Frustrante.
Um cineasta se vê arrastado para uma complexa teia de intrigas o assombrando e fica obcecado com uma mulher, um crime e com o seu passado.
É outro filme quando assistido com maior consciência de quem é Monte Hellman. Dei 2,5 na época e hoje 5 com facilidade. Se em Two-Lane Blacktop quase não existe um filme, aqui não existe é a realidade. Tudo é ficção ininterruptamente numa experiência parecida com F for Fake.
É Koyaanisqatsi e Naqoyqatsi.
F for Fake, ótima comparação ! Não tinha pensado nisso ainda, dá pra fazer umas analogias interessantes entre os dois ...
Eu diria que Monte Hellman é o maior fora-da-lei dos cineastas americanos, quem já assistiu outros filmes dele, sabe que o diretor sempre começa com uma certa premissa e na metade do filme, puxa o tapete debaixo do público: em seu clássico cult Two-Lane Blacktop, por exemplo, depois de apostarem uma corrida onde o vencedor ganharia o carro do outro, eles parecem esquecer que estão competindo e o diretor pouco se importa em mostrar qualquer tipo de resolução.
Hellman sempre esteve interessado em transferir certa fisicalidade à película, veja a ultima cena de Two-Lane Blacktop ou as longas cenas de Road to Nowhere onde a câmera repousa sobre os atores, sugerindo tempo real, ou ainda a cena onde o personagem principal Mitchell Haven , diz o que importa em um filme : “ - Casting, casting, casting. “ Uma preocupação compartilhada por Monte Hellman, que busca em seus atores mais a presença e vulnerabilidade do que a atuação em si, aqui atuações grandiloquentes tão premiadas pelo Oscar ou Globo de Ouro não têm espaço, mas uma atuação mínima ou inexistente, onde o ator busca o personagem dentro dele, e não o contrário, que seria o ator tentando se tornar o personagem . Essa sensação de concretude é um ponto crucial em Road to Nowhere , que trabalha com um 'mise en abyme', um jogo de espelhos e ilusões, de forma visualmente inteligente, sempre criando tensão.
“- Let's play a game, which is called : fuck the facts,"
O que guia o desenvolvimento de seus filmes não é narrativa convencional, mas sim as motivações de seus personagens, e Road to Nowhere é um filme permeado de personagens com motivações obscuras, todos se debatendo em busca do controle do processo criativo, um invadindo a cena do outro ou fazendo sugestões ao diretor do filme dentro do filme, cada um puxando os holofotes para seu mundo pessoal , tentando impor a sua visão dos fatos (que fatos ? ) até chegar o ponto de roubarem o filme do próprio Monte Hellman, que aqui redefine o papel do diretor de cinema, não mais um meticuloso criador responsável pelo que acontece em cada cena, em cada frame, mas um artista que liberta a própria obra em um processo de colaboração aberta e subconsciente, à mercê da equipe e do público ( até mesmo os mal-intencionados ) , um processo perigoso, com certeza, mas que injeta um tipo de energia criativa totalmente diferente.
“ - It's not just some Hollywood piece-of-shit movie. It's MY Hollywood piece-of-shit movie.”
Road to Nowhere é um filme sinistramente evocativo, mas sem cair nas armadilhas da nostalgia. É completamente vivo, você sente ele respirar através da fotografia molhada resultado das câmeras DSLR Canon 5D, e através do mistério que envolve a sensual Velma Duran. Mistério que, aliás, provavelmente não tem uma resolução possível, assim como a vida ( " - If it all made sense, I wouldn't be interested." ), uma ilusão de outra ilusão e assim por diante, o que interessa não é a verdade – convenhamos, o que é real nos filmes? - mas a imersão em uma realidade mostrada ou sonhada através de uma modificação na forma em que absorvemos a imagem, um rendimento completo à câmera : uma arma de ilusões que engole o mundo e ‘realidades’ diferentes, capaz de engolir o próprio processo do filme, cinema como uma prisão sem saída, não é por acaso que
o filme começa e termina em uma.
“ This is a true story. “
Uma mordaz representação da experiência de fazer um filme, com todas as influências externas, egos, tensões, obsessões criativas, modificações de ultima hora e paixões que cercam a arte e ao mesmo tempo uma ode ao cinema, cheio de referências, de Sam Fuller a Victor Erice, de ‘Vertigo’ a ‘Tirez su Le pianiste’, que quando não comentam diretamente no filme ( “ - Positively the same dame ! “ – The Lady Eve ), compartilham uma profunda ressonância com o roteiro.
De muitas maneiras Road to Nowhere amadurece ideias já presentes nas melhores obras de Hellman, que aqui entrega um filme sólido, pode ser dito que é seu projeto mais pessoal : os filmes referenciados estão entre os favoritos pessoais do diretor, a personagem de Sossamom foi baseada em Laurie Bird, com quem ele se envolveu amorosamente durante as filmagens de Two-Lane Blacktop e Cockfighter , e que se suicidou anos depois - inclusive o filme é dedicado a ela, Mitchell Haven e Steve Gales, o diretor e o roteirista mostrados no filme, compartilham as mesmas iniciais de Monte Hellmam e Steve Gaydos, o diretor e o roteirista de Road to Nowhere, e o projeto foi filmado sem permissão na Europa, se mantendo fiel às raízes do cinema independente de Monte.
