Eu tinha 7 anos de idade. O telefone tocou. O homem do outro lado da linha me deu uma missão: eu tinha que convencer meu pai a desistir da arbitragem. Ele disse que caso falhasse, meu pai um dia chegaria a nossa casa dentro de um caixão. Eu disse ao meu pai o que o estranho havia dito. Meu pai continuou a arbitrar.
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Não conhecia Porumboiu até o começo do ano quando alguns amigos me falaram sobre Quando a noite cai em Burapeste ou Metabolismo (filme que ainda não tive tempo de ver), mas experimentar The Second Game antes de qualquer outro filme do diretor talvez tenha sido uma escolha interessante. Documentário quase metalinguístico sobre uma partida de futebol que o pai do diretor arbitrou em meados dos anos 80, o filme, que é uma espécie de exercício narrativo subjetivo, a medida que a partida se sucede, nos apresenta pouco a pouco a relação pai e filho, qual se torna o fio condutor para compreender o porquê de Porumboiu deixar seu espectador 90 minutos vendo um jogo de futebol meio uma tempestade de gelo, que ainda termina num empate de 0x0.
A Copa do Mundo começa em menos de duas semanas, mas o Olhar de Cinema deu início às comemorações com a exibição de uma partida de futebol internacional em sua programação. Tá certo que é um jogo de 1987 entre Steaua e Dínamo, da Romênia, mas tá valendo
A mostra Outros Olhares seleciona para filmes que fogem do cinema padrão, buscando, principalmente, aqueles que desestruturem a linguagem e buscam diferentes formatos de concepção cinematográfica.
The Second Game, do romeno Corneliu Porumboiu, é um excelente exemplo desse tipo de cinema. O diretor, filho do ex-árbitro de futebol Adrian Porumboiu, comenta um clássico do futebol romeno: Steaua contra Dinamo. O jogo foi arbitrado por seu pai, que também comenta a partida neste exercício de documentário.
“Quem é que vai querer assistir um filme sobre um jogo de futebol de 25 anos atrás?”, pergunta o pai perto do final do primeiro tempo. “É como querer fazer um filme sobre um jogo do Messi daqui alguns anos. Ou sobre o Ronaldinho. Anos atrás era Ronaldinho para todo lado, hoje o povo não tem mais interesse. Ele quer saber do presente, pois o futebol é feito do presente”. O filho, em tom jocoso, também constata: “Parece um dos meus filmes: longo e nada acontece”.
Pois é, de fato pouca coisa acontece nos 90 minutos de partida (e de filme). O resultado (um empate em zero a zero) não é o mais importante nesta experiência. O interessante mesmo é ver os lances (sem a narrativa original) comentados informalmente por quem entende de futebol e esteve presente naquele clássico.
A primeira grande curiosidade (ao menos para nós, brasileiros) é a partida ser jogada debaixo de uma intensa neve. E com estádio lotado! Nos intitulamos como o “país do futebol”, mas queria ver se teríamos tamanho disposição para ver um jogo a -1 ou -2ºC. A neve, entretanto, traz curiosos benefícios. É possível ver quem domina o jogo ou por qual lado a maioria das jogadas está sendo conduzida através do rastro deixado pela bola e pelos jogadores na neve.
Entretanto, o filme deve funcionar melhor com os amantes do futebol (o que não é meu caso). Diversas situações são mostradas como corriqueiras e que mudaram no 1/4 de século entre a partida mostrada e os tempos de hoje. Entre algumas que eu lembro: o goleiro podia pegar com a mão uma bola recuada; a lei da vantagem era muito mais usada e não podia ser revertida; e os times podiam trocar a cor do uniforme no intervalo (o Dinamo começou jogando de branco, o que ficou confuso por conta da neve).
O filme funciona melhor como registro histórico. A partida foi filmada com três câmeras: a principal (que cobria a partida de cima), uma segunda no nível do campo e uma terceira, para captar a público. Durante o regime comunista socialista, não era permitido que atitudes antidesportivas fossem exibidas. Assim, quando alguma discussão em campo começava, a terceira câmera focava na arquibancada.
O jogo, porém, era mais bonito. Não tinha muito atacante cai-cai e os jogadores quase não trapaceavam. Em certo momento, quando a neve engrossa, o ex-árbitro comenta que se aquela neve tivesse caído duas horas antes teria sido impossível começar o jogo, mas que, naquele momento, era mais importante terminá-lo. Sinto o mesmo com o cinema: começou, tem que terminar. Mesmo que este seja sobre uma partida que fica no zero a zero.