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Considerado a “última colônia da África”, o Saara Ocidental é palco de um dos mais longos e menos conhecidos conflitos do mundo. Após a saída dos colonizadores espanhóis, em 1974, ao invés de um prometido plebiscito para decidir sobre a autodeterminação dos beduínos saharauis, a Espanha entregou o território ao Marrocos e à Mauritânia (que se retirou em 1979), provocando uma guerra intermitente e a dispersão da população saharaui.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
A última cena é emblemática!
Num poço de água no meio do deserto, um filhote de camelo aparece se refrescando, depois um beduíno carrega um pouco de água em um tipo de bolsa de couro e leva para dentro de uma moradia onde uma criança o espera, lá o beduíno joga a água sobre a cabeça do menino, para que este se refresque.
O Saara Ocidental ainda vai precisar de muitos filmes para explicitar a violência que seu povo sofre sob ocupação marroquina. Mas é interessante perceber que o Brasil voltou seu olhar para essa questão e num mesmo ano tem duas produções. Particularmente, além de ser uma temática que muito me interessa, queria saber qual seria a abordagem que os diretores fariam e qual seria a diferença do documentário que eu e meu amigo Rodrigo Duque Estrada dirigimos, que agora está sendo inscrito em vários festivais antes de entrar em cartaz. Minha curiosidade era saber qual seria a abordagem de O Deserto do Deserto e o que teria em comum com Um Fio de Esperança: Independência ou Guerra no Saara Ocidental. Antes disso, tenho de ressaltar a qualidade desse documentário e a sensibilidade dos diretores ao narrarem a tragédia do povo saaraui. Esteticamente é um documentário belíssimo, mas o tema é tão árido que gera angústia. Cada pessoa entrevistada conta sua história e a indignação aumenta. [spoiler] O final, com a explosão do carro que os diretores estavam, coroa o que mil palavras não diriam. Os milhões de minas terrestres que estão lá são verdadeiras. [spoiler]. Um filme necessário para que as pessoas vejam o que acontece no Saara Ocidental. Bom, e qual a diferença deste com Um Fio de Esperança: Independência ou Guerra no Saara Ocidental? Em nosso documentário, eu e o Rodrigo optamos por trazer um recorte político. Na iminência de explodir uma guerra, tentamos entender qual a possibilidade de essa catástrofe vir a abalar aquela região da África. Em o Deserto do Deserto também há uma abordagem política, mas os diretores dão ênfase à viagem que cruza o território de Tindouf ao Atlântico, 1600 km pelo deserto, as conhecidas "Zonas Liberadas". Nesse caminho encontram beduínos e nos mostram a aridez do deserto sob a perspectiva deles. Também abordamos esse tema, mas temos sempre a perspectiva de que o limite da paciência dos saarauis já acabou. Por fim, nesse documentário sentimos que a situação não tem solução. Inclusive alguns jovens entrevistados apontam pela guerra. Em Um Fio de Esperança questionamos o porquê de o Brasil permanecer em silêncio diante de tudo isso é sequer reconhecer o Saara Ocidental. Ali, além de expor a tragédia saaraui, perguntamos se o silêncio brasileiro estaria vinculado ao lobby marroquino. Enfim, são filmes complementares e necessários para que o Brasil comece a entender o que está acontecendo naquela região da África e que o Marrocos não é apenas um belo pais para se fazer turismo, trata-se de uma monarquia violenta e que oprime a todo custo qualquer possibilidade de o povo saaraui manifestar seu desejo de intendência.