"Pelo amor de Deus - que pergunta!", exclama a mãe à medida que seu filho puxa a conversa, depois de décadas de silêncio e de ausência. O filme é uma espécie de balanço, narra o reencontro entre o diretor e seus pais já idosos, na tentativa de rever o passado. Nesse processo, uma nova visão dos seus pais vem à tona, o que proporciona mais uma vez um retorno a uma era já passada, cuja sentença já foi dada. Mas a história do casamento deles nos emociona, pois é um drama atemporal, que nos alcança e nos transtorna. Ao usar fantoches, o diretor consolida o retrato de seus pais em um tribunal fictício de família. Uma homenagem sensivelmente sutil à uma geração acima dos 80 anos à medida que eles partem de um mundo que os deixaram para trás.
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Mais um documentário sobre lembranças. Mais um relato bastante íntimo de uma relação com o tempo. O diretor acompanha os seus pais, juntos há 62 anos, num tipo de registro que funciona como uma carta de "acerto de contas". Direção criativa, que opta por mesclar essas imagens "triviais" do cotidiano com bonecos de fantoches, representando seus próprios pais, mas como coelhos. Lembrei muito dos quadrinhos de Art Spiegelman, "Maus", que curiosamente são constituídos de entrevistas com o pai do quadrinhista, perseguido na 2ª Guerra Mundial, em que os judeus são retratados literalmente como ratos, enquanto Hitler, um gato. O documentário de Peter Liechti também passa por esse assunto rapidamente, mas sempre muito focado nos aspectos religiosos e dogmáticos de uma geração dominada pelo conservadorismo e o preconceito. É de se pensar os limites éticos aqui presentes, pois a gravação transforma-se invasiva gradativamente.