Volta e meia aparece (depois some, depois volta a aparecer...) no Top 250 no IMDb o longa-metragem indiano de 2015 cujo título em português é "A Chantagem" (Drishyam, 2015). Pessoalmente, sigo a seguinte máxima: caiu na rede dos 250 do IMDb, é peixe. Ou seja, eu vou acabar querendo assistir, inclusive os filmes meio obscuros de países da Ásia, como é o caso deste. Fui pesquisar sobre o filme e descobri que ele é, na verdade, uma refilmagem. Foi assim que cheguei a um outro "Drishyam", também indiano, lançado menos de 20 meses antes. Era um remake de um filme recente - e do próprio país!
As surpresas não pararam por aí. Pesquisar sobre esses dois filmes me remeteu a uma verdadeira aula de geografia sobre a Índia. O país, do alto de seu bilhão de habitantes, é um caldeirão de vários idiomas - o que não chega a ser uma novidade para quem já assistiu "Lion: Uma Jornada Para Casa", já que o garoto daquele filme se perde e vai parar em um outro estado indiano, onde se fala outro idioma. No caso do "Drishyam" de 2013, trata-se de um filme no idioma malalaio, que é falado no estado de Kerala, localizado no extremo sudoeste da península indiana. Tem uma população pouco menor que a do estado de São Paulo - o que, para os padrões indianos, é uma coisinha de nada, menos de 3% do todo nacional, tendo em vista as dimensões gigantes da demografia daquele país.
Mesmo sendo um estado pequeno, o cinema de Kerala produziu, com "Drishyam", um sucesso comercial retumbante dentro da região e que chegou à façanha de lotar salas de cinema de Bombaim. Por que foi uma proeza tão extraordinária, afinal, esse sucesso em outros estados do mesmo país? Justamente pela questão da barreira idiomática. Em Bombaim e na maioria das áreas de maior densidade populacional se fala o idioma chamado 'hindi' e variações coloquiais dele (misturando até inglês, como quem já assistiu o cinema comercial indiano sabe). Uma vez que o filme de 2013 foi filmado em malalaio, acabou sendo, portanto, um sucesso inesperado. Essa foi uma barreira também encontrada para a disseminação da arte de meu cineasta indiano favorito, Satyajit Ray (da genial Trilogia de Apu), que vem do extremo oposto do país - o nordeste bengalês - e filmava no idioma local, bengali. Tanto é que o filme fundamental para muita gente da própria Índia tomar conhecimento de Ray foi o lançamento de seu "Os Jogadores do Fracasso" (1977), quando ele já estava velho, precisamente porque foi seu primeiro (e único) filme com diálogos em hindi.
Obviamente, Bollywood (o centro comercial do cinema indiano, que produz em hindi) viu nessa barreira idiomática e no sucesso relativamente grande do filme malalaio de 2013 uma oportunidade de fazer dinheiro, de modo que refilmaram "Drishyam" numa versão bastante fiel ao original (inclusive copiando boa parte da decupagem), justamente pra que alcançasse um público maior e, claro, os produtores abarrotassem seus cofres com uma ideia originária do "pequeno" estado de Kerala.
Feita essa longa contextualização inicial, que julgo pertinente, vamos aos filmes. Vi os dois, um logo seguido do outro, começando pelo original. O longa de 2013 tem um roteiro empolgante e uma direção segura, com 'storytelling' e narrativa ótimos, a ponto de nos segurar bem por quase três horas de projeção. Obviamente há defeitos no roteiro, como uma certa forçação de barra no plano mirabolante (mas muito intrigante e de fato inteligente) do protagonista, envolvendo falsificação de memórias alheias, para safar a família de uma possível tragédia com a repressão do Estado, após uma de suas filhas ser chantageada com 'nudes' filmados sem autorização em celular. Também há cenas de tortura policial no derradeiro ato que pecam um pouco na edição de som (o barulho das pancadas é bem artificial) e uma ou outra mudança inadequada na edição (que no geral é ótima!) na passagem de uma cena pra outra.
Postas essas ressalvas, só me cabe fazer elogios. O "Drishyam" de 2013 não é mesmo para todos os público. Mas pra quem já é razoavelmente escolado no cinema indiano e sabe entrar no espírito do filme, vai ser uma grande experiência. Seus três atos são muito bem delimitados: o primeiro envolvendo a felicidade familiar e conjugal do (anti-)herói da narrativa, em tom acertadamente leve/cômico e muito bem executado pelo elenco, o segundo ato envolvendo a investigação e o terceiro com a mãe do garoto desaparecido - uma delegada de alta plumagem cada vez menos paciente - partindo para soluções drásticas, com um final eletrizante.
