Meu primeiro contato com o cinema do diretor húngaro Zoltán Fabri (1917-1994), Hangyaboly (1971) tem apenas dois votos na principal rede social de cinema do Brasil, o filmow; é, assim, um filme desconhecido do público brasileiro. Esse desconhecimento, no entanto, não se justifica perante a qualidade do filme e do seu tema. Hangyaboly se passa num convento húngaro no final do século XIX, onde um conflito está prestes a ganhar corpo: com a morte iminente da madre superiora, instala-se uma disputa entre dois grupos de religiosas do local, um progressista e outro conservador, para a eleição que acontecerá em breve e que escolherá a nova autoridade máxima do lugar. O filme é baseado no livro da autora Margit Kaffka (1880-1918), que o escreveu a partir das memórias dos seus anos em um convento na Hungria.
Além da temática política já descrita, atemporal no Ocidente - que desde o final do século XVIII se vê enredado nesse tipo de dicotomia -, outra questão aparece desbravada pelo filme, entrelaçada ao enredo político: a inata natureza sexual dos seres humanos. A freira do lado "progressista" que exerce um papel de articuladora e líder dos interesses mais abertamente reformadores do convento, tem uma paixão mal contida pela candidata que ela mesmo alçou à disputa pelo posto de futura madre. Ao situar essas disposições políticas e amorosas em um convento, onde tais questões teoricamente deveriam ser objeto de menor cisão, o filme, mesmo sem ter essa intenção, coloca em primeiro plano a força da natureza humana, imparável mesmo sob a tentativa de regência de instituições de controle muito poderosas como é o caso da Igreja Católica.
Além disso, Fabri antecipa, em um momento da disputa entre os diferentes grupos, uma arma do embate político que passou a ser usado de forma mais constante, no Ocidente, muitos anos depois do lançamento desse filme: a capacidade de deslinde de um conflito a partir do discurso moral. Em um momento-chave pela definição da candidatura e na arregimentação dos votos, a freira líder do nicho progressista tem uma fala num momento de encontro dos dois campos que é irrefutável, elencando aspectos religiosos para confrontar o movimento das freiras conservadoras e praticamente selando o provável triunfo na eleição.
Mais de 50 anos nos separam do lançamento de Hangyaboly, mas bons filmes envelhecem sem sentir o peso de sua idade. Esse é um deles.
Sinopse (MKO) O filme relata as condições em um convento húngaro no final do século XIX. A eleição de uma nova superiora leva a um conflito entre um grupo rigidamente conservador e um grupo reformista.
Meu primeiro contato com o cinema do diretor húngaro Zoltán Fabri (1917-1994), Hangyaboly (1971) tem apenas dois votos na principal rede social de cinema do Brasil, o filmow; é, assim, um filme desconhecido do público brasileiro. Esse desconhecimento, no entanto, não se justifica perante a qualidade do filme e do seu tema. Hangyaboly se passa num convento húngaro no final do século XIX, onde um conflito está prestes a ganhar corpo: com a morte iminente da madre superiora, instala-se uma disputa entre dois grupos de religiosas do local, um progressista e outro conservador, para a eleição que acontecerá em breve e que escolherá a nova autoridade máxima do lugar. O filme é baseado no livro da autora Margit Kaffka (1880-1918), que o escreveu a partir das memórias dos seus anos em um convento na Hungria.
Além da temática política já descrita, atemporal no Ocidente - que desde o final do século XVIII se vê enredado nesse tipo de dicotomia -, outra questão aparece desbravada pelo filme, entrelaçada ao enredo político: a inata natureza sexual dos seres humanos. A freira do lado "progressista" que exerce um papel de articuladora e líder dos interesses mais abertamente reformadores do convento, tem uma paixão mal contida pela candidata que ela mesmo alçou à disputa pelo posto de futura madre. Ao situar essas disposições políticas e amorosas em um convento, onde tais questões teoricamente deveriam ser objeto de menor cisão, o filme, mesmo sem ter essa intenção, coloca em primeiro plano a força da natureza humana, imparável mesmo sob a tentativa de regência de instituições de controle muito poderosas como é o caso da Igreja Católica.
Além disso, Fabri antecipa, em um momento da disputa entre os diferentes grupos, uma arma do embate político que passou a ser usado de forma mais constante, no Ocidente, muitos anos depois do lançamento desse filme: a capacidade de deslinde de um conflito a partir do discurso moral. Em um momento-chave pela definição da candidatura e na arregimentação dos votos, a freira líder do nicho progressista tem uma fala num momento de encontro dos dois campos que é irrefutável, elencando aspectos religiosos para confrontar o movimento das freiras conservadoras e praticamente selando o provável triunfo na eleição.
Mais de 50 anos nos separam do lançamento de Hangyaboly, mas bons filmes envelhecem sem sentir o peso de sua idade. Esse é um deles.
Sinopse (MKO)
O filme relata as condições em um convento húngaro no final do século XIX. A eleição de uma nova superiora leva a um conflito entre um grupo rigidamente conservador e um grupo reformista.