Uma viagem em volta do ossuário de Sedlec, um lugar construído com mais de 50000 esqueletos humanos, que foram vítimas da peste negra. Tudo isso regado a uma belíssima canção.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Visto em 04/07/2022.
Hein?
uma singela capela católica recheada de fêmures, úmeros, ulnas e crânios... uma coleção de esqueletos distribuídos como num memento mori arquitetônico e capturados pelos olhos afetivos e contemplativos do mestre svankmajer, um verdadeiro arrebatamento sinfônico imageticamente fúnebre; existe um pequeno comentário do diretor, mas acaba sendo completamente apagado e aniquilado logo em seguida pela mórbida sequência de cortes e visões nefastas desse tremendo surrealismo chamado "decorar uma igreja com ossos humanos"; há alguns brasões e candelabros todos confeccionados com ossos e crânios de pessoas acometidas pelos delírios e horrores físicos da peste; esse lugar é uma confusão poética entre o funesto e o sublime
Apesar de assistir ao curta sem legenda é inegável o talento do diretor para as coisas bizarras serem mostradas com tamanha beleza, o que podemos considerar é que, o bizarro na obra do Jan Svankmajer nada mais é do que o próprio homem, aqui é isso, ossadas humanas desta capela bem famosa, que creio, quase todas as pessoas já ouviram falar ou uma reportagem na tv sobre, mas o curta de Jan é obra de arte, porque trabalha com a fotografia, tem uma edição excelente, uma câmera que agita-se mas que não causa vertigem, ao contrário, cria uma sensação de imersão, como que se nossos olhos estivessem ali naquele local para olhar cada detalhe.
É inegável a minha eterna admiração por Svankmajer.
De primeira assisti ainda sem legenda, e minha maior inspiração nos filmes do Jan é o som. Não bastasse a câmera ora agitada ora lenta na medida correta, o diretor consegue isolar a quantidade de som que encaixa-se em todos os momentos sem tornar-se agoniante - pelo contrário, é um deleite. Em O Ossuário, Svankmajer é mais específico, utiliza a trilha sonora em conjunto à fala da guia o chiar da bicicleta, o que se torna uma particularidade. Em seus filmes ele consegue (seja longa, seja curta) isolar e transferir a quantidade de som adequada ao momento - que ele sempre sabe - perfeito. Assistir aos filmes do Jan é contemplar um show à parte de acústica que, nossa, eu aplaudo de pé.
No mais, me senti parte dessa cultura tão instigante. Que lugar interessante! Um candelabro com todos os ossos humanos... A beleza transpõe o macabro; muito massa, muito massa.
Sinistro.