2 minutos de godard gritam mais do que filmografias inteiras de muitos diretores por aí.
Um vídeo-ensaio melancólico desenvolvido a partir de uma única foto. A obra expõe sua visão crítica ao transformar close-ups de uma fotografia da Guerra da Bósnia (ocorrida entre 1992 e 1995) em símbolos que projetam a reflexão sobre a cultura européia. O filme é também uma lição sobre como ler uma imagem, de como decifrar a natureza não-inocente do enquadramento, ângulo e centro da fotografia.
2 minutos de godard gritam mais do que filmografias inteiras de muitos diretores por aí.
Vi tanta gente viver tão mal. Vi tanta gente morrer tão bem.
“De certa forma, o medo é a filha de Deus, redimida na noite de sexta-feira.
Ela não é linda, zombada, amaldiçoada e renegada por todos.
Mas não entenda mal, ela cuida de toda agonia mortal, ela intercede pela humanidade.
Pois há uma regra e uma exceção: cultura é a regra e arte a exceção.
Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra.
Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoyevski; é composta: Gershwin, Mozart; é pintada: Cézanne, Vermeer; é filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo.
A regra quer a morte da exceção.
Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce.
Quando é hora de fechar o livro, eu não terei arrependimentos.
Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem.”
"Cultura é a regra e a arte a exceção. (...) A regra quer a morte da exceção."
"Quando chegar a hora de fechar o livro, eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem."
Esse curta usa a materialidade da foto jornalística para evocar um efeito de "realismo" que ficou bem interessante. Pra quem quiser um contraponto, ou seja, um filme que tb use da materialidade da foto mas pra evocar um efeito de pura "ficção", recomendo o excelente LA JETÉE (1962).
Incrível! O discurso, a abrangência dele, a poesia, o objeto único e o tempo fazem desse curta algo fantástico.
Maravilhoso. Godard transforma uma única fotografia e um poema em cinema de uma forma excepcional. Os dois minutos desse curta são os meus dois minutos preferidos de Godard.
Nossa, impressionante como simples fotos e uma narrativa conseguem ser tão lindos! Esse curta é simplesmente lindo, a narrativa, a música, as imagens, tudo isso em apenas 2 minutos, e esses 2 minutos prendem muito!
Cultura é a regra, arte é a exceção, infelizmente é uma realidade!
Apesar de a trilha sonora ser excepcional e Godard abordar a guerra de uma maneira mais poética e tentar explicar a atitude guerrilheira da humanidade com simbolismos e uma narração inteligente, não consegui embarcar neste curta do modo como pretendia.
É possivel falar sobre cultura, nacionalismos, guerra da Bósnia, VIDA em geral em apenas 2 minutos e ainda obter sucesso?
Sim, "Je vous salue, Sarajevo" faz isso.
Eu dividiria essa obra-prima em três partes, ou três choques:
O primeiro choque já ocorre quando Godard faz uma comparação entre a paúra (italiano para "grande medo") e Cristo: os dois são filhos de Deus, os dois foram redimidos na Sexta-feira, não são bonitos de se ver, renegados por todos (tal qual foi Jesus em seu tempo), mas velam por nós, por cada agonia, e intercedem pelos homens. Uma dolorosa comparação entre os que foram oprimidos em Sarajevo e o homem mais famoso do mundo, que, teoricamente, é o líder da Europa (católica), uma Europa que esqueceu seus ensinamentos. Estamos renegando os Cristos de hoje.
O segundo choque (o mais doloroso e longo) é a separação entre cultura e arte, conceitos que, geralmente, estão ligados intrinsecamente um ao outro. Godard critica a banalização da cultura, que se tornou consumismo, que virou indústria (dos cigarros, do turismo e da guerra), e que "todos dizem", todos praticam em maior ou menor escala. A cultura é a regra (imposta e aceita) de vivência. A arte é a exceção (uma exceção que ninguém diz, por medo ou por comodismo), o grito dos que se revoltam, grito esse que não é gritado, mas pintado, filmado, composto em forma de música. E vivido, pelos Cristos marginalizados.
"A regra quer a morte da exceção". Isso pode ser traduzido de duas formas: a cultura quer a morte da arte, quer a planificação de tudo dentro dos moldes comerciais (moldes estes sempre tão criticados por Godard); ou, como dito mais tarde, a regra máxima da Europa Cultural (dita civilizada), a regra de organizar (organizar no sentido de promover) a morte da arte de viver (ou seja, promover tais massacres), a morte desses pequenos Cristos esquecidos (e, por que não pensar a morte de Cristo, a morte de qualquer compaixão?). Vale ressaltar a indignação de Godard com essa foto não só pelo objeto da foto, mas pela atitude do fotógrafo que, ao invés de tentar ajudar, colabora com a organização da morte da arte de viver.
O terceiro choque fica conosco por muito tempo depois de acabado o curta. Fica por auto-avaliação. Godard se exime de qualquer culpa, de qualquer arrependimento que possa ter ao fechar o livro da vida, o que pode soar prepotente, mas pode ser encarado, também, como provocação à reflexão. Será que vivemos mal? Morreremos bem? Fazemos parte da regra ou da exceção? Se parte da exceção, estamos em contemplação como fizeram os grandes expoentes europeus em face das barbaridades da guerra?
Vi e revi "Je Vous Salue, Sarajevo" umas 20 vezes nesses últimos dias e o interessante é que se dá pra ler de diversas formas. Tentei aqui mostrar todas que eu pude contemplar, mas, certamente, há uma infinidade a mais. Poucas vezes vi tanta dor e tanto significado em tão pouco tempo. Impressionante como Godard é capaz de, com uma foto, uma música, um texto e dois minutos, nos fazer pensar por dias. Inspirador, atordoante e trágico, sem dúvida uma obra-prima.
dois minutos sem palavras [minhas], sem ação, dois minutos de completo atordoamento...
Foi o filme do Godard que mais gostei. Esse curtinha. Tem um texto excelente.
Godard mais direto, como todo seu fraco cinema recente. Aqui funciona.
Estranhamente alguns cineastas conseguem nos trasmitir uma mensagem tão forte usando somente de imagens congeladas, poucos minutos, mas com muito conteúdo politíco, artístico e ainda contém o charme e o encanto da narração em francês, que é a língua poética, foneticamente falando.
"A cultura é a regra; e a arte, a sua exceção"
Muito breve, mas Godard não somente transmite o seu recado como aponta-nos para a transição estilística desta fase mais recente de sua obra, em que um apelo estranhamente religioso é acrescentado aos seus valores políticos ainda firmes... Genial, portanto!
Espero eu também não ter pesar ao terminar a última página do livro...
(WPC>)