Pode alguém amar e dedicar sua vida a um camelo? Por mais surreal que a pergunta possa parecer é esse o mote desse filme dirigido pelo polonês Jerzy Stuhr. O roteiro foi escrito em 1973 por Krzysztof Kieslowski (com quem Jerzy trabalhou em vários filmes), mas reencontrado apenas em 1998. Trata-se de uma parábola da intolerância humana. Em uma idílica vila nas montanhas, Sawicki, um funcionário de banco, um dia aparece com um camelo. Ninguém sabe sua procedência, nem mesmo sua mulher, que é dona de um jardim de infância. A aparição causa comoção e revolta na população da cidade, que não aceita o animal, acusando-o de assustar as crianças, sujar a cidade e não ter permissão para estar ali. A tragédia vai se configurando. As mães tiram seus filhos da escola da mulher de Sawicki; manifestações são organizadas na porta de sua casa, mas tudo isso só faz crescer o amor de Sawicki pelo animal. Sem ter cometido crime algum, ele acabará transformando-se no inimigo número 1 da cidade.
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Acho que se o Kieslowski tivesse dirigido esse roteiro seria bem mais evidente ao público que antes de mais nada é um filme sobre LIBERDADE e que as questões sociais, burocráticas e provincianas podem ser até secundárias
O filme começa com o camelo sendo liberto no campo (como se fosse um cavalo, inclusive são feitas diversas comparações sobre isso ao longo do filme - mas ele não é um cavalo, o camelo é um animal exótico e forasteiro nesse ambiente, o que a princípio parece positivo mas com o tempo vai se tornando cada vez mais complexo). O homem entra em cena e imediatamente acaba com a liberdade do camelo, ele decide que o camelo agora é seu e já o coloca na coleira e aqui vem a parte mais importante do filme: ele dialoga com o camelo, explicando que ele não é o seu dono, que eles são amigos e caminham juntos lado a lado, ele só colocou essa coleira para que os cachorros não o incomodem e para poder protegê-lo! A possessividade do homem sobre o camelo vai crescendo cada dia mais e a medida que as pessoas ao seu redor colocam empecilhos para que ele continue mantendo esse camelo para si mesmo de forma tão egoísta a coisa vai tomando proporções absurdas. Enfim, eu só queria levantar essa questão porque todos os comentários sobre o filme são em função das picuinhas humanas e ninguém falou sobre liberdade até agora ou até mesmo sobre o camelo.
Magistral alegoria sobre a incapacidade da sociedade em aceitar o que considera estranho. Na busca pela coesão, todas as armas legais e ilegais são usadas. Um homem bem quisto se torna o inimigo público número 1 ao não aceitar a norma. Me fez refletir sobre todos os camelos que abandonei ao longo da vida na busca por aceitação.
A paixão de um homem por um animal considerado exótico pela população é o que move este belo drama polonês. Belo e sensível até a última cena!