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Em 1997 o diretor argentino Fernando Birri (1925-2017) retorna ao seu país para rodar um documentário sobre o 30o aniversário da morte de Ernesto Che Guevara e a importância das utopias naquele tempo. Iniciava-se uma aventura cinematográfica que levou o diretor desde La Higuera até Montevideo, passando por Buenos Aires, em um diálogo com artistas e pensadores contemporâneos latino-americanos. Carmen Guarini decidiu registrar esses momentos. Esse material bruto cou escondido por 20 anos em uma frágil fita VHS. O resgate daquelas imagens e novos encontros com Birri lançam luz sobre a importância desse poeta e mestre do cinema latino-americano, autor de clássicos como “Tire Dié” (1960) e “Los Inundados” (1961).
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Ao passo que vemos homens falando entre si sobre utopias, sonhos, desesperanças, as mulheres apenas são ouvidas a respeito de Fernando Birri.
Tudo isso tendo como cenário ora uma mulher limpando o chão, ora um aquário com formato de um corpo de mulher nua (não me lembro se com cabeça)... Também vemos na tela um homem mostrando uma imagem (erótica? pornográfica?) de buceta para outro homem.
É "como se" a utopia para Fernando Birri fosse o sonho de uma igualdade entre homens, com as mulheres (mais novas) o idolatrando e nunca perguntadas a respeito de algo que não seja ele, sua procissão fúnebre, seu legado, seu antigo quarto (que se tornou templo-museu-santuário).
Aliás, uma análise semiótica do próprio cartaz do doc corrobora essa leitura. Ele, mirando ao longe, por meio de um binóculo colorido e infantil e sendo olhado e admirado por três mulheres mal enquadradas.
"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens." [Marilyn Frye]
Não à toa, todos os nomes do cinema citados por ele foram de homens. Como se não existissem mulheres cineastas desde a época de Georges Méliès, que ele menciona. São a esses homens que ele quer ser equiparado em vida e em morte: Méliès, Chaplin, Godard; nunca a uma Alice Guy-Blaché, uma Mary Pickford ou uma Agnès Varda.
Esperava mais vindo de um longa dirigido por mulher.
E que deixemos morrer essa utopia arcaica de homem branco hétero e cis!!! Que outras utopias sejam ouvidas e levadas adiante!