Gritos do Sul

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Gritos do Sul (2022)
Gritos do sul
Média do filme: 2.6 de 5 — baseado em 5 votos
MÉDIAFILMOW
2.6
5 Avaliações
Minha avaliação:
Salvando
Dirigido por Fahya Kury Cassins
País de origem Brasil 🇧🇷
Duração 20 min None

Dirigido por

Duração

20 minutos
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Sinopse

O suspense tem como contexto a pandemia e a ascensão do fascismo na região Sul do Brasil. A história acompanha um casal e seu bebê, que decidem passar alguns dias em um chalé na serra. Ao chegar lá, notam que o casal proprietário e seu filho tem um "ar" questionável.

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Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita

Comentários 4
amigos querem ver
joaodiegoleie0b6fc34416849b4
João Diego
3 anos atrás

Gritos do Sul (2022) – Crítica
O fascismo representa a reação da burguesia contra toda a ameaça de levante da classe trabalhadora. As crises do capitalismo produzem as possibilidades de revolução e contra-revolução. A pequena-burguesia falida, hoje chamada de classe média, como o lumpesinato, conhecido como precariado, encontram nas posições reacionárias do fascismo um ponto de apoio à crise do sistema. Eles não desejam se tornar assalariados, nem querem ser parte da classe trabalhadora, acreditam ser autônomos e estarem em nível superior. O movimento fascista os infla contra todas as bandeiras progressistas, pois para tomar o poder precisa destruir quaisquer resquícios de organização popular que ameace os interesses do capital.

As semelhanças com o bolsonarismo não são casuais. Deus, Pátria e a Família era o lema de Hitler. Grupos neonazistas sempre flertaram com o ex-presidente. Suas bravatas mais inflamadas, como: metralhar os petistas, acabar com terras indígenas, atacar o MST, com os sindicatos e censurar a imprensa, também não deixam dúvidas sobre suas inclinações. Ele só não foi mais longe, por não encontrar o apoio necessário. A invasão do Palácio do Planalto e do STF demonstra disposição dos apoiadores, a depender da situação econômica e do próximo governo, esse grupo pode crescer e o bolsonarismo ressurgir. É sobre isso que o curta-metragem Gritos do Sul nos alerta, sobre o fascismo sempre a espreita…

Gravado durante a pandemia do Covid-19, nas cidades de Joinville e Campo Alegre, o filme retrata a situação política do Brasil, o negacionismo científico e as simpatias neonazistas de determinados setores da sociedade catarinense. Quem nunca pensou na política brasileira como um gênero de terror, talvez não conheça a história de nosso país. A Matéria prima sempre existiu, faltava imaginação para a narrativa, uma trama sem escapismo e enraizamento na realidade local. Tudo isso encontramos no curta-metragem dirigido e roteirizado por Fahya Kury Cassins.

O filme narra a história de um casal catarinense e seu filho em um fim de semana no campo. Os dois aguardam ansiosamente para passar alguns dias em um chalé aconchegante próximo a natureza. No meio da pandemia, sair do confinamento e mudar de ambiente é tudo que eles mais desejam. Preocupados apenas em relaxar, os dois não percebem como estão sendo manipulados e guiados para uma armadilha. O passeio comum e despretensioso acaba se transformando em um pesadelo com consequências nefastas.

Não há nada de errado com o casal Maíra, interpretada por Ianca Michelini, e Eduardo, interpretado por André Ribeiro, mas em uma cidade pequena ou em um lugar com vocação provinciana de Santa Catarina, uma mulher loira de olhos azuis com homem negro, tendem a despertar olhares curiosos, ainda mais com um filho loiro. Não é difícil imaginar os pensamentos do casal de idosos ao vê-los juntos com a criança. Mais importante que notar as falas são os gestos. Descendentes de alemães e donos do lugar expressam uma mistura de sentimentos, entre o nojo e a raiva.

Gertrudes, interpretada por Nenê Borges, demonstra esses sentimentos ao tentar, a todo momento, se aproximar da criança, ignorando o pai e a mãe. Não é só o toque e as brincadeiras que incomoda, mas a forma invasiva de querer afastar o bebê dos pais. Gerson, interpretado por Sérgio Ubiratã, não perde tempo em destilar todo ódio, xenofobia e preconceito, acompanhado das fake news. Apesar de todo o ar de tiozão, a roupa com estilo militar assusta.

Ao contrário de Eduardo, que parece agir no piloto automático e sem pensar, Maíra parece estar sempre preocupada, mesmo que de maneira tímida, ela tenta alertar o companheiro sobre o perigo. Não gosta da aproximação do casal de idosos do filho, nem do fato do lugar ser diferente, mas o marido não liga. Ele prefere agir impulsivamente. Isso os impede de ficar em segurança e os torna um alvo da armadilha.

A cena principal do filme, quando vemos o filho de Gerson e Gertrudes, interpretado por Gabriel Maier, assusta os personagens, mas não os afasta do local. Eles parecem não entender o perigo, nem a situação, mesmo com as falas óbvias do casal de idosos, eles resolvem seguir com o passeio de fim de semana. Esse engano ou anestesia de Eduardo e Maíra, talvez sirva como metáfora. Durante anos ouvimos falar que os discursos de Bolsonaro não deveriam ser levados a sério, que não existia perigo e ele só vivia dessas bravatas. O casal, como muitas pessoas, inclusive grande parte da esquerda, se negou a enxergar a realidade.

O roteiro tem um ponto forte em seu subtexto, notamos a bandeira do Brasil em cada canto, a camisa do genocida, as falas explícitas sobre o fascismo, mas demoramos a notar os gestos e como eles são conduzidos para um caminho sem volta. Eles não vão para o lugar agendado, a idosa entra na casa, o bebê chora, além disso a motosserra não para. O som anuncia o perigo e marca a evolução da tensão.

A criança não é apenas um personagem coadjuvante, o casal de idosos, em sua ideologia fascista, com suas atitudes mais sujas, em crimes mais horrendos, inclusive contra crianças, enxergam no bebê um ideal de pureza que eles não possuem. É preciso resgatá-lo de uma união com pessoas de “raças inferiores”. Eles não conseguem enxergar de modo diferente, a crise do sistema é uma crise de valores. O capitalismo começa a ruir, quando as pessoas se misturam, quando o mundo não funciona mais como no passado. Preservar a pureza das crianças é a única para fortalecer seu modo de vida. Pode soar apavorante, retrógrado, mas muitos pensam assim…

O curta-metragem Gritos do Sul, nos mostra como as bravatas incendiárias e a defesa das posições mais reacionárias não devem ser ignoradas. Há alguns anos, talvez eu reclamasse da verossimilhança das frases ditas pelos personagens ou do exagero, atualmente acredito estar extremamente adequado à realidade. Os últimos anos tornaram as atitudes grotescas, como no filme, um elemento presente em nosso cotidiano e fizeram do país palco de um filme de terror. Os gritos do sul, não são ficção, mas uma realidade. Ao fim, é uma obra para ser vista e revista.

João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de áudio e vídeo

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