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Em 2004, Michael Moore ganhava a Palma de Ouro em Cannes com o seu filme "Farenheit 9/11" e declarava oficialmente "guerra" a George Bush que estava já em campanha para as eleições presidenciais desse ano nos EUA. Se com o seu filme anterior, "Bowling For Columbine" Moore já tinha lançado a primeira bomba ao pôr a nu a relação dos americanos com as armas, agora o polémico realizador lançava-se numa nova batalha: impedir que Bush renovasse o seu mandato.
Em Fabricando Polêmica, Debbie Melnick e Rick Caine, atraídos pela personalidade polémica do cineasta americano, assinam um documentário que procura distinguir os fatos da lenda, e seguem Michael Moore na viagem de promoção pela América do explosivo "Fahrenheit 9/11". Simultaneamente, o filme retrata também o ambiente político carregado daquele país, que assiste à transformação do realizador em ícone da esquerda política.
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Baixei do Youtube legendado em espanhol.
Forçoso dizer que a simpatia ou a antipatia por Michael Moore não deveriam influenciar na avaliação deste documentário.
Contudo, até mesmo críticos que dizem analisar um filme apenas pelo que se apresenta na tela falham em desprezar "Fabricando Polêmica", equiparando-o a um libelo acusatório qualquer.
Aliás, como pode um crítico apreciar os filmes de Michael Moore e não valorizar esta homenagem às avessas ao documentarista, sendo que ambos usam técnicas similares?
Para quem se dispõe a dissecar filmes sem se deixar levar por ideologias, trata-se de uma incoerência indesculpável.
Mas vamos ao documentário.
Tecnicamente, conforme adiantado, segue a mesma linha do estilo consagrado por Moore. Ou seja, a edição é um personagem à parte. O que às vezes empana seu brilho, mas sem apagar sua melhor qualidade, que é o uso do cinema como instrumento de desmistificação de mitos.
Quanto à perspectiva dos realizadores, pode-se acusá-los de qualquer coisa, menos de má-vontade com o protagonista a contragosto. A recíproca, por óbvio, não é verdadeira.
Um dos pontos positivos de "Fabricando Polêmica" é demonstrar que a defesa de um ponto de vista, dependendo de como é feita, pode causar o efeito contrário ao pretendido.
A sanha hidrófoba de Michael Moore contra George W. Bush, malgrado a infâmia que permanecerá indelével na biografia do ex-presidente americano, mais contribuiu para a promoção do cineasta do que para alguma reflexão sobre os males causados pela campanha contra o terror pós-11 de setembro.
Quem possui um mínimo de consciência política e não se deixa levar por dogmatismos sabe que indivíduos plenos de discursos inflamados acabam por prejudicar quem age com moderação. E a vertente séria e equilibrada da esquerda norte-americana, conforme "Fabricando Polêmica" aponta, foi uma das vítimas da ascensão de Michael Moore em busca de reconhecimento.
Alguém poderia dizer que estou fugindo do foco e me atendo a questões externas ao filme. Lamento, mas ignorar a relação entre este documentário, os de Michael Moore e a realidade é um luxo ao qual não posso me permitir.
E para quem reclamar que a montagem de "Fabricando Discórdia" é tendenciosa, digo que se trata de pura hipocrisia. Pois Michael Moore é tendencioso até o último fio de barba mal aparada. E é louvado por muitos justamente por isso.
Melhor seria se os pretensamente imparciais admitissem suas preferências em vez de mascarar isso sob um verniz de pretensa superioridade.
Uma cena exemplar, a mais imparcial possível, é a entrevista de Michael Moore ao crítico David Gilmour (autor do livro "O Clube do Filme") num programa de televisão canadense. Nele, Gilmour questiona Moore sobre o fracasso de crítica e público de "Operação Canadá", uma pretensa comédia que foi seu único filme ficcional. Moore preferiu subestimar a inteligência dos espectadores que consideraram seu filme sem graça (no que não estavam errados). Percebendo a imaturidade da sua reação, tentou se emendar, sem êxito. Em poucos minutos, tivemos o desnudamento de quem se jacta em desvendar "a verdade" sobre tantos assuntos (o armamentismo, a relação Bush-Bin Laden, o sistema de saúde norte-americano, etc.).
É uma pena que o lobby pró-Michael Moore entre a maioria dos cinéfilos brasileiros, muitos certamente movidos por um antiamericanismo dos mais parvos, eclipsou "Fabricando Polêmica”, relegado a exibições no GNT e na TV Cultura. Edição em DVD, nem pensar.
Não se trata de um filme deplorável. Não é um panfleto direitista à la Tea Party.
Mesmo assim, há quem só enxerga o que deseja enxergar.
Michael Moore sofre com o próprio estilo que criou...
superinteressante