O maior acerto dessa versão de 2013 é, sem dúvidas, a performance carismática, cativante e versátil de seu ator principal no transcorrer desses três atos. Mohanlal está perfeito como pai de família bonachão, simpático, órfão, medioclassista e de baixa escolaridade, que tem na esposa e filhas seu único esteio pessoal e depois passa pela tensão da investigação (momento em que a coesão familiar será testada) até ficar exausto e ainda assim continuar determinado na última meia-hora de filme. É bom destacar que Mohanlal conseguiu essa performance praticamente na base do improviso, o que deixou o diretor Jeethu Joseph em dúvida sobre seguir o caminho dele, mas que acabou dando muito certo e conduziu o elenco inteiro a performances bem 'soltas' e verossímeis, principalmente na primeira hora de filme, quando Mohanlal, que é um sujeito de aparência à la Nicolás Maduro (com bigodão e tudo) faz brincadeiras de duplo sentido com a esposa e com o auxiliar no trabalho.
Tem um monte de curiosidades nesse filme que não notei nos diversos longas bollywoodianos que assisti. Os personagens homens usam saias (e você aí, achando que isso era exclusividade dos escoceses!) e o cristianismo da família central é destacada em vários momentos do filme, principalmente nos objetos de cenografia (faceta que foi limada da refilmagem). Depois fui descobrir que Kerala é um dos estados indianos em que proporcionalmente o cristianismo tem presença boa, em contraposição com os estados vizinhos, cuja hegemonia hinduísta é total. Como sou ateu, isso não faz muita diferença - mas, por incrível que pareça, acabei gostando mais da presença desse ingrediente religioso leve, na versão de 2013, do que na ausência dele em 2015, posto que o próprio arco de martírio e sacrifício do protagonista funciona bem nesse aspecto e casa como metáfora cristã, além de ser uma faceta a mais do personagem principal.
Sobre a refilmagem bollywoodiana, em hindi, é quase no mesmo nível, ficando um pouco atrás. O elenco é também homogêneo, mas faltou a espontaneidade e versatilidade irresistíveis de Mohanlal, já que o ator chamado para a versão de Bollywood, Ajay Devgn, é bom (principalmente no segundo ato), mas é sempre taciturno e meio arredio, não tendo a leveza e o carisma de quando seu personagem solicita isso no primeiro ato, o qual é bem mais curto e ágil na refilmagem do que no original. As atrizes que fazem a mãe e as filhas estão ok, porém, novamente, acabam perdendo um pouco o brilho pela falta de espontaneidade de improviso do ator contracenando. As atrizes que fazem a 'chefona' policial são do mesmo nível nos dois filmes.
Há alguns poucos aspectos nos quais o remake é superior: a edição, inclusive de som, é mais profissional e amadurecida (principalmente na cena da surra) e o ator que faz o policial 'valentão' que desconfia do protagonista acaba sendo curiosamente melhor na versão de 2015 - um possível reflexo das próprias diferenças regionais, já que a violência e corrupção policiais são (ainda) mais frequentes na Índia central (demograficamente bem mais ampla) do que em Kerala, de onde veio a versão de 2013.
De qualquer forma, em qualquer das versões, é uma narrativa que vale a pena assistir e acompanhar, porque a condução da história tem um arco dramático bom no roteiro (apesar das já citadas forçações, como na 'memória falsificada' das testemunhas), o final é bem legal e acaba sendo um tapa bem dado na cara da impunidade policial. Para um país que também tem um histórico de ampla violência, corrupção e impunidade por parte de meganhas, como o Brasil, a história ali narrada (seja em hindi ou malalaio) não fica tão deslocada de nós e se faz perfeitamente compreensível. Mas, claro, vai ser uma experiência bem mais aproveitável pra quem souber entrar na 'vibe' do cinema indiano.
Vai depender de cada cinéfilo determinar qual das versões é melhor. A de Bollywood é editada com elipses corretas, talvez mais acessível ao expectador ocidental médio, visualmente bem acabada e tem vários dos méritos do original irretocados ali. Já eu, confesso, fico com a original (menso conhecida, a encontrei só com legendas em inglês), feita pelos indianos mais 'provincianos' e 'caipiras' do sudoeste, mas também tecnicamente correta e, sobretudo, com um (anti-)herói encarnado com extremo carisma por Mohanlal e de maior investimento no primeiro ato. De todo modo, foi uma experiência curiosa ter visto esses dois filmes e uma chance de aprender algumas nuances internas presentes dentro de nosso irmão dos BRICS, inscritas em seu cinema, no único país pobre do mundo cuja cinematografia nacional é páreo comercialmente à estadunidense.
Só vou saber se foi essa versão ou a outra a que assisti.... Se assistir de novo rs
ÍNDIA BOLLYWOODIANA... E ALÉM!
