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Se puséssemos Arthur Penn e Antonioni na cama, encostássemos uma arma na cabeça deles e os obrigássemos a trepar enquanto Bresson olhava pelo buraco da fechadura, teríamos Taxi Driver. (Paul Schrader)

Filmo não importa o quê, mas nunca não importa como. (Claude Chabrol)

Se se ganha dinheiro, o cinema é uma indústria. Se se perde, é uma Arte. (Millôr Fernandes)

Os filmes começam com D.W.Griffith e terminam com Abbas Kiarostami. (Jean-Luc Godard)

É considerado OK em Hollywood ter cenas de sexo nos filmes, contanto que as pessoas envolvidas não pareçam estar se divertindo. Se elas estão, é pornografia. Se não estão, é arte. (John Waters)

Muitas coisas que não percebemos cotidianamente passamos a perceber através da câmera. (Sergei Loznitsa)

Cinema é como um sonho, como uma música. Nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz; vai diretamente até nossos sentimentos, atingindo a profundidade dos quartos escuros de nossa alma. (Ingmar Bergman)

Últimas opiniões enviadas

  • Rodrigo Miguel

    AVISO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS

    Lars Von Trier nunca foi um cineasta fácil, seus filmes seguem caminhos subjetivos que abrem discussões acaloradas de quem os defendem com aqueles que os odeiam. Porém, gostando ou não, obras como “Melancolia”, “Anticristo” e “Ninfomaníaca” são vistas como representações artísticas respeitáveis, levando em consideração suas inovações narrativas e estéticas. Von Trier usa elementos externos e, principalmente, internos para criar. O interno toma forma em uma situação ou personagem que são a essência de seu criador. Por isso, o novo “A Casa que Jack Construiu”, pode ser entendido como uma espécie de carta de arrependimento ou tentativa de redenção por tudo que Von Trier foi acusado nos últimos anos: o banimento do festival de Cannes por ter dito que entendia Hitler, as acusações de misoginia que muitos veem impressos em alguns de seus longas e os maus-tratos a algumas atrizes com quem trabalhou. Claro que outros diretores famosos já podem ter feito filmes como terapia, mas não de forma tão clara como cineasta dinamarquês fez aqui.

    A trama segue Jack (Matt Dillon), um serial killer com transtorno obsessivo compulsivo por limpeza, que executa suas vitimas – em sua maioria mulheres – e as mantém em uma câmara frigorifica como se fossem uma coleção pessoal, para depois posicionar os corpos e tirar fotos do resultado, instituindo o que chama de arte da destruição. Ele é convicto de que está em um processo criativo durante aqueles atos bárbaros. Sua justificativa é que, na decomposição, o material orgânico se transforma em carbono e volta ao ambiente para criar, no futuro, novos organismos. Ou a vida a partir da morte. Paralelamente ele projeta e começa a erguer o que diz ser uma casa perfeita, porém, nunca consegue avançar além da estrutura. Quando não é o material que o desagrada é o terreno que está fora do padrão ideal. Incapacitado de construir algo, ele precisa destruir (e achar que constrói no processo) para se realizar artisticamente. As vitimas são telas em branco que precisam ser trabalhadas.

    Jack narra toda a sua trajetória em um dialogo em Off com o poeta romano Virgílio, que não vê nas aberrações do assassino algo sequer que o aproxime de um artista, fazendo o clássico e pós moderno entrarem em conflito. A narrativa é construída em cinco capítulos e um epílogo, sendo cada capitulo um assassinato.  No meio dos capítulos há ilustrações para explicar algum ponto filosófico da discussão. O que torna “A Casa que Jack Construiu” tão magistral é a evidente transposição de Von Trier para a tela na pele de Jack.  Como exercício de autocrítica, os crimes pelos quais é acusado (injustamente ou não) são representados pela violência gráfica e ideológica. Mulheres sofrem cruelmente, a arte nazista/fascista é exaltada, a sua própria arte é julgada e destruída e, enfim, é enviado ao inferno, onde caminha junto de Virgílio, seu guia até as profundezas onde será  sua morada eterna. A câmera não tem vergonha da violência e registra tudo sem cortes. Movendo-se em seu eixo horizontal e dando zooms rápidos nos rostos dos atores, parece ansiosa por mais sangue derramado ao vislumbrar potenciais presas antes de abatê-las. Fotografado com a crueza da granulação, o filme possui explosões de cores ao mostrar o furgão e as peças de roupa do psicopata em vermelho intenso, na mesma proporção do que é visto no cenário dos crimes e no inferno.

