Um casal preso entre a violência e a traição somam suas vítimas. Ao longo de um dia, esta família viverá as consequências do amor, mas ficarão sem resposta.
O Panaca (2022) – Crítica Não há falas nos primeiros minutos do filme e isso incomoda muito, pois toda a construção das cenas indica uma tensão. Algo parece prestes a explodir e esperamos, como de costume, gritos de raiva e longos diálogos, mas não é essa a proposta da cineasta. Não é preciso de palavras para construir uma trama. A sétima arte concedeu ao ator a possibilidade de expressão por meio dos gestos, closes e planos detalhes. O cinema nos concede a oportunidade de “vermos e ouvirmos” o silêncio dos atores. E isso, o curta-metragem O Panaca, dirigido e roteirizado por Fahya Kury Cassins, nos mostra.
A construção narrativa direciona o olhar do espectador para questionar as ações dos personagens. Todas as sequências nos levam sempre a terminar perguntando, por quê? O roteiro trabalha com as reações do público. Não sabemos se a traição foi o estopim para a violência do casal, aparentemente é a fuga, mas isso não está claro e não é um problema narrativo. Os fatos estão consumados e a cineasta deseja nos provocar a imaginar todas as consequências. Como ele fez? Ela está em perigo? Quem era a pessoa? As perguntas acumulam-se no decorrer da obra.
Quando o filme começa não precisamos nos esforçar para notar a preocupação da esposa, interpretada por Nara Nowischk. A ebulição da água na chaleira marca o fim da paciência. O olhar para o nada e a desatenção com a filha, interpretada por Júlia Hilger, sinalizam o nervosismo. Ela não consegue parar de olhar para o celular. A atriz consegue assumir o papel de uma personagem de corpo presente, mas com a cabeça nas nuvens, alguém consumida pelos próprios pensamentos.
Também não nos esforçamos para notar as emoções do marido, interpretado por Luciano Flora. Há um misto de sentimentos negativos transmitidos pelo personagem. Todos sinalizam violência. Quando ele segura o volante com raiva, como se enganasse alguém ou várias e várias vezes faz o sinal de não com a cabeça, imaginamos uma série de situações. O lugar em que ele aparece pela primeira vez e o carro sempre em movimento, sugerem algo ruim, como a roupa suja de sangue.
As perguntas sobre o casal aumentam quando assistimos aos flashbacks do marido. Ele está sempre com a filha. O clima das memórias é sempre feliz, como as cores do figurino destacam. Ao mesmo tempo, onde estava a mãe? Qual o motivo de ela não participar das memórias felizes com o marido e a filha? O celular nos mostra algo, não sabemos em detalhes, mas entendemos o problema e nossa atenção é direcionada a questionar as motivações e razões do casal. Tanto para a traição, como para algo pior.
A ausência da voz devolve ao cinema, a visualidade de sua origem, quando o som ainda não havia sido inventado. Claro, aqui a situação é bem diferente, existe o som diegético e uma trilha sonora original, composta por Anna Viliczinski. Isso não diminui o mérito de dois elementos essenciais para construção da narrativa, os atores e a montagem construída por Marcelo Eduvirge. Sem o elemento da fala, os atores foram obrigados a trabalhar o gesto, o olhar e a expressão corporal. Todas as cenas são organizadas para dirigir a percepção do espectador. O filme funciona e consegue atingir seu objetivo