Você pode até não gostar de novela, mas dizer que os populares dramas globais são mal-feitos é um pouquinho demais. Acompanho alguns seriados americanos e sou viciada em mini-séries de época britânicas, e posso dizer que os nossos equivalentes raramente deixam algo a dever em termos de produção – geralmente é ao contrário.
Quando se fala de inovação da trama e qualidade do enredo, porém, novelas freqüentemente pecam – o que não é difícil, considerando que elas vão ao ar seis vezes por semana durante meses. Pelo risco de ver mais do mesmo, não me incomodo em acompanhar uma há alguns anos, mas os elogios freqüentes a produções nacionais mais curtas despertaram minha curiosidade.
Resolvi começar por Sessão de terapia: franquia israelense de sucesso no mundo todo, veio ao Brasil com as devidas adaptações culturais e direção de Selton Mello, seguindo Theo, um terapeuta, na sua semana carregada de dores alheias.
Rainer Maria Rilke dizia que o jovem poeta que não consegue encontrar poesia em seu cotidiano deve culpar a si, e não à rotina. Essa premissa é bastante seguida em Sessão de terapia: embora alguns dos pacientes possuam problemas que não se encontra em qualquer esquina, a maioria sofre de males pouco extraordinários, que encantam exatamente por sua falta de ineditismo.
As segundas-feiras, Theo atende Júlia, uma médica bonita e com várias questões em seu relacionamento – casar ou não casar com seu namorado de longa data, eis a questão? Por isso ela acaba desenvolvendo um caso do que Theo se refere como “transferência” – é óbvia desde os primeiros minutos de sua consulta a sua atração por seu terapeuta.
Na terça, conhecemos Breno, um atirador de elite talentoso e arrogante que, ao assassinar um traficante, atinge por acaso uma criança. O que já seria problemático por si só revela muito para Breno sobre seu próprio caráter – dúvidas sobre sua sexualidade e a falta de autonomia sobre suas próprias decisões vem à tona rapidamente logo na primeira sessão. Breno é o personagem mais detestável – ninguém gosta de um dono da verdade – mas me pareceu o mais complexo e, até agora, o meu favorito.
Quarta-feira é o dia de Nina, uma ginasta de quinze anos que sofreu um acidente de bicicleta e agora necessita de um laudo para atestar sua sanidade mental – a companhia de seguro do carro que a atropelou está convencida de que a menina tem tendências suicidas, não querendo assim pagar a indenização que custearia seu tratamento – algo essencial para sua rápida convalesça e sua volta à ginástica. Nina apresenta uma postura birrenta e infantil, decidida a somente pegar o laudo e nunca mais voltar à terapia, escudo que vai se esvaindo a medida que seus problemas familiares vão se revelando.
Quinta-feira é o dia de uma terapia de casal: Ana, uma gerente publicitária bem sucedida, e João, um ator desempregado. Depois do primeiro filho, foram cinco anos exaustivos e mal-sucedidos de tratamento de fertilidade, abandonado por conselho médico. Um ano depois, quando Ana está terminando de se recuperar de não ter conseguido, o filho vem – mas não é mais tão desejado assim. Para Ana, abortar é óbvio, para João, não só um crime, como um assassinato.
E finalmente na sexta temos a terapia do próprio terapeuta, com sua conhecida de longa data Dora. O que parecia no princípio uma conversa civilizada vai revelando aos poucos um rancor por muito tempo destilado, só superado pela necessidade crescente de Theo de ajuda – lidar com seus pacientes (quase sempre esquivos ou hostis – é difícil revelar-se a outrem, mesmo que essa pessoa seja um profissional contratado e preparado para lhe ajudar) fica cada vez mais difícil.
Em Sessão de terapia, vemos que até mesmo os problemas mais complexos têm raízes simples, e a magia na série vem desse elemento cotidiano muitas vezes ausente na ficção. Cada episódio é uma aula de como estruturar um bom dialogo, com elementos que dão uma profundidade e aproximam os personagens do espectador de tal maneira que é difícil convencer-se de que eles não são reais.
Praticamente não existem cenas externas ao consultório de Theo, mas é difícil ficar entediado.
Publicada originalmente em distopicamente.blogspot.com