Um homem de 42 anos, afastado da família e da sociedade, procura uma psiquiatra para começar um tratamento. Mas durante a sessão, sua saúde mental abalada começa a distorcer a realidade e gera conflitos entre os dois personagens criados na mente dele.
ALÉM DE PABLO (2023) – CRÍTICA
Fui assistir ao filme sem ter lido nada, nem entrevistas, nem a sinopse. Sabia do tema: saúde mental, mas apenas isso. Logo, minhas impressões foram baseadas apenas nas imagens em movimento na tela.
Os primeiros minutos do Curta-metragem decupam o espaço em diversos planos detalhes. Fragmentam nosso olhar para mostrar o cuidado do personagem principal Pablo, interpretado por Ged Castro, com o apartamento e com objetos que caracterizam sua personalidade. Tudo excessivamente limpo, organizado, nem uma garrafa fora do lugar. Esse excesso de zelo, talvez aponte para o quanto o personagem está desorganizado internamente. Não conseguindo resolver os problemas internos, busca manter o ambiente em ordem, uma forma de escape para suas angústias.
Essa desordem mental é percebida, quando ele encontra a mulher com o filho no elevador. Tudo parece um sonho e confuso mentalmente. Tudo fica ainda mais suspeito, quando o vemos com as castanholas e quando ele fala do morador que precisa ir embora. É interessante todo esse jogo, essa dúvida, esse chamamento que o cineasta Ebner Gonçalves faz ao espectador. Ele o confunde, mas o esclarece, aqui talvez pudesse deixar dúbio, não explicar, instigar um pouco mais a dúvida, mas o objetivo da obra não é esse.
Pablo é um filme para expor e mostrar um problema: a necessidade de cuidado com a saúde mental, sacrifica assim algumas questões narrativas e estilísticas, esclarece outras para não restar nenhuma dúvida. Como uma obra que pretende ser educativa, não busca instigar dúvidas entre os espectadores. Isso explica os longos diálogos explicativos e como o suspense vai desaparecendo a medida que o filme vai encerrando. A impressão é um retorno a ordem. O ambiente organizado, harmônico do apartamento acaba tomando o espírito do personagem. A mudança de roupa, ele nunca tirava o roupão, também representa uma mudança de tom.
O filme não deixa dúvidas sobre qual personalidade era a correta, nem qual deveria ficar. Isso não nos impede de ficar com um certo desconforto, nem imaginar se a solução dada e a roupa usada, era realmente a correta. Talvez a personalidade qual ele tenta expurgar, não devesse ser expurgada.
Um elemento predominante no filme é a música, como sempre introduz ou fecha alguma sequência, isso antecipa nossos sentimentos em relação às cenas. É interessante para evocar suspense, mas perde um pouco da expectativa em alguns momentos. O espectador assiste à cena com um sentimento embalado pela trilha. Isso cansa um pouco.
A obra tem caras conhecidas do cenário cultural joinvilense, como o ator Robson Rodrigues, a artista plástica Nicole Leite e a apresentadora, Fabíola Bernardes. É interessante, como os cineastas da cidade tem certas preferências pelos mesmos atores, como eles sempre encaixam determinados rostos em algum personagem coadjuvante ou principal de seus filmes. Como se as obras sempre tivessem pensando neles. Assistir a um filme feito em Joinville e não ter um rosto conhecido de outros filmes, às vezes, surpreende. Trabalhar com os mesmos ajuda qualificar o trabalho, poupa tempo, mas impede de novos quadros de se formarem, cai em uma rotina. Escolhas de um filme são sempre políticas, isso vai desde a concepção do roteiro, a escolha dos atores até a produção do filme.
Ao fim, o filme tem assim um grande potencial educativo. Deve ser assistido nos cursos de psicologia e utilizado nas discussões sobre saúde mental. É uma obra com um cuidado meticuloso na arte e em tentar esclarecer nossa sociedade sobre um problema que assola diversas pessoas.
João Diego Leite é Jornalista, Crítico de Cinema e Produtor de Áudio e Vídeo