Através de imagens de arquivo e entrevistas, o documentário relembra o ano de 1951, em Joinville, quando a cidade celebrou o seu centenário com grandes comemorações.
1951 – Crítica Discursos saudosistas sempre me preocupam, pois são carregados de sentimentos. Emocionam, nos tocam, inflam as massas e pintam o passado de uma forma extremamente idealizada. O documentário 1951, sobre as festividades do centenário de Joinville, me parece calcado em uma memória saudosista da cidade. A voz over e as entrevistas seguem uma mesma linha editorial, sem divergir em nenhum momento. Todos os entrevistados, que viveram as festividades falam sempre de uma cidade pacata, sem agitação, de um tempo onde tudo era melhor.
A obra é um exercício para o entendimento do papel do narrador no cinema, um personagem que conta a história, que guia o espectador por cada lugar e direciona seu olhar para um ponto de vista. Ele está evidente na divisão dos capítulos e na voz over, mas é na montagem onde esse papel é exercido de maneira transparente. O corte em cada fala de morador da cidade e a escolha de quem fala sobre os 100 anos, mostra o direcionamento para um discurso sem contradições e marcado pelo pensamento hegemônico da cidade.
O filme inicia com o discurso sobre as grandes mudanças no mundo no ano de 1951 e coloca Joinville no centro. Fala do pós-guerra, da industrialização e de seu centenário. A imagem do discurso de Getúlio Vargas reforça a importância dessas mudanças, mas durante o filme a perspectiva parece se voltar ao passado do cotidiano, sem tocar nas questões políticas e sociais de Joinville. A obra mantém a imagem reconhecida da cidade, sem questionar. Fala da cidade das bicicletas, do povo ordeiro e trabalhador, a imagem do Príncipe e a educação alemã. Mitos que existem apenas para um pequeno círculo. Quando falam do Rio Cachoeira, não existe nenhum questionamento sobre quando não se pode mais tomar banho, nem quem são os grandes responsáveis pela poluição. O único conflito e divergência durante todo o curta é sobre quem torcia para o América e quem era Caxias.
O filme segue assim uma linha transparente, sem surpresas na forma ou no conteúdo, isso torna a obra eficiente em transmitir sua mensagem. Mesmo se baseando principalmente em entrevistas, o cineasta Ebner Gonçalves consegue fugir do enclausuramento do olhar quando muda o ângulo e o plano da imagem dos entrevistados. As cenas em planos abertos são reservadas às imagens de arquivo e para o plano final. Não existe muito espaço, nem razão para som ambiente, logo a trilha segue o tom saudosista das falas.
A forma se adapta ao conteúdo das anedotas sobre um dia feliz para pessoas que compareceram na festa do centenário. Um após o outro, eles contam sobre como era o cotidiano da época e como foram felizes ali, talvez seja uma chatice minha exigir um outro ponto de vista, afinal em dias de festas todos querem esquecer dos problemas e apenas sorrir.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de áudio e vídeo
1951 – Crítica
Discursos saudosistas sempre me preocupam, pois são carregados de sentimentos. Emocionam, nos tocam, inflam as massas e pintam o passado de uma forma extremamente idealizada. O documentário 1951, sobre as festividades do centenário de Joinville, me parece calcado em uma memória saudosista da cidade. A voz over e as entrevistas seguem uma mesma linha editorial, sem divergir em nenhum momento. Todos os entrevistados, que viveram as festividades falam sempre de uma cidade pacata, sem agitação, de um tempo onde tudo era melhor.
A obra é um exercício para o entendimento do papel do narrador no cinema, um personagem que conta a história, que guia o espectador por cada lugar e direciona seu olhar para um ponto de vista. Ele está evidente na divisão dos capítulos e na voz over, mas é na montagem onde esse papel é exercido de maneira transparente. O corte em cada fala de morador da cidade e a escolha de quem fala sobre os 100 anos, mostra o direcionamento para um discurso sem contradições e marcado pelo pensamento hegemônico da cidade.
O filme inicia com o discurso sobre as grandes mudanças no mundo no ano de 1951 e coloca Joinville no centro. Fala do pós-guerra, da industrialização e de seu centenário. A imagem do discurso de Getúlio Vargas reforça a importância dessas mudanças, mas durante o filme a perspectiva parece se voltar ao passado do cotidiano, sem tocar nas questões políticas e sociais de Joinville. A obra mantém a imagem reconhecida da cidade, sem questionar. Fala da cidade das bicicletas, do povo ordeiro e trabalhador, a imagem do Príncipe e a educação alemã. Mitos que existem apenas para um pequeno círculo. Quando falam do Rio Cachoeira, não existe nenhum questionamento sobre quando não se pode mais tomar banho, nem quem são os grandes responsáveis pela poluição. O único conflito e divergência durante todo o curta é sobre quem torcia para o América e quem era Caxias.
O filme segue assim uma linha transparente, sem surpresas na forma ou no conteúdo, isso torna a obra eficiente em transmitir sua mensagem. Mesmo se baseando principalmente em entrevistas, o cineasta Ebner Gonçalves consegue fugir do enclausuramento do olhar quando muda o ângulo e o plano da imagem dos entrevistados. As cenas em planos abertos são reservadas às imagens de arquivo e para o plano final. Não existe muito espaço, nem razão para som ambiente, logo a trilha segue o tom saudosista das falas.
A forma se adapta ao conteúdo das anedotas sobre um dia feliz para pessoas que compareceram na festa do centenário. Um após o outro, eles contam sobre como era o cotidiano da época e como foram felizes ali, talvez seja uma chatice minha exigir um outro ponto de vista, afinal em dias de festas todos querem esquecer dos problemas e apenas sorrir.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de áudio e vídeo