Para salvar a menina judia dos nazistas e seus Colaboradores, uma família croata pretende casá-la com seu filho. O jovem está descontente com fim repentino de juventude e não parece gostar da menina ou da ideia. No entanto, quando ela é pega em uma ação de rua, já é tarde demais - ele deve enfrentar o fato de que ele a ama.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Co-produção da Iugoslávia e Croácia em preto e branco indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, representando a Iugoslávia na cerimônia - o vencedor do ano foi o sueco A fonte da donzela (59), de Bergman; no Festival de Cinema de Cannes, foi nomeado à Palma de Ouro de melhor filme. A história gira em torno do campo de concentração croata Ustaše chamado "The Ninth Circle", baseado no infame campo de concentração de Jasenovac.
Estréias da atriz sérvia Beba Loncar, que atuou em Casanova 70 (65), Confusões à la Italiana (66) e Dias de Violência (67), e da da também sérvia Dusica Zegarac (1944-2019). Drama romântico de guerra perfeitamente escalado, comovente e bem filmado. Um retrato não melodramático da odisséia de um caso de amor durante a Segunda Guerra Mundial na Croácia. A direção e o trabalho de câmera são de primeira, e os dois jovens atores ficam cada vez mais luminosos à medida que o filme atinge seu clímax.
Excelente filme, apesar de uma história extremamente triste como a maioria dos filmes que retratam o período. Impossível não favoritar. Nota 9,5.
CROÁCIA NÃO É SINÔNIMO DE USTAŠE
A final da copa do mundo de futebol de 2018, na Rússia, levou aos campos um futebol que despontou como 'azarão' (ou nem tanto - pra quem lembra de 1998): a seleção dos croatas, cujo nome mais conhecido era o do meia Luka Modrić. Como do outro lado estava a caríssima e "globalizada" seleção francesa - na verdade, beneficiária de séculos de colonização de povos africanos (o que acaba aparecendo simbolicamente nos esportes) - iniciou-se então uma campanha midiática histérica tentando pintar o povo croata como 'nazista por natureza' ou coisa que o valha.
Tudo isso fica escorado no fato de a Ustaše (a pronúncia é "ustacha"), uma organização paramilitar de apoio ao nazismo, ter governado a Croácia como Estado-fantoche do poder central alemão. Por conta disso, a mídia ligada ao mercado da bola que tem preferência de cunho financeiro pela seleção francesa tentou (usando vídeos de alegadas saudações nazistas de Modrić e declarações isoladas de um jogador chamado Vida) criar um clima de que a Croácia "merecia perder para os franceses bonzinhos e tolerantes" - isca que os parvos de sempre morderam de prontidão.
Passou-se a atacar não o (surpreendente e obstinado) futebol croata, mas seu povo por extensão - pouco mais de quatro milhões de habitantes da periferia geopolítica e econômica da Europa. Seria como acusar que a França 'merece perder' por conta do governo de Vichy, Não dá pra jogar o país inteiro no balaio do nazismo porque ele tinha seus (muitos) Philippes Pétains e Luciens Lacombes - ou será que dá? Pau que dá em Chico tem que dar em 'François'...
Por conta da atualidade desse tema, se faz pertinente (quase obrigatório!) pra quem entendeu o tamanho dessa injustiça e dessa confusão contra o povo da Croácia fazer um contraponto. E por acaso me calhou ver por esses dias um excelente filme da finada Iugoslávia - mas croata na essência, filmado em Zagreb e com realizadores locais - que ajuda nesse intento. Trata-se de "O Nono Círculo" (Deveti Krug - o filme sequer tem título em português e arrisco aqui uma tradução baseada no título em inglês), pouquíssimo conhecido mesmo tendo sido indicado a um Oscar de melhor filme estrangeiro, motivo que me levou até ele. Pra se ter ideia, tem menos de 300 votos no IMDb - uma mixaria para os padrões da base de dados mais popular da sétima arte.
Está ali a temática-fetiche dos velhinhos sionistas da "cadimia" de Roliúde: a perseguição aos judeus na Europa, que é sem dúvidas o que lhe rendeu visibilidade no Oscar. Funciona muito bem como suspense de escalada persecutória aos judeus, culminando com um desfecho arrasador e corajoso, mas seus méritos vão além disso. O principal, vendo hoje, é a própria pegada de 'autocrítica' da fase socialista do país pela milícia política e repressora da Ustaše (há até um personagem ultra-reacionário ali digno de 'militante' do MBL dos nossos tempos brasileiros), colocando o protagonista Ivo (Boris Dvornik, excelente) como um solteirão 'despolitizado' que se vê envolvido por pressão familiar para um casamento forçado com uma garota judia que precisa se esconder dos eugenistas locais.
Ivo vai do ódio ao amor no percurso do filme, o que não deixa de ser uma síntese histórica do que foi a Croácia da Ustaše até a fase iugoslava. Além de funcionar brilhantemente como drama de guerra, o diretor France Stiglic coloca "O Nono Círculo" pra funcionar perfeitamente como suspense, romance (a cena dos dedos no 'parque' é sensacional) e até as necessárias pitadas de comédia - tendo a própria Ustaše como alvo das tiradas - pra servir um prato equilibrado ao final.
Excelente e criminosamente desconhecido filme que merece ser descoberto (tive que ver 'na raça', baixado na internet ano passado e com legendas em inglês obtidas só neste ano, porque não tinham outras!), não só por justiça ao povo croata pela campanha difamatória feita contra eles na Copa da Rússia, mas pelas qualidades de direção e roteiro que o filme esbanja em seus 100 minutos que passam voando.