Não acho que gostar ou não desse filme seja uma questão de intelecto, mas de sim de gosto (pulp, arthouse, noir, estudos de personagens obsessivos, filmes densos etc ) e conexão emocional com o material. O filme pode ser um caminho para nada, mas como diz aquela velha frase, o que importa é a jornada e não o destino.
Comentários desta qualidade são interessantes até quando o filme me desinteressa. Verei outra obra do diretor pela lucidez do seu elogio! Parabéns...
40 anos depois, é como se Hellman invertesse o ângulo: Lá, realidade seca, aqui, pura ficção.
Não diria que é pura ficção, mas sim o ponto onde ficção e realidade se entrelaçam, impossibilitando distinções entre uma e outra, uma realidade subjetiva. Mas concordo com seu comentário sobre 'inversão de ângulo', em Road to Nowhere é como se Monte olhasse de volta, do outro lado da estrada, desta vez com a experiência dos anos e dos projetos falidos. É tão triste quanto cômico, um diretor de 80 anos de idade fazendo um cinema vital e auto-reflexivo é renegado às margens do cinema independente, enquanto outros diretores que vivem de glórias passadas e atualmente fazem filmes que empalidecem perto de suas obras-primas criam buzz gigantesco na mídia e entre os fãs de cinema a cada novo lançamento. O cinema de qualidade vive em tempos difíceis.
Um filme com pretensões de cinema minimalista e metalinguístico mas que desanda do início ao fim! Uma pena!
O filme aparentemente perdido e bobo conclui sem ápice pra muitos, mas ao visto de outros é um filme complexo e reflexivo. Mas como poderemos refletir sem ter conteúdo algum? É um daqueles filmes dos quais precisamos de estudo pra entender, poucos se encantarão com a história, afinal, o encanto tá escondido na complexidade, que se desvendada, transforma o filme em um dos melhores do ano, digo, foi isso que a APJCC fez, colocou ele na lista do 10 melhores pra serem exibidos, mas não acho que tem patamar pra tal classificação, mesmo que o gosto de alguns seja apurado pra esse tipo de "obra de arte restrita", acho desleal remar contra a maré fazendo o público suportar por educação um filme que não agradará à massa. No meu caso, fiquei neutro, preferi a crítica que me abriu os olhos após a exibição, do que o filme em si. E sobre minha própria visão do filme, foi divertido em algumas partes, mas sem nenhum crédito pra ser melhor do ano, com toda certeza não.
Foi difícil terminar de assistir cochilei umas 3 vezes, filme não me prendeu em nada.
O título não poderia ser mais apropriado...
Sinceramente, não faz muita diferença assistir ou não a este filme.
galera gostei bastante do filme..
conseguiu prender minha atenção..
uma trama que teve um desfecho bem curioso..
vale a pena conferir
Caminho para a desconfiança. Para o quebrar expectativas. O cinema de Hellman não me desce, mas me instiga demais. A cada aparente solução da trama, um nó metalinguístico radical.
Li comparações desse "Caminho para o nada" com o estilo de cinema de David Lynch, mas por favor não caiam nessa! Aqui até existe uma trama aparentemente inteligente que Lynch gosta de trabalhar, mas não há nada que se aproveite por aqui. É só o arremedo de uma mesmo.
Colocaram ainda cenas de clássicos absolutos do cinema no meio só para dar uma ar de importância cult, mas não colou. E a maneira hermética que o diretor quer tratar tudo como se fosse uma grande ideia só deixa tudo mais ridículo ainda.
Se era para ser grandioso o tal retorno de Monte Hellman na direção sinto muito mais teremos que esperar pelo próximo filme dele. E Caminho para o Nada é o título mais condizente com um filme lançado nos últimos tempos.
A única que coisa que torna o filme facilmente assistível e reassistível é a estonteante beleza de Shannyn Sossamon, que aliás, diga-se de passagem, perece que só faz filmes ruins. Tá mais do que na hora da modelo desencantar no cinema, achei que seria este filme, mas, ainda vou ter que esperar para ver o primeiro ótimo filme com a garota dos sonhos.
Outro dia eu pensava que fazia tempo que não via um filme metido a intelectual que não achasse plenamente ruim, pensava se não era o caso de estar perdendo um tanto do meu senso crítico capaz de separar a repetição estilística da verdadeira qualidade de uma obra. O que quero dizer é que não basta uma ou outra fala tirada de um livro de filosofia ou sociologia, uma narrativa arrastada antivideoclipe, e uma história confusa ou minimal para se fazer um grande filme. Grandes podem inclusive ser o completo inverso disto.
A repetição esvaziada, sem proposito, destas técnicas, características, temas, etc., em um filme podem servir apenas para criar uma ilusão. A ilusão da obra de arte de cinema. A roupa do rei cinematográfica.
O lado bom de ter visto Road to nowhere é que agora sei que ainda sou capaz de perceber um filme ruim travestido de cult, só estava tendo sorte nos últimos filmes vistos.
"A repetição esvaziada, sem proposito, destas técnicas, características, temas, etc., em um filme podem servir apenas para criar uma ilusão. A ilusão da obra de arte de cinema. A roupa do rei cinematográfica."
Mas o filme é justamente SOBRE a ilusão do cinema.
Pois então Tiago, o filme é sobre a ilusão do cinema e eu me referia a ilusão de se criar uma obra de arte repetindo características que supostamente estas obras teriam. A referencia ao conto de fadas sobre a roupa invisível do rei resume bem minha opinião sobre a obra (aliás, um dos meus contos de fadas favorito que fala justamente sobre a crítica)
Sim, me referia mais especificamente ao começo do comentário ' A repetição esvaziada, sem proposito'. Sem propósito ? Acredito que esse filme é um dos mais perspicazes sobre o que é cinema e como ele é manipulado, tendo muito a comentar sobre o estado do cinema contemporâneo e sobre a indústria. Mas entendo quando dizem que parece demasiado pretensioso, ou que é a roupa do rei, o conteúdo não é exatamente de fácil leitura. Por outro lado, o filme me atingiu num 'gut-level' que geralmente não sinto no cinema atual e me intrigou tanto que assisti 3 vezes na ultima semana, concordo quando você diz que Sossamon deixa o filme facilmente reassistível, êta mulher linda ! Hahahah
Regular. É interessante pela metalinguagem, mas não me prendeu tanto.
não entendi porra nenhuma mas achei genial. ótimo para quem curte os filmes do lynch, tem toda aquela vibe que flerta ora com o noir, ora com o onírico.
Os comentários ruins me deixaram com vontade de ver.. Todo filme cheio de comentários tipo "Trama rasa, tinha tudo pra ser bom.." Eu acabo tirando algo que gosto bastante :)
ihh, eu sou bem assim tbm, tipo: dxa eu tirar minhas próprias conclusões!!! rsrsrs
É bem verdade que ele é arrastado, como tb que poderia se desenvolver melhor. Mas é um filme muito forte, com uma ótima trama, um jogo de metalinguagem pra lá de criativo e um desfecho cru, que te deixa pensando dias depois de ter visto. Monte Hellman é um cineasta sem concessões e aqui investiu em uma trama mais densa, mas com um poder de fogo impressionante. Um filme que te deixa mal ao sair do cinema, o que se torna a experiência melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista)!
sério, não vai pelos comentários. o filme é mto complexo, vale a pena ser visto e vale a pena pensar mais do que duas horas sobre ele.
Foi boa intenção, mas acho que o filme não alcançou o seu propósito.
Um blockbuster escrito e dirigido ao molde aparente de um film noir com intenção Cannesiana. Com essa miscelânea seguramente equivocada, Caminho para o Nada se desenvolve desde o seu princípio. Enquanto o longa jaz sobre uma linha de roteiro rasa (mas com uma visível profundidade que jamais alcança), sua aparência (sequencial, fotográfica e de planos) é, absolutamente, inspirada nos filmes aclamados anualmente no Festival de Cannes.
[...]
Crítica em: http://cinema.virgula.uol.com.br/filmes/caminho-para-o-na...
Bons e ruins filmes para nós!
realmente não dá em nada, mas Hellman consegue umas cenas ótimas no caminho
O retorno do cineasta Monte Hellman depois de um hiato de 20 anos longe das câmeras provou ser uma experiência das mais inconstantes e desinteressantes recentes. Acompanhando a narrativa sobre ilusão/realidade, metalinguagem e confusão da camada de ficção com o real, o diretor abusa de um tom indulgente e deselegantemente contemplativo, acompanhando cada plano com a velocidade de uma tartaruga.
Assim, deliberamente (e desnecessariamente) arrastado e desritmado, o longa começa desde o início a sepultar sob uma camada insuperável de verniz uma história com um potencial gigantesco de ser um grande filme: a obsessão de um cineasta por uma atriz que supostamente possa ter cometido um crime. No entanto, apesar da sinopse rasteira, o roteiro de Steven Gaydos tem o mérito de jamais deixar o espectador confortável no jogo de personagens e intérpretes.
Assim, as vezes Val, as vezes Laurel, a personagem de Shannyn Shossamon começa a apresentar características de ambas. Acompanhado pela obsessão de, as vezes um investigador de seguros, em outras o consultor da história, a história começa a criar raízes no espectador que, inseguro, sente-se completamente imerso em cena. Veja por exemplo como é curioso que, apesar do diretor do filme dentro do filme (assim como o roteirista) ser um dos poucos que, a princípio, não tem uma contraparte, esta começa a se tornar visível no momento em que compreendemos que é Monte Hellman (que tal o trocadilho do nome Mitchell Haven?) o seu intérprete.
Porém, essa riqueza de detalhes é mais interessada em brincar no jogo de ilusão do que em, apropriadamente, encerrar de maneira satisfatória a narrativa. Não é tão difícil entender o resultado final, é somente um problema do espectador em revisitar aquele mundo e aqueles personagens e acabar em um caso profundo de coma terminal.
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