a garotinha desaparece e é dada como sequestrada, bota em risco tudo o que construíram, fazendo com que as bases tradicionais da sociedade entrem em ação como vilãs implacáveis. Isso abre uma ótima discussão sobre como as pessoas estão cuidando de seus filhos. Será que uma casa bonita, escola e comida são suficientes para formar adultos felizes, ou é preciso algo mais? Esse algo pode estar escorregando pelos dedos daqueles que se preocupam cada vez mais com seus trabalhos e status sociais e menos com os outros a sua volta.
    Kore-eda não poderia retratar esses dramas de outra forma se não a naturalista. Sua câmera está na posição de espectadora e quase não se intromete nas cenas com maneirismos ou movimentos que lembrem que aquilo é um filme. Os planos são fechados, possibilitando intimidade e até gerando certo desconforto por serem tão próximos aos corpos suados nos momentos de verão escaldante, mas também acalentadores quando o inverno é rigoroso do lado de fora das velhas paredes. Como em um documentário, o diretor expõe as mazelas de um país que o mundo acha perfeito e mostra algumas formas de resolvê-las. Afinal, somos humanos antes de sermos asiáticos, ocidentais ou africanos e é por meio de nossa ligação fraterna que conseguimos sobreviver até hoje e um ambiente hostil a nossas frágeis existências.

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