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Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu "próprio caso". Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma atriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu " próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira Torre de Babel! Seguidamente assiste-se ao diálogo de Jó com Deus, com os mesmos atores da peça a fazerem de amigos de Jó. No final, Jó e a mulher são felizes na Cidade Ideal de Pierro della Francesca.
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Saio um tanto dividido, tal qual é o próprio filme. Enquanto exercício narrativo nesta mescla entre cinema e teatro é brilhante, enquanto seus personagens discutem a importância de seus casos, num excesso de individualismo, também o é. Mas esta guinada para o livro bíblico de Jó confesso que ainda me faz boiar na maionese, por mais bela que seja a estética do cenário confesso estar distante de compreender o motivo de sua existência.
Uma reflexão sobre a existência das pessoas, que pensam em si mesmas no sentido individualista e tentam sobrepujar seus problemas acima dos demais. É o puro egoísmo, todos num certo grau o tem, uns mais outros menos, mas sempre a pensar primeiro no "eu" individual do que no coletividade. O interessante é que a arte aqui do cinema é retratar um evento onde um intruso invade uma peça de teatro, ou seja, parou-se a arte para dar lugar a reflexão verdadeira da vida, e como diz o próprio personagem, que aquilo tudo é mentira, falso, "maquiagem". Eleva-se assim o filme numa metalinguagem que diz muito acerca da nossa vida, afinal, somos nós os espectadores da peça de Manoel de Oliveira. Será que temos algum caso pessoal mais importante que ver o próprio filme? O que é a arte senão uma fuja da própria existência sem sentido ou dos nossos tormentos, será isso?
As partes em que se divide o filme são um complemento para entender esta mensagem. Nós espectadores somos levados a ver todos os personagens como iguais, seus "casos" são irrelevantes perante algo maior, e em certo momento nem falam, se igualam numa não-linguagem, se equivalem em suas irrelevâncias existências perante o todo que é muito maior que a particularidade.
É um exercício existencial, que entremeado por um texto de Beckett dá um tom de ironia sobre nossa existência e, reflexiona que o não existir talvez seja a melhor coisa possível. Mas há ainda um contraponto, que é o desfecho; uma expectativa de alguma gratificação. E a queixa existencial das nossas desgraças individuais é tamanha que nesse desfecho se encontra um diálogo provocativo dos maiores, àquele que mais nos deve resposta é justamente àquele a que devemos a nossa própria existência. Podemos ver tudo ao redor ruir, e aparece Jó num mundo apocalíptico se queixando com Deus de sua desgraça pessoal. Os atores que eram o que o intruso desprezava agora são seus parentes, a quem deveria ter alguma estima. Significando que todos fazemos parte de uma mesma família, de algo maior que o egoismo bloqueia de nos fazer pensar. Há uma recompensa ainda porvir.
E neste desfecho o filme se encerra da maneira oposto ao que começara, o filme começou com a interrupção de uma peça, uma obra de arte é interrompida por alguém que se indaga que aquela farsa não é mais importante do que "seu caso" pessoal, e que ele tem mais a dizer que aqueles atores. O filme encerra-se com a arte se mostrando ainda como o final de tudo, insinuando que ela é a maior obra humana, talvez o sentido existencial, mesmo para aqueles, que como Beckett, tendiam ao niilismo. O triunfo da arte sobre a significância da vida é posto, o "sorriso" emblemático de Monalisa surge carregado por alguns personagens.
Quem fora Monalisa ninguém ao certo saberá, mas seu emblema se afigura intacto na arte como algo admirável. A existência da figura retratada e sua vida pessoal não importam, não há como sabê-los, mas sua existência para a arte tem um sentido grandioso. É um ícone. Monalisa não tem seu caso retratado. Mas retrata a arte, que é obra dos homens.
Ainda to pra assistir algum filme do Oliveira que não seja uma fascinante obra-prima...
"Senhoras e senhores, essa é a humanidade que todos nós pertencemos, cada um olhando só para si" - diz o intruso.
O filme começa com um intruso invadindo uma peça, frustrando os planos de quem teria pago para vê-lo, para falar sobre "o seu caso", pensando que o seu caso merecia uma espécie de atenção extraordinária. De repente, mais pessoas entram na peça, fazendo parte ou não do elenco original, querendo a mesma atenção para os seus casos. Todos os casos nesta parte do filme tem sua irrelevância refletida em um palco vazio.
A segunda parte começa. O primeiro vídeo da peça é repetido, mas dessa vez ele está em preto e branco e silenciado. Outro personagem estranho aparece na peça para contar o seu caso, dessa vez um narrador que se sobrepõe ao vídeo original emudecido. O narrador traz um texto mais profundo do que as outras trivialidades ao que o elenco predecessor queria dizer, e este "aumento de importância" pode ser visto porque era o suficiente para silenciar os casos da outra equipe. Embora o nível de discurso teve um aumento, o palco permanece vazio e fecha as cortinas.
A terceira parte começa. O novo aumento do nível do discurso transforma os casos do primeiro elenco em casos tão estúpidos que eles foram até satirizados, que pode ser visto na substituição do áudio original para um texto aleatório de Beckett. Durante a mesma confusão da primeira parte, com a busca por atenção do elenco e etc., um novo intruso invade a peça, agora, um desconhecido, que prepara um projetor e projeta um vídeo, em que o conteúdo é, basicamente, a desgraça, como a pobreza e guerra. Aqui vemos o início de uma etapa: o elenco da primeira parte reconhece a estupidez de seus casos e permanece em silêncio para assistir o "caso do vídeo", também reconhecendo a existência de uma enorme quantidade de "casos" mais importantes do que a deles.
A quarta parte começa, com o diálogo entre Jó e Deus. Exposto em um cenário anacrônico, com a terceira parte "emprestando" seu contexto (a desgraça mostrada no vídeo) para a quarta parte, para reforçar a existência de uma desgraça maior e universal contra casos particulares. Aqui, a pessoa quer, devido a sua lepra, uma extraordinária atenção: uma atenção que pode até enfrentar Deus, falando duma possível injustiça divina. A hanseníase é, sem dúvida, um caso sério, mas o conjunto descrito, e o desprezo de seus parceiros ouvindo o caso, reforça, para nós e Jo, a irrelevância do caso. Então Jó, através da reflexão, da conduta provocativa de seus parceiros e da própria postura de Deus, reconhece a irrelevância do seu caso. Depois do arrependimento de Jó, ele ganha uma "recompensa" de um Deus, e o prêmio é: um cenário maravilhoso (destinado a ser a sua casa); a lepra é curada; seu gado é aumentado e; especialmente, um palco. Seu caso de superação é muito mais atraente do que a banalidade dos anteriores, refletido em um palco cheio dando atenção "para o seu caso".
Reflexivo sobre a vida, sobre o teatro e sobe o cinema... Meu preferido!