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O filme retrata a relação entre a cineasta e seu pai, um engenheiro que teve seu momento de glória durante a ditadura civil-militar brasileira. Projeções, mapas e fotos são usados como primeiras pontes para se chegar ao passado. Mas é o inevitável presente que golpeia Álvaro e Heloisa quando, diante da conturbada situação política do Brasil de hoje, cada um se coloca em um ponto oposto.
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Achei um filme interessante e necessário para os dias de hoje. No entanto, um pouco (se não muito) egoísta. Me parece que Heloísa não entende que seu pai é um mundo diferente do seu, e que quando ela revisita a ditadura não está apenas falando da história recente do país, mas do auge da vida de Álvaro. Do momento em que ele mais tinha autonomia e se sentia útil em sua vida. Ela faz um filme sobre o pai mas que fala muito mais de si.
Achei a narrativa bem legal, apesar de ficar a sensação da manipulação das ações, em alguns pontos até mostrada pela própria diretora. Mas acho que é algo além disso.
No final eu simpatizei mais com o Álvaro direitista/lavajatista do que com a Heloísa esquerdista, essa estando no meu espectro político.
Meus respeitos ao Sr. Álvaro Passos, um grande brasileiro, imagine ter que aguentar essa filha, ô mulherzinha irritante.
Documentário muito bom!
Um belo exercício sobre a tolerância.
É complicado viver em um país que passa por um golpe. Dizem que um país nessas condições é um país mais triste, e é verdade. Vimos isso em vários exemplos ao longo do século 21, mas agora quem vive, somos nós. Nesses tempos, muitas opiniões são proferidas, gritos como o "Fora Temer" tornam-se hinos berrados aos quatro cantos e pessoas, que nunca antes tiveram a obrigação de rememorar seu próprio lugar no mundo, passam a olhar para a própria história e analisar como pudemos chegar até aqui, nesse caos. É esse tipo de sentimento que motivou Heloísa Passos a fazer o seu primeiro longa-metragem Construindo Pontes, um documentário pessoal que mostra a sua relação com o seu próprio pai, por meio de obras que ele, um engenheiro, ajudou a construir. Como o ponto de partida e chegada: a usina de Itaipú.
Heloísa cresceu em um ambiente atípicamente privilegiado. Em uma população que sempre foi um verdadeiro poço de desigualdade social, a criança Heloísa teve em seu desenvolvimento milhares de brinquedos, câmeras de vídeo e viagens ao redor do mundo. Tudo isso enquanto seu país passava por uma ditadura militar, onde pessoas lutavam e morriam nas ruas. Só que, o que poderia gerar uma alienação, teve o efeito contrário, talvez até pelo caminho que a cineasta resolveu seguir. Mas, aqui, não há o menor espaço sequer para lamentações: a cineasta reconhece seu lugar de privilegiada e não tem muito interesse em centrar seu filme em sua própria história de vida. É seu pai a figura que lhe fascina, ao mesmo tempo em que causa uma total repulsa. E é nessa profusão de sentimentos que Heloísa encontra seu filme, naquele homem, que um dia já teve tudo, mas perdeu, muito provavelmente, graças à queda de um governo que ele insiste em defender, inclusive chamando várias vezes o período militar da velha alcunha que os próprios militares costumavam falar, "revolução".
As filmagens são mais do que interessantes para qualquer pessoa que gosta de compreender o ser humano, e as complexidades que implicam em ser humano. O pai da diretora é uma figura claramente alienada, ou vítima de ter sido um homem bem sucedido em uma época terrível, e, com isso, não ter muita noção do que de fato acontecia ao seu redor. Vemos muitos como ele por aí. A filha, no entanto, resolve documentar essa figura, tudo sobre ela, inclusive as discussões gigantescas entre elas. E ela não abaixa a bola em momento algum, bate de frente, aponta seus argumentos, mas, como qualquer pessoa que conversa, nos tempos atuais, com uma outra que defende a ditadura, acaba perdendo a paciência. No início do processo, ela até desliga a câmera. Nas discussões seguintes, com o filme mais bem desenhado, deixa rodar. E assim, monta seu filme em volta de uma figura completamente controversa, mas que tem uma história de vida a qual podemos muito bem entender aquela máxima de como chegamos nesse lugar onde chegamos.
Não deixa de ser um filme de enorme coragem. Passos não apenas se expõe, como expõe o próprio pai, a uma plateia que, em sua grande parcela, simplesmente despreza os absurdos que ele fala (o público de festivais de cinema). Contudo, a sua visão está clara no filme. Em certo ponto, a diretora confronta o pai sobre o Golpe de 2016, que tirou Dilma Rousseff da presidencia do país. Ele, a chama de "aquela moça", enquanto Heloísa chama de "a presidenta". As duas visões de mundo, de gerações diferentes, se colidem para gerar uma discussão imprescindível sobre identidade, aceitação e principalmente, compreensão. É interessante notar, aliás, a importância da ambiguidade do título nessa questão. A história que Heloísa queria contar no início era sobre o pai que construía viadutos e pontes, mas, a cineasta acabou por conseguir realizar seu filme em uma época bastante emblemática, e ele se transformou em outra coisa: um filme sobre as ideias do pai em conflito com os ideais da filha. E essa é a época mais difícil para construir essas pontes emocionais, de afeto, onde muita gente simplesmente corta de sua vida alguém que tem o pensamento tão radicalmente diferente. Mas será que isso está errado?
A cineasta não se coloca no papel de juiza, nem propõe nenhum tipo de resposta definitiva. Mas é muito provável que essa resposta esteja embutida no filme, uma vez que a própria Heloísa, em certo ponto, acaba por expor as contradições e incoerências do pai, rememorando seu papel na época da ditadura e perguntando-lhe acerca dos torturados e assassinados. E mesmo assim, não deixa de falar sobre o pai com um certo afeto e tentar fazê-lo repensar suas opiniões (e até fazer um documentário sobre ele). É, por si só, um filme extremamente inteligente e que, mesmo que no projeto inicial fosse outra coisa, ao final, soube muito bem o que deveria ser. Construindo Pontes parece ser um filme-acidental em muitos sentidos - mesmo que algumas cenas sejam claramente provocadas -, como na belissima cena final, mas uma coisa é mais do que certa: é um documentário que, no futuro, vai se tornar um significativo documento sobre esses anos, e é muito necessário nesses tempos de extremismo que vivemos atualmente, um país em golpe. E um país em golpe é, sem dúvidas, um país mais triste, mesmo que seja capaz de produzir obras excelentes como essa. Um filme de um cinema potente que, é consenso, não vai morrer tão fácil assim.