    Jack/Von Trier tenta fugir do inferno, mas acaba caindo no seu ultimo nível, onde estão as almas que mais sofrem. A tela preta vem a seguir e com ela a música de Ray Charles enche as caixas de som do cinema com os refrães: ”Hit the road Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more...”, deixando a dica de um possível final da carreira do cineasta ou seu recomeço em um próximo filme mais otimista.

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  • Rodrigo Miguel

    Quando as palavras “Queen” e “Rock and Roll” são colocadas na mesma frase, todos que a leem – ainda que não sejam adeptos do estilo musical – sabem do que se trata. Uma das maiores bandas da história é conhecida principalmente pela figura de seu vocalista, que possuía um estilo performático único e uma vida particular extremamente conturbada. Apesar de seu enorme sucesso, demorou muito tempo para que um roteiro sobre o grupo fosse filmado pela indústria hollywoodiana. Bem, para o bem de alguns que amaram a ideia de uma cinebiografia e para o mal daqueles que odiaram, em 2018 há a estreia de “Bohemian Rhapsody”.
    A trama do longa comandada pelo famigerado cineasta Bryan Singer acompanha toda a trajetória do Queen, mas volta boa parte das atenções para a persona de Freddie Mercury (Rami Malek). As câmeras de Singer se dirigem ao garoto comum de família tradicional, que tinha quatro dentes a mais do que o normal. Mercury nunca quis retirar os dentes, já que, segundo ele, sua arcada dentária fazia com que tivesse um melhor alcance vocal, apesar de ter que conviver com um sorriso incomum. Ele se junta a Roger Taylor (Ben Hardy), John Deacon (Joseph Mazzello) e Brian May (Gwilym Lee) para formar a banda. Com eles, vem junto talvez o maior amor da vida do cantor: Mary Austin (Lucy Boynton). Austin foi o apoio moral e o ombro amigo durante toda a carreira de Mercury. É no período de formação que o filme possui um de seus deslizes ao mostrar tudo acontecendo muito rápido: os membros se encontram, compõem as musicas, fazem alguns shows e já são lançados ao estrelato, tirando um pouco da importância do processo.
    Como cinema, “Bohemian Rhapsody” é prosaico, não trazendo nenhum tipo de elemento que o destaque no meio de tantas cinebiografias já feitas, porém, ele possui algo que atrairá multidões: músicas icônicas. Durante os shows e ensaios, grandes hits tomam conta das caixas de som do cinema, empolgando a plateia, principalmente os fãs de carteirinha. É comovente saber os motivos por traz de composições como “We Will Rock You”, “Love of My Life”, entre outras, e entender a arte daqueles músicos como pura, sem que interesses comerciais atrapalhassem em suas convicções. Mesmo as várias mudanças de estilos musicais são enfiadas goela abaixo de produtores e agentes. Em tempos atuais, onde a opressão à cultura se intensifica, é inspirador ver em tela artistas trabalhando livremente, sem nenhum tipo de interferência econômica, estatal ou religiosa.
    Malek ajuda na imersão desse mundo com uma atuação sólida, trazendo à vida os atributos performáticos de Mercury e não exagerando nos momentos que sua homossexualidade vem à tona. Com a ajuda da maquiagem e de um figurino excepcional, o ator realmente se destaca e, se não acontecer alguns dos muitos erros de julgamento da academia, será indicado ao Oscar. A sua entrega ao papel chega ao ápice na representação do Live Aid ocorrido em 1985, quando, após atritos e a separação da banda, eles se juntam para uma causa nobre (o show foi para arrecadar dinheiro para combater a fome na África). Nessas sequências a alma do Queen está presente através da emoção de milhares de pessoas cantando junto no estádio de Wembley. Só não é tudo perfeito por causa do trabalho de edição e de figuração mal executados. Cortando entre o plano geral do público para figuras isoladas, é possível perceber a diferença de iluminação entre um e outro e a falta de empolgação de alguns extras. Quando o palco é mostrado de frente, também é evidente a quantidade pequena de pessoas que estão na primeira fileira, destoando de shows reais onde aquela posição é extremamente agitada.
    Ressalvas à parte, o filme é correto em sua proposta narrativa e magistral como um grande show cinematográfico do Queen. É certo que, ao final da sessão, alguém irá comprar uma camiseta da banda e baixar toda a sua discografia no Spotify. Com isso, Mercury e companhia continuarão com seus refrãos sobre amor, solidão e amizade; formando um mundo de admiradores que, de certa forma, farão parte para sempre da grande família real.

