Tobias Horvath levanta às 5 da manhã, toma banho, faz a barba, se arruma, come e pega um ônibus para o trabalho, onde está a dez anos. Essa seqüência de acontecimentos parece lembra-lo, diariamente, do horror de sua existência. Apesar de não ter nenhuma expectativa de mudança, Tobias acalenta um grande desejo: reencontrar Line, sua meia-irmã que fora deixada para trás quando sua família migrou de seu país no Leste Europeu. O drama do imigrante serve de pano de fundo para discussão de temas delicados como as imigrações européias na era pós-socialista e a eterna busca da felicidade.
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Eu te amei como um irmão num mundo em que o incesto não seria pecado (Lou Andreas Salomé - Minha vida - no capítulo sobre Rilke)
Filme estranhíssimo que, a primeira vista, acaba não se sabendo em que país se passa a estória e nem para qual país o personagem Tobias emigra. Depois de pesquisar sobre o filme e os movimentos migratórios após a queda do comunismo na Europa Central soube que ele sai da Rep. Tcheca e vai para a Suíça. Um filme literalmente "gelado" tanto no aspecto paisagístico quanto no humano.
Queimando ao Vento (2002) fala da difícil vida de um ex-patriado, o calado Tobias fugiu do leste europeu por ter supostamente matado o pai, sempre perseguido pela lembrança da colega de escola e eterno amor "Line", pois ele somente carrega de bom consigo desse tempo que tenta esquecer a memória da mulher que ama, quando ele a reencontra na fábrica em que trabalha na Suíça, ele decide ficar com ela para sempre. Sílvio Sondini fez uma obra mais sobre a vida de uma pessoa que tem que abandonar a terra natal do que um romance, com seus diálogos cortantes, flashbacks explicando pontos chaves, tempo emocional da narrativa e belo uso da música, o filme tem na brilhante interpretação de Ivan Franek, um de seus pontos altos. Uma de suas grandes reflexões é seu eterno recomeço, fugir para uma nova terra (com sua língua, costumes e povo diferente) sempre com esperança, deixar o passado sem perspectiva mais representa uma valorização a si próprio do que não encarar a realidade.
"Estamos no topo de uma montanha, abandonados, gelados, abraçados um ao outro. Sem lágrimas, lamentos, palavras. Um só tremor, e caímos. Estamos unidos por laços de sangue e de carne agarrados firmemente. Nossos labios roxos e trêmulos. Contanto que você me beije, amor... não temos palavras. Mas se falar comigo...nós caímos"
É um filme que retrata como carregamos acontecimentos da infância de forma subjetiva e hermética, no caso de Tobias também obsessiva; provavelmente por ser a única maneira de encontrar paz e sentido em um cotidiano tão apático. Não acho que incesto seja sequer o tema, mas um detalhe sórdido de todo esse passado, desse amor.
Enfim, é de uma delicadeza, de uma fotografia, de uma trilha sonora...
Fotografia!