Dirigido por
Duração
A história de quatro amigas à procura de amor e felicidade. Rita é noiva de um homem da alta sociedade. Ginette tem uma paixão secreta, com encontros misteriosos toda noite. Jane namora um militar e o trai com outros homens, e Jacqueline está aparentemente sozinha, apesar do misterioso ciclista que a segue constantemente.
Enquanto é de certa forma um manifesto feminista funciona muito bem mas tem algo em seu desfecho cheio de previsibilidade que compromete por demais a sessão. Tem todo aquele espírito crônico da novelle vague maravilhoso em todos os sentidos apesar da condução não ser das melhores.
O filme tem um certo lenga lenga, mas desenvolve de forma satisfatória e o desfecho surpreende.
Quatro mulheres substancialmente diferentes, e defendidas com competência pelas quatro ótimas atrizes que as compõem, dividem o mesmo local de trabalho, segredos e, às vezes, desejos conjugais, ainda que estes se manifestem de formas únicas. Após o fim do expediente, a efervescência e as diversas possibilidades que se projetam naquela moderna Paris colocam cada uma em sua própria forma de exercer a vida. Em oposição a elas, as figuras dos homens evocam morte, privação e asfixia, o que se observa desde a relação patrão-empregada ou entre namorados até os momentos de maior tensão, como nas cenas finais. Infelizmente, os valores nos quais essas relações se pautam ainda se mantêm atuais. Para além disso, é um filme gostoso de acompanhar, com personagens agradáveis e espaços de atmosferas charmosas, como se espera de ambientes parisienses.
me chama a atenção que chabrol consiga mostrar a violência explícita, mas também a implícita, nas relações heteronormativas, e nos chocar da mesma forma, pelo seu domínio da linguagem. sua câmera é capaz de testemunhar uma mulher sendo afogada, seu corpo sendo tocado brutalmente e a impedindo de respirar, e uma outra cena que na teoria é tão assustadora quanto, mas representada como um gesto silencioso e sigiloso. uma outra mulher é enforcada, mas agora só vemos as reações, e os sons humanos são substituídos por barulhos de pássaro. às vezes a câmera se inclina como se quisesse nos poupar de passar por isso de novo, e então surgem crianças presenciando o instante que sucede a ação e o infrator sai correndo em sua moto. pra cada cena sufocante, há um momento de ternura enigmática.
quem é a mulher sonhadora, dançando no fim do filme, como se tivesse encontrado o amor? seria um novo rosto a resposta para o não-conformismo masculino, a procura insaciável por uma próxima vítima? nessa visão de masculinade, parceiras são substituíveis quando o desejo é saciado, e nem sempre é agradável ver o idealismo romântico virando pesadelo realista.
Fiquei surpreendido, pela positiva, com este filme, para mim é um dos melhores da chamada "nouvelle vague". É pena que seja um filme "esquecido", como a grande maioria dos filmes de Claude Chabrol, cineasta que realizou imensos ótimos filmes. Trata-se de uma obra maravilhosa e única. As atuações das quatro atrizes principais são fantásticas. Nota: 9/10