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  • Rodrigo Miguel

    O amadurecimento de um jovem já é um processo difícil em condições normais, onde há uma família para lhe dar suporte. Agora, quando é preciso aprender sobre os obstáculos que o mundo impõe sem um pai e uma mãe, ou quando esses não são totalmente presentes, o caminho se torna ainda mais doloroso. O adolescente Charley Thompson (Charlie Plummer) sente na pele a falta da figura materna em sua vida e por ter um pai (Travis Fimmel) alcoólatra e mulherengo como exemplo. Charley é um entusiasta do atletismo (o filme começa com ele correndo pelas ruas) e possui habilidades no futebol americano, mas é extremamente prejudicado pelas constantes mudanças de cidade que faz junto com o pai, que não consegue manter-se em um trabalho fixo. Todas as aspirações esportivas seriam mais bem trabalhadas se o garoto estivesse matriculado em um colégio. Infelizmente, ele não está. Na Nova cidade, Charley conhece Del (Steve Buscemi) – que possui cavalos de corrida e faz dinheiro com competições semiamadoras – e começa a trabalhar como cuidador dos animais, principalmente de Lean on Pete, que já é velho e possui um problema em uma das patas. Quando Del ameaça vender o cavalo por já não mais conseguir ganhar corridas, Charley foge com o animal.
    Sem nenhum dinheiro, Charley rouba gasolina e comida, mas vê o motor da velha caminhonete parar de funcionar. Por isso, segue a viagem a pé, junto com o seu companheiro, sem monta-lo é claro, porque, afinal, os amigos precisam ser tratados com respeito. O objetivo é chegar até a residência de sua tia, que cuidou dele na infância. Como road movie “A Rota Selvagem” funciona satisfatoriamente, sendo apenas prejudicado pela obviedade do roteiro. Claro que o ineditismo em histórias como essa é praticamente impossível de se conseguir e, provavelmente, não era a intenção dos roteiristas criar algo totalmente original. A saída seria desenvolver situações que exigisse mais da capacidade dos atores e aumentar o clima de tensão durante as cenas na estrada. Explorar principalmente o ótimo Charlie Plummer, que se entrega ao papel durante toda a projeção mantendo o semblante melancólico – chegando até a esconder sua beleza – e uma postura curvada, sempre olhando para o chão (deve ter deixado seu talentoso avô orgulhoso), seria ideal para alcançar um resultado acima do habitual.
    É correta a direção de Andrew Haigh ao apostar nas câmeras intimistas para acentuar os sentimentos e abrindo os planos para mostrar a degradação das cidades durante a viagem e a solidão dos personagens nas cenas do deserto. Deserto esse bem fotografado em sua transição da aridez amarela para o negro frio coberto de estrelas por Magnus Nordenhof Jønck. O negro da noite que acoberta perigos diversos, mas, por outro lado, que inspira a liberdade para um garoto e um cavalo. Os dois que não possuem casa ou família e olham para um passado de dores. Eles não podem voltar porque não são vistos como seres que merecem uma segunda chance, então, o que resta é seguir rumo a um futuro incerto, porém cheio de possibilidades para recomeços.
    Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

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