Volta e meia aparece (depois some, depois volta a aparecer...) no Top 250 no IMDb o longa-metragem indiano de 2015 cujo título em português é "A Chantagem" (Drishyam, 2015). Pessoalmente, sigo a seguinte máxima: caiu na rede dos 250 do IMDb, é peixe. Ou seja, eu vou acabar querendo assistir, inclusive os filmes meio obscuros de países da Ásia, como é o caso deste. Fui pesquisar sobre o filme e descobri que ele é, na verdade, uma refilmagem. Foi assim que cheguei a um outro "Drishyam", também indiano, lançado menos de 20 meses antes. Era um remake de um filme recente - e do próprio país!
As surpresas não pararam por aí. Pesquisar sobre esses dois filmes me remeteu a uma verdadeira aula de geografia sobre a Índia. O país, do alto de seu bilhão de habitantes, é um caldeirão de vários idiomas - o que não chega a ser uma novidade para quem já assistiu "Lion: Uma Jornada Para Casa", já que o garoto daquele filme se perde e vai parar em um outro estado indiano, onde se fala outro idioma. No caso do "Drishyam" de 2013, trata-se de um filme no idioma malalaio, que é falado no estado de Kerala, localizado no extremo sudoeste da península indiana. Tem uma população pouco menor que a do estado de São Paulo - o que, para os padrões indianos, é uma coisinha de nada, menos de 3% do todo nacional, tendo em vista as dimensões gigantes da demografia daquele país.
Mesmo sendo um estado pequeno, o cinema de Kerala produziu, com "Drishyam", um sucesso comercial retumbante dentro da região e que chegou à façanha de lotar salas de cinema de Bombaim. Por que foi uma proeza tão extraordinária, afinal, esse sucesso em outros estados do mesmo país? Justamente pela questão da barreira idiomática. Em Bombaim e na maioria das áreas de maior densidade populacional se fala o idioma chamado 'hindi' e variações coloquiais dele (misturando até inglês, como quem já assistiu o cinema comercial indiano sabe). Uma vez que o filme de 2013 foi filmado em malalaio, acabou sendo, portanto, um sucesso inesperado. Essa foi uma barreira também encontrada para a disseminação da arte de meu cineasta indiano favorito, Satyajit Ray (da genial Trilogia de Apu), que vem do extremo oposto do país - o nordeste bengalês - e filmava no idioma local, bengali. Tanto é que o filme fundamental para muita gente da própria Índia tomar conhecimento de Ray foi o lançamento de seu "Os Jogadores do Fracasso" (1977), quando ele já estava velho, precisamente porque foi seu primeiro (e único) filme com diálogos em hindi.
Obviamente, Bollywood (o centro comercial do cinema indiano, que produz em hindi) viu nessa barreira idiomática e no sucesso relativamente grande do filme malalaio de 2013 uma oportunidade de fazer dinheiro, de modo que refilmaram "Drishyam" numa versão bastante fiel ao original (inclusive copiando boa parte da decupagem), justamente pra que alcançasse um público maior e, claro, os produtores abarrotassem seus cofres com uma ideia originária do "pequeno" estado de Kerala.
Feita essa longa contextualização inicial, que julgo pertinente, vamos aos filmes. Vi os dois, um logo seguido do outro, começando pelo original. O longa de 2013 tem um roteiro empolgante e uma direção segura, com 'storytelling' e narrativa ótimos, a ponto de nos segurar bem por quase três horas de projeção. Obviamente há defeitos no roteiro, como uma certa forçação de barra no plano mirabolante (mas muito intrigante e de fato inteligente) do protagonista, envolvendo falsificação de memórias alheias, para safar a família de uma possível tragédia com a repressão do Estado, após uma de suas filhas ser chantageada com 'nudes' filmados sem autorização em celular. Também há cenas de tortura policial no derradeiro ato que pecam um pouco na edição de som (o barulho das pancadas é bem artificial) e uma ou outra mudança inadequada na edição (que no geral é ótima!) na passagem de uma cena pra outra.
Postas essas ressalvas, só me cabe fazer elogios. O "Drishyam" de 2013 não é mesmo para todos os público. Mas pra quem já é razoavelmente escolado no cinema indiano e sabe entrar no espírito do filme, vai ser uma grande experiência. Seus três atos são muito bem delimitados: o primeiro envolvendo a felicidade familiar e conjugal do (anti-)herói da narrativa, em tom acertadamente leve/cômico e muito bem executado pelo elenco, o segundo ato envolvendo a investigação e o terceiro com a mãe do garoto desaparecido - uma delegada de alta plumagem cada vez menos paciente - partindo para soluções drásticas, com um final eletrizante.
