Um menino de rua de Amsterdam, chamado Ciske, é um patife com um coração de ouro. Quando um garoto doente se junta à sua sala de aula, Ciske é uma das únicas crianças a fazer amizade com ele. Acima de tudo, é um jovem que arde de raiva das injustiças da vida.
Sempre estranhei o cinema brasileiro da década de oitenta pelo espectro que os rondava. A grande maioria deles (que fique entendido por grande maioria e não totalidade) tinham ar de montagem teatral em película. Percebi então que por trás da artificialidade das atuações, do exagero gestual, da trilha sonora amadora e mal editada, existia a tentativa por parte dos diretores/produtores em serem autorais. A palavra de ordem era se rebelar diante da fórmula narrativa hollywoodiana. Espelhamento da necessidade Glauber Rocha de construir uma filosofia cinematográfica nacional assemelhada ao modelo euroupeu da nouvelle vague francesa onde tinham Goddard e Resnais um de seus mais xiitas panfletários. Pra que isso ? Acredito ser besteira esse pensamento. Podemos ser autorais e permanecermos atrativos ao público. Por que abdicar de uma qualidade essencial para manutenção da própria arte, ou seja, se manter com recursos advindos de suas realizações sejam elas comerciais ou não ? Quando assisti O Rato, ocorreu, quase que de forma instantânea, o mesmo pensamento, embora seja notória a existência do valor comercial do filme europeu. Também não digo que as motivações que ocorreram em nosso cinema pátrio tenha sido o mesmo que o deles, mas o 'deja vu' foi inevitável. O filme holandês consegue ainda se apresentar melhor em relação as nossas produções de mesma época no que tange a fotografia, direção de arte. O que é compreensível uma vez tratar-se de um país com uma mentalidade cultural mais amadurecida que a nossa. O que estranhei foi a fórmula decadente de ação narrativa optada para se fazer o filme, tornando-o sem brilho e não cinematográfico. Um trabalho que pareceu não ser dos mais profissionais. Alguns dos pontos que chegaram a ficar no limite do mal gosto foram as interpretações (direção de elenco), trilha sonora e a edição. Tanto a brasileira quanto a holandesa beberam da mesma fonte do mal gosto que quase chega a representação do tosco. as duas orientações de estilo, parecem ser tão amadoras e desleixadas quanto é possível. Especificamente em relação ao filme O Rato, não se tem um cuidado em se criar uma linguagem para o meio fílmico e a câmera apenas registra a encenação de um palco de especialistas em pantomimas. Os diálogos são,por vezes débeis, outras horas inócuos e por muitas vezes sem relevância. Um filme de interesse adulto com linguagem de intelecto infantil. A química entre os atores é algo inexistente, embora os que fazem o pai e mãe de Ciske são ótimos profissionais, porém insuficientes para resolver a morosidade e as infinitas repetições de circunstâncias que vão levando ao clímax .As cenas são bruscamente interrompidas, não há suavidade nas sequencias que aparentam truncarem regularmente. Beleza plástica perto da nulidade.Todos os elementos juntos não elevam a produção. Seu potencial é reduzido, a experiência em se assistir fica comprometida pela falta de credibilidade de seu formato. O Rato transforma esse melodrama num exemplo curioso sobre a delinquência infantil dentro da perspectiva de um país estrangeiro, mas que nos subestima com uma ingenuidade de 'Pollyanna'. O filme pode ser saudosista para muitos e assistível para a maioria, assim como foi a telenovela mexicana Carrossel, mas está muito longe de ser um expoente do cinema da Holanda.