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O documentário percorre os rastros da existência do Abrigo Municipal de Alienados Oscar Schneider, instituição psiquiátrica que funcionou entre os anos de 1923 a 1942, em Joinville. A instituição foi construída aos fundos do cemitério da cidade e recebeu pessoas consideradas loucas encaminhadas por ordem do Estado ou de suas famílias.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Memórias Invisíveis (2021) - Crítica
Um média-metragem sobre desenterrar o passado, expor as feridas e contar uma história pouco conhecida em Joinville
Em uma cena, no meio do filme, um grupo de idosos conta como era morar nos fundos do Cemitério Municipal de Joinville. Eles relatam tudo de uma maneira alegre. Sorriem, contam anedotas e afirmam muitas vezes como a vida era feliz naquela época. Segundo os idosos e entrevistados durante o documentário, ninguém sabia de toda a História do local. Sabiam da prisão durante a Segunda Guerra Mundial, mas não sobre o Abrigo de Alienados, o hospício.
É curioso, como um ambiente impregnado de histórias cruéis, também possa produzir memórias felizes. Ao sepultar parte do passado, os governos e as elites, quem construiu o Abrigo, permitiu ao terceiro grupo de moradores, policiais militares e suas famílias, construir uma vida feliz e alegre. Soa grotesco imaginar a felicidade de alguns em um ambiente onde muitas pessoas sofreram e morreram, mas essa cena, como todo o filme, nos provoca a pensar em como existem histórias sobre nossa cidade que precisam ser desenterradas. Como relata o historiador Dilney Cunha, existem muitos tabus sobre a cidade, questões às quais muitos preferem não lembrar ou esquecer.
O filme começa com cenas do Cemitério Municipal de Joinville, vemos diversos planos e ângulos das sepulturas, um local totalmente vazio. A música nos provoca um sentimento misto de tranquilidade e melancolia. Os letreiros, excessivos em alguns momentos, contam a História do Abrigo Para Alienados que existia ali.
A roteirista e pesquisadora, Mariana Zabot Pasqualotto, é quem conduz as entrevistas, realiza as pesquisas e faz as conversas. Ela é a personagem principal do filme. Durante várias cenas, ouvimos sua voz ou a vemos percorrer as pistas da instituição psiquiátrica que funcionou entre os anos de 1923 a 1942, em Joinville.
Apesar de ser um documentário, o filme divide uma tensão entre os tons de terror e melancolia, entre assustar diante da crueldade humana e nos provocar lágrimas pelo sofrimento alheio. As cenas encenadas por atores lembram fantasmas, essa impressão é reforçada pela imagem em preto e branco. Aqui, talvez estejamos sendo assombrados pelo passado; ou lembrados sobre o sofrimento dessas pessoas: incompreendidas, isoladas do mundo, presas e amontoadas em uma cela. Eram fantasmas ainda em vida, a morte apenas sacramentou o destino a qual a sociedade os havia condenado.
É uma escolha estética manter essas cenas em alusão ao terror, mas também estimular sentimentos de melancolia e revolta com as entrevistas, pesquisas e as conversas descontraídas. Um dos momentos tocantes é quando o pesquisador Lucas Muenster, descobre o destino da trisavó. A história dele ilustra como a mentalidade da época era de esconder qualquer indício de uma pessoa que não fosse “normal” na família.
É um exercício interessante assistir 1951 sobre a história do centenário de Joinville e depois assistir Memórias Invisíveis. Com essa dupla, o cineasta mostra duas cidades diferentes, duas situações diferentes e o motivo da relevância do cinema para a História e a memória de nossa cidade.