O maior acerto dessa versão de 2013 é, sem dúvidas, a performance carismática, cativante e versátil de seu ator principal no transcorrer desses três atos. Mohanlal está perfeito como pai de família bonachão, simpático, órfão, medioclassista e de baixa escolaridade, que tem na esposa e filhas seu único esteio pessoal e depois passa pela tensão da investigação (momento em que a coesão familiar será testada) até ficar exausto e ainda assim continuar determinado na última meia-hora de filme. É bom destacar que Mohanlal conseguiu essa performance praticamente na base do improviso, o que deixou o diretor Jeethu Joseph em dúvida sobre seguir o caminho dele, mas que acabou dando muito certo e conduziu o elenco inteiro a performances bem 'soltas' e verossímeis, principalmente na primeira hora de filme, quando Mohanlal, que é um sujeito de aparência à la Nicolás Maduro (com bigodão e tudo) faz brincadeiras de duplo sentido com a esposa e com o auxiliar no trabalho.
Tem um monte de curiosidades nesse filme que não notei nos diversos longas bollywoodianos que assisti. Os personagens homens usam saias (e você aí, achando que isso era exclusividade dos escoceses!) e o cristianismo da família central é destacada em vários momentos do filme, principalmente nos objetos de cenografia (faceta que foi limada da refilmagem). Depois fui descobrir que Kerala é um dos estados indianos em que proporcionalmente o cristianismo tem presença boa, em contraposição com os estados vizinhos, cuja hegemonia hinduísta é total. Como sou ateu, isso não faz muita diferença - mas, por incrível que pareça, acabei gostando mais da presença desse ingrediente religioso leve, na versão de 2013, do que na ausência dele em 2015, posto que o próprio arco de martírio e sacrifício do protagonista funciona bem nesse aspecto e casa como metáfora cristã, além de ser uma faceta a mais do personagem principal.
Sobre a refilmagem bollywoodiana, em hindi, é quase no mesmo nível, ficando um pouco atrás. O elenco é também homogêneo, mas faltou a espontaneidade e versatilidade irresistíveis de Mohanlal, já que o ator chamado para a versão de Bollywood, Ajay Devgn, é bom (principalmente no segundo ato), mas é sempre taciturno e meio arredio, não tendo a leveza e o carisma de quando seu personagem solicita isso no primeiro ato, o qual é bem mais curto e ágil na refilmagem do que no original. As atrizes que fazem a mãe e as filhas estão ok, porém, novamente, acabam perdendo um pouco o brilho pela falta de espontaneidade de improviso do ator contracenando. As atrizes que fazem a 'chefona' policial são do mesmo nível nos dois filmes.
Há alguns poucos aspectos nos quais o remake é superior: a edição, inclusive de som, é mais profissional e amadurecida (principalmente na cena da surra) e o ator que faz o policial 'valentão' que desconfia do protagonista acaba sendo curiosamente melhor na versão de 2015 - um possível reflexo das próprias diferenças regionais, já que a violência e corrupção policiais são (ainda) mais frequentes na Índia central (demograficamente bem mais ampla) do que em Kerala, de onde veio a versão de 2013.
De qualquer forma, em qualquer das versões, é uma narrativa que vale a pena assistir e acompanhar, porque a condução da história tem um arco dramático bom no roteiro (apesar das já citadas forçações, como na 'memória falsificada' das testemunhas), o final é bem legal e acaba sendo um tapa bem dado na cara da impunidade policial. Para um país que também tem um histórico de ampla violência, corrupção e impunidade por parte de meganhas, como o Brasil, a história ali narrada (seja em hindi ou malalaio) não fica tão deslocada de nós e se faz perfeitamente compreensível. Mas, claro, vai ser uma experiência bem mais aproveitável pra quem souber entrar na 'vibe' do cinema indiano.
Vai depender de cada cinéfilo determinar qual das versões é melhor. A de Bollywood é editada com elipses corretas, talvez mais acessível ao expectador ocidental médio, visualmente bem acabada e tem vários dos méritos do original irretocados ali. Já eu, confesso, fico com a original (menso conhecida, a encontrei só com legendas em inglês), feita pelos indianos mais 'provincianos' e 'caipiras' do sudoeste, mas também tecnicamente correta e, sobretudo, com um (anti-)herói encarnado com extremo carisma por Mohanlal e de maior investimento no primeiro ato. De todo modo, foi uma experiência curiosa ter visto esses dois filmes e uma chance de aprender algumas nuances internas presentes dentro de nosso irmão dos BRICS, inscritas em seu cinema, no único país pobre do mundo cuja cinematografia nacional é páreo comercialmente à estadunidense.
NOTAS:
Drishyam 2013 - ★ ★ ★ ★
Drishyam 2015 - ★ ★ ★ ½