Woody Allen mantém uma posição curiosa no cinema atual. Não pratica o cinema tido como artístico, cujo maior prestígio surge nas obras vindas da Europa, mas também não cede ao cinema comercial hollywoodiano, incansável na busca de blockbusters. Entre um extremo e outro, Woody Allen faz filmes à la Woody Allen.
Esse filme (Dirigindo no Escuro) é uma sátira ao tema. Allen ironiza a indústria do cinema e os maneirismos críticos que fazem de um filme um sucesso absoluto em um país e um desastre irreversível em outro. O 32º longa do cineasta e chegou com um atraso de um ano ao Brasil, após o diretor já ter um outro filme pronto, Anything Else (Igual a Tudo na Vida).
Novamente a velha e talentosa mão do diretor continua revigorando seu estilo, usando e abusando de cacoetes que reerguem as velhas máximas expostas em todos os seus filmes: as dificuldades em se lidar com as mulheres, consultas ao psicanalista, as ruas de Nova York, o bom gosto versus vulgaridade, tudo isso ao som do bom e velho jazz. Os temas, os ambientes, a sonoridade, é tudo deja vu no mundo de Woody Allen.
É deja vu, mas não soa como repetição por causa dos detalhes. E o curioso é que soando deja vu, Allen prende seus críticos no mesmo círculo vicioso de se auto-repetir. Sim, porque tudo que vem sendo falado da obra recente do diretor, ao menos nos últimos cinco anos, cabe aqui: Dirigindo no Escuro é o pior filme do diretor. E o pior filme de Allen é melhor que 95% do que se encontra em cartaz atualmente.
Com uma história fraca, Allen faz aquilo que sabe melhor: adaptar suas obsessões a suas histórias. E dá-lhe piada sobre judeus, Hollywood, casamentos, família e a sua própria posição de cineasta. E uma nova piada, agora: ironizando Hollywood, Allen goza com a posição do Estúdio de Cinema que o acolhe, a poderosa Dreamworks de Steven Spilberg. A brincadeira diverte ao mesmo tempo em que critica, o que em se tratando de Allen torna o passatempo de ver um filme, algo mais emocional que qualquer outra coisa. E só isso já vale a expectativa pelo filme anual do diretor ser compensada. E a espera pelo ano que vem...
Por enquanto, ironia das ironias, um belo final hollywoodiano já nos faz sair do cinema sorrindo muito. E, principal, sem ter vergonha disso.
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