Kenza é uma menina de 11 anos dividida entre a espiritualidade do avô e o pragmatismo do pai. Tentando encontrar seu caminho e seu lugar no mundo, ela vive em constante conflito com passado e presente. Até que passa perceber sinais que podem ser da presença do espírito de sua falecida mãe.
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Há uns três anos decidi reduzir drasticamente o número de produções estadunidenses que assisto, dando lugar a longas-metragens de várias partes do mundo.
Em Buladó, caí de paraquedas depois de ver uma lista não convencional que associava seleções de futebol a filmes. Como se trata de um lugar com pouca tradição cinematográfica, confesso que estava preparado para encontrar limitações técnicas ou atuações medianas, mas em poucos minutos, o filme me mostrou o quanto eu estava errado.
Temos aqui uma produção excelente, muito bem-feita, atenta aos detalhes e que harmoniza perfeitamente seus elementos visuais e sonoros. Kenza e seu avô são estupendos, "falam" com olhares e têm uma facilidade impressionante de transmitir sentimentos.
É um roteiro forte, que fala de tradição, cultura e ancestralidade. Uma verdadeira resistência à dominação e ao apagamento cultural que muitos países sofrem nas mãos de outros.
Há alguns furos e ou momentos para revirar os olhos, mas, se desconsiderarmos, será um belo passeio.
Obrigado, Curaçao.
Talvez um bom paralelo pra a leitura desse filme sejam os livros Encantamento: sobre política de vida, do Luiz Antonio Simas e Pele negra, máscaras brancas, do Franz Fanon (especialmente em relação ao pai). Ao longo do filme me peguei muitas vezes pensando nessas leituras.
O que perderam as pessoas de cor ao longo dos processos de colonização ao redor do mundo e o que se passa a ser produzido a seguir? O que reverbera como desejo e como lidam com essas formas de viver nesse panorama colonizado e depois neoliberal?
Muitas cenas salientam essas discussões. A língua que precisa ser desaprendida. As crenças e cosmovisão que precisam ser deixadas. Mas elas me vieram especialmente nos encontros de Weljo e Kenza.
Uma delas a que eles vão a um museu e ele pergunta por que teria que pagar pra acessar a cultura dele.
Acho que o filme se perde um pouco em questão de roteiro (ou minha forma de assistir e analisar ainda está muito condicionada por ideais colonizados?). A condução de algumas questões que se mantém ocultas até certo momento quando poderiam talvez dar uma crescente ao clima do filme e mais intensidade ao final.
Mas no geral pra mim é como se ao longo do filme estivessem acontecendo pequenas insurreições, pequenos desvios nessa tentativa de normalizar a vida. E isso é provavelmente o melhor do filme.
Filme mediano, não vi motivos para ser indicado, como não foi, ao Oscar de filme internacional.
Que poeticidade! O filme começa tão bem, mas, na minha opinião, acho que a força acaba se perdendo ao longo da narrativa. Acho interessante o final, porém, toda a potência parece que ficou muito no abstrato. Amei essa atriz! O olhar de Tiara Richards diz tudo! Ótima escolha da Holanda para o Oscar 2021.