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Data de lançamento
24 Set. 2020Duração
Enquanto executam atividades extremamente repetitivas, os funcionários de uma loja de supermercado encontram espaço para expressar suas dúvidas, afetos, medos e sonhos improváveis. Humor, drama, mistério, romance e física quântica convivem com caixas de leite, cortes de carne, códigos de barra e câmeras de segurança. No espaço confinado de um supermercado, os funcionários não permitem que a rotina aprisione suas imanências/sua imaginação.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Amo documentários que mostram o cotidiano. Vi dia 02/11/22.
Assisti na 10ª Mostra Ecofalante que ocorreu online em agosto e setembro de 2021. Em uma das primeiras declarações do filme - se não a primeira - um dos funcionários do supermercado questiona a própria existência do documentário enquanto interesse do público para com o mesmo. O comentário poderia terminar aqui, porque no fundo é isso, e até os próprios realizadores sabem, não é? O público mais do que ninguém sabe o que quer assistir. E não é um ser iluminado, que entrou no cursinho querendo ser o novo Scorsese, e saiu querendo ser o novo Sganzerla, que fica querendo empurrar suas chorumelas goela abaixo, que vai mudar isso. Se o XINEASTINHA BRAXILEIRO tirasse o academicismo do rabo e a caceta de jumento que tem enterrada no ouvido, e escutasse o que o público tem a dizer, o patamar do cinema nacional seria outro. Qualquer que seja a arte com a qual você trabalhe, a primeira coisa que você não pode fazer é subestimar seu público. O XINEASTINHA BRAXILEIRO, contudo, faz isso reiteradamente. E vai lá criticar? Se você fizer parte da "crítica especializada", os caras ficam na miúda. Mas vai você enquanto público lá na rede social do cidadão criticar o trabalho dele, ainda que seja uma crítica construtiva. Os caras descem das tamancas! É um misto de arrogância com elitismo que chega a ser inacreditável. Mas esse comportamento é justificável, porque o público do realizador brasileiro não é O PÚBLICO. O público deles são os amigos e os juris de festivais meia boca com carta marcada. O público de fato, esse zé povinho que consome o "lixo comercial americano", esses seres incultos, quem são eles pra dar pitaco no trabalho desses seres olimpianos que são os XI-NE-AS-TI-NHAS BRA-XI-LEI-ROS? E aí nós temos esse MEU QUERIDO SUPERMERCADO - que acredito que nem seja a intenção da diretora, e certamente a mesma não é merecedora da minha revolta - que não passa de um documentário da vida animal feito com seres humanos. É isso: o supermercado é a selva, ou o habitat natural, e a produção está ali investigando como aqueles bicho, os funcionários, vivem e interagem entre si naquele ambiente. Sério? Isso, ainda que não intencional, é muito escroto! Porque não é uma investigação do que é um supermercado de fato, com toda a perversidade inerente desse setor da economia para com seus funcionário e para o consumidor, com coisas como adulteração de datas de validade, suborno à vigilância sanitária, exploração do trabalho, assédio moral, assédio sexual, ..., segurança matando cachorro, segurança amarrando cliente que supostamente estava roubando, segurança matando cliente, ..., essas coisinhas básicas de supermercado que simplesmente passam longe deste documentário. O importante é expor o bicho-homem. E tudo isso fica muito claro na sonoplastia e trilhas sonoras exageradas, porque os animais não sabem se expressar por si só, sem os sons que emitem e sem uma música de fundo que nos indique como eles se sentem. Essa parte aliás, juntos com certos posicionamentos de câmera, é tudo tão tirado da cartilha do cursinho de cinema que chega a constranger. E não é que o documentário seja vazio, muito pelo contrário. Há declarações muito ricas ali, que inclusive poderiam cada uma delas por si só gerar documentários muito interessantes, como a monitora das câmeras de segurança que age com a mentalidade do "guardinha da esquina" - que poderia ser linkado com os absurdos vistos nos noticiários recentemente, já mencionados neste comentário -, o funcionário otaku que vive fora da realidade, a solidão sentimental do trabalhador médio, ou ainda a doutrinação feita por pseudocientistas do youtube a um público suscetível a acreditar na "verdade que ninguém quer que você saiba", como é o caso do cara que trabalha na confeitaria, que é um shuffle de baboseira das redes sociais, e que de certa forma está ligado a toda merda na qual o país se tornou. Mas a intenção nunca foi se aprofunda em nada, ou questionar qualquer coisa, era só mesmo mostrar nós brasileirinhos como animaizinhos na sua paisagem natural. Cinefilinho punheteiro de festival europeu deve adorar. Nota 4 de 10. É isso mesmo... Falei mal e dei nota 4.
Durante uma fase da minha vida eu trabalhei como operadora de caixa num supermercado e ficava impressionada como as pessoas tinham a tendência de desumanizar ou desqualificar a gente por exercer uma função braçal, pressupondo que todas aquelas pessoas não possuíam desejos, ambições, afetos, curiosidades e inteligência.
A beleza desse filme para mim está em justamente nisso: em ressaltar a capacidade das pessoas em fazer da vida algo interessante, mesmo dentro em uma situação exaustiva, adversa e numa função pouco estimulante.
Curti a poética mas esperava que fosse mais panfletário.