Duração
Em Dover – Pensilvânia – vive-se uma das últimas batalhas sobre o ensino da evolução nas escolas públicas. Em 2004, uma escola local ordenou aos seus professores de biologia para lerem uma polêmica declaração aos seus estudantes. Esta sugeria que existe uma alternativa totalmente válida à conhecida Teoria da Evolução de Darwin: a Concepção Inteligente. Esta idéia consistia no fato de que a vida, tal como a conhecemos, é demasiado complexa para ser o produto de uma evolução natural e, portanto, deve ter sido concebida por uma agente inteligente.
Os professores recusaram-se a obedecer e os pais opuseram-se a esta teoria perante a corte federal. De fato, acusaram a assembléia escolar de violar a separação constitucional entre a Igreja e o Estado. O canal Odisseia apresenta a investigação deste caso peculiar, com entrevistas aos interessados de ambas as correntes. Além disso, confrontaremos as ideias e as concepções de Darwin com esta nova teoria, para compreender o que é realmente a evolução e se a Concepção Inteligente é uma alternativa científicamente válida.
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Seu único mérito é tratar a questão a que se propõe de maneira mais refinada, flexível e tolerante do que os fundamentalistas que vemos por aí. Demonstra alguma competência nisso, há que se reconhecer - mas isso não implica inteiramente em honestidade intelectual ou, pelo menos, em um bom documentário. Aliás, adiante estão críticas que ele pode receber de ambos os lados - criacionistas/adeptos do design inteligente e evolucionistas.
Senão vejamos: o apresentador que nos guia é um teólogo cristão que, desde o início, afirma a pertinência científica e concreta do evolucionismo em nosso mundo. É, portanto, um estudioso com informação científica natural, a qual parece defender, de fato, com alguma noção. Contudo, ao longo do documentário tudo o que faz é conduzir sistematicamente um viés confirmatório, em que não se põe à prova por um interlocutor competente. Outras fontes não são apresentadas (o que pode ser comum em documentários televisivos, mas não deveria ser num da excelente BBC e menos ainda de um documentário que pretende responder à pergunta-título)... enfim, nenhum contraponto mais sério surge por força de seu próprio esforço "investigativo" - e somente espectadores já inclinados à sua visão podem, de fato, sentirem algum contentamento com o que traz.
No fim das contas, se posiciona como um simulacro de agnosticismo complacente que, não obstante seja preferível à imposição teocrática, abriga sempre a possibilidade de uma afirmação intransigente e conveniente. Isso se dá uma vez que habilita todos os rituais e pressupostos da liturgia ao mesmo tempo em que, apologeticamente, se conforma com o metaforismo, o deus do panteísmo e a renúncia ao embate, não tomando posições. Nesse sentido, é decepcionante. Infelizmente, pois o tema (e acredito que até mesmo a perspectiva dele) poderiam se dar de maneira mais rica do que se deu.
Não seria preciso defender de maneira sutil mas inequivoca uma visão tão fantasiosa do passado cristão, do "cristianismo original" em que a ortodoxia teria se fundamentado. O que ele defende incorre, naturalmente, em uma ingenuidade acachapante, em que todos os erros das igrejas cristãs se deram por erros honestos ou, no mínimo, por falta da "devida apropriação dos verdadeiros sentidos das Escrituras"... e enquanto tenta apartar o criacionismo da religião por ser presumivelmente um reducionismo injusto, acaba tratando o lado ateísta como derivado do "ultradarwinismo" e da hipótese do gene egoísta - quando há inúmeras outras formas de se chegar à contestação de viés cético, quase todas anteriores a essas!
Francamente, incorrer nesse erro é um tanto imperdoável mesmo para uma proposta tão bem intencionada!
Completo e legendado em "trailer e videos" acima.