Sherlock Holmes, Miss Marple, Hercule Poirot, Lord Peter Wimsey… a literatura inglesa sempre adorou crimes e, claro, pessoas geniais capazes de resolvê-los com uma sagacidade que surpreende a todos. Esse tipo de história na literatura e no cinema recebe o nome de “whodunnit”, contração de “who [has] done it” ou “quem foi que fez”, definindo o gênero de história que envolve uma intriga complexa onde o leitor acompanha a investigação, encontrando pistas que lhe dão a chance de chegar ao culpado junto com o protagonista, até que a identidade do criminoso seja revelada no clímax.
Esse gênero foi muito popular dos anos 50 aos 90. No começo de 2000 o estilo foi reciclado em uma nova fórmula onde o detetive brilhante se vale também da tecnologia e de métodos muitas vezes questionáveis para resolver o problema. Nessa linha temos todas as séries C.S.I., Dr. House, Numb3rs, The Mentalist, Bones… a lista é longa e coloca a marca de nossa época atual no estilo. Mas e a Idade Média?
Muitos avançarão imediatamente “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, e estarão certos. Trata-se de um grande livro que se tornou um ótimo filme. Mas trata-se de uma obra isolada e um romance histórico e o protagonista Guilherme de Baskerville, uma piscadela que Eco fez a Guilherme de Ockham, aparece, se desenvolve e permanece nessa obra, sem desenvolver a longa lista de feitos de um Sherlock Holmes. Parece na verdade que o whodunnit não poderia jamais ser situado na Idade Média, período por muito tempo colocado sob a insígnia da ignorância e o zelo da inquisição que, como bem sabemos, tinha o hábito de solucionar mistérios torturando alguém até a confissão.
Felizmente, com a recuperação de partes da cultura medieval pelos historiadores, uma brecha se abriu nesse muro e, entre 1977 e 1994 Edith Parteger, uma inglesa, publicou sob o pseudônimo de Ellis Peters uma série de romances de mistério tendo como personagem principal Cadfael, um monge beneditino de 40 anos que resolveu se ordenar após uma vida lutando como cavaleiro na Terra Santa.
Entre 1994 e 1998, o canal de teve britânico ITV filmou os romances e com eles fez uma série de três temporadas, dando maior projeção ao detetive medieval. Felizmente para nós, a série foi colocada online e possui legendas em diversas línguas, dentre as quais o português.
Assistindo a “Cadfael”, a primeira coisa que percebemos é que não se trata de uma filmagem feita para atrair o grande público. Expectadores mais jovens vão achar as histórias um tanto lentas, e não sem razão. “Cadfael” não tem como objetivo deixar o expectador pulando na cadeira: é uma intriga rica em elementos históricos que vai mais na direção do processo intelectual que emocional. Mas sua verdadeira beleza não está no mistério, e sim em tudo o que o circunda.
Relacionamento, religião, supertição, vestígios das tradições pré-cristãs, política, leis, roupas, comida, armas… tudo aparece com uma fidelidade histórica que mostra o quanto Edith Parteger havia pesquisado para expor seu leitor a uma quantidade de informações digna dos melhores documentários sem se demorar na teoria. Além disso, tudo se acomoda ao roteiro com naturalidade, nos dando a sensação de estarmos realmente olhando uma janela do tempo.
“Cadfael” acaba sendo uma ótima opção tanto para quem quer aprender sobre a Idade Média quanto para aqueles que a estudaram a vida toda (minha professora de occitano não somente acompanhou a série como era uma verdadeira fã). Cena após cena, o amador encontra uma infinidade de elementos a pesquisar mais tarde, ou dicas para suas reproduções. O acadêmico, quanto a ele, se deleita em ver tomar vida diante de seus olhos detalhes encontrados em manuscritos como pistas deixadas por um mundo que até então vivera apenas em sua imaginação."
10/08/21
"Cadfael, uma série que merece ser vista.
Sherlock Holmes, Miss Marple, Hercule Poirot, Lord Peter Wimsey… a literatura inglesa sempre adorou crimes e, claro, pessoas geniais capazes de resolvê-los com uma sagacidade que surpreende a todos. Esse tipo de história na literatura e no cinema recebe o nome de “whodunnit”, contração de “who [has] done it” ou “quem foi que fez”, definindo o gênero de história que envolve uma intriga complexa onde o leitor acompanha a investigação, encontrando pistas que lhe dão a chance de chegar ao culpado junto com o protagonista, até que a identidade do criminoso seja revelada no clímax.
Esse gênero foi muito popular dos anos 50 aos 90. No começo de 2000 o estilo foi reciclado em uma nova fórmula onde o detetive brilhante se vale também da tecnologia e de métodos muitas vezes questionáveis para resolver o problema. Nessa linha temos todas as séries C.S.I., Dr. House, Numb3rs, The Mentalist, Bones… a lista é longa e coloca a marca de nossa época atual no estilo. Mas e a Idade Média?
Muitos avançarão imediatamente “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, e estarão certos. Trata-se de um grande livro que se tornou um ótimo filme. Mas trata-se de uma obra isolada e um romance histórico e o protagonista Guilherme de Baskerville, uma piscadela que Eco fez a Guilherme de Ockham, aparece, se desenvolve e permanece nessa obra, sem desenvolver a longa lista de feitos de um Sherlock Holmes. Parece na verdade que o whodunnit não poderia jamais ser situado na Idade Média, período por muito tempo colocado sob a insígnia da ignorância e o zelo da inquisição que, como bem sabemos, tinha o hábito de solucionar mistérios torturando alguém até a confissão.
Felizmente, com a recuperação de partes da cultura medieval pelos historiadores, uma brecha se abriu nesse muro e, entre 1977 e 1994 Edith Parteger, uma inglesa, publicou sob o pseudônimo de Ellis Peters uma série de romances de mistério tendo como personagem principal Cadfael, um monge beneditino de 40 anos que resolveu se ordenar após uma vida lutando como cavaleiro na Terra Santa.
Entre 1994 e 1998, o canal de teve britânico ITV filmou os romances e com eles fez uma série de três temporadas, dando maior projeção ao detetive medieval. Felizmente para nós, a série foi colocada online e possui legendas em diversas línguas, dentre as quais o português.
Assistindo a “Cadfael”, a primeira coisa que percebemos é que não se trata de uma filmagem feita para atrair o grande público. Expectadores mais jovens vão achar as histórias um tanto lentas, e não sem razão. “Cadfael” não tem como objetivo deixar o expectador pulando na cadeira: é uma intriga rica em elementos históricos que vai mais na direção do processo intelectual que emocional. Mas sua verdadeira beleza não está no mistério, e sim em tudo o que o circunda.
Relacionamento, religião, supertição, vestígios das tradições pré-cristãs, política, leis, roupas, comida, armas… tudo aparece com uma fidelidade histórica que mostra o quanto Edith Parteger havia pesquisado para expor seu leitor a uma quantidade de informações digna dos melhores documentários sem se demorar na teoria. Além disso, tudo se acomoda ao roteiro com naturalidade, nos dando a sensação de estarmos realmente olhando uma janela do tempo.
“Cadfael” acaba sendo uma ótima opção tanto para quem quer aprender sobre a Idade Média quanto para aqueles que a estudaram a vida toda (minha professora de occitano não somente acompanhou a série como era uma verdadeira fã). Cena após cena, o amador encontra uma infinidade de elementos a pesquisar mais tarde, ou dicas para suas reproduções. O acadêmico, quanto a ele, se deleita em ver tomar vida diante de seus olhos detalhes encontrados em manuscritos como pistas deixadas por um mundo que até então vivera apenas em sua imaginação."
Fonte: Imperiusmedievalis