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Data de lançamento
18 Set. 2019Duração
Na França do século XVIII, Marianne (Noémie Merlant) é uma jovem pintora que recebe a tarefa de pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para seu casamento sem que ela saiba. Passando seus dias observando Héloïse e as noites pintando, Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo conforme os últimos dias de liberdade dela antes do iminente casamento se veem prestes a acabar.
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Um clássico instantâneo.
-Achei que você tivesse ficado com medo.
-Você tinha razão. Estou com medo. Será que todos os amantes têm a impressão de estar inventando algo? Eu conheço os gestos. Imaginei tudo enquanto esperava por você.
-Você sonhou comigo?
-Não. Eu pensei em você.
Revendo um filme que provavelmente é meu favorito, junto com outro, que não vem ao caso.
Vejo que há infinitas coisas pra se falar aqui, mas dá pra se ater a duas, basicamente.
Uma delas é como o filme é sobre uma pessoa pintando a outra, sobre um quadro a ser pintado, e se torna um filme sobre quadros não pintados. Sobre histórias não contadas. Tudo que a gente vê nesse filme poderia ser um quadro, é feito como se fosse pra ser uma pintura. Há então vários momentos em que Marianne apenas vê Heloise. Depois de muito ver, ela nunca a pinta da maneira que a vê, é sempre algo mais contido, como a própria Heloise deixa claro ao dizer que o primeiro retrato não era próximo da realidade tampouco próximo de quem o realizou. Então tudo o que acontece ali pode ser contado, pintado, mas no final não é. Porque na verdade não se pode. E Heloise não é um sujeito passivo a isso, apesar de ser o "objeto" do retrato. Ela inclusive quer que o aborto que ela presenciou seja retratado, ela quer registrar e se lembrar daquilo, quer esta história sendo contada.
E o segundo ponto de destaque do filme, que é meio batido, é o olhar. Marianne o tempo todo tem que olhar para Heloise para pintá-la, tentando captar tudo o que existe nessa pessoa, decifrar a outra através da observação. Novamente, Heloise não é passiva a isso. Ela, inclusive, fala a Marianne: por que você acha que só você tá me olhando? Veja onde eu estou, nós estamos no mesmo local. Eu também estou olhando diretamente para você.
Posteriormente, é a própria Heloise que decide agir igual a Eurídice. Elas não possuem escolhas. Não é aquele último olhar que acabou com a história das duas, tampouco com a de Eurídice. Aquele olhar é apenas uma ausência de arrependimento, é a presença da lembrança, é a vulnerabilidade de se permitir ser visto, é o momento em que Marianne deixa escapar o fato de que é uma pintora justamente por estar vulnerável, é a primeira vez que Heloise escuta uma música que não é sacra, é a liberdade de se andar sozinha e entrar no mar pela primeira vez.
Conforme falei da primeira vez que assisti, eu discordo de Marianne: Heloise olhou para ela diante da orquestra, olhar para a música era olhar pra ela afinal.
Não existe nada igual a esse filme
Roteiro muito orgânico. A gente vê o amor florescer aos poucos. Tem uma beleza muito sutil. Os diálogos são bons.
E o meu amor pelo cinema francês só cresce!!! Como é bom ver filme bom! Um filme de arte, com uma fotografia impecável, atuações magníficas e um roteiro de tirar o fôlego. Simplesmente uma pérola. E das mais lindas.
Que sufoco! É um filme sufocantemente belo. O cuidado estético, os enquadramentos que mais parecem pinturas renascentistas, os takes, os detalhes, a fotografia, todos como parte da história dessas duas jovens entregues e apaixonadas e sufocadas por essa paixão, pelo o futuro que nunca virá, pelas convenções e por serem mulheres. Há tanto a dizer sobre esse tratado do olhar, do perceber, do toque, do sentir, de se conhecer. Belíssimo! Como respirar nos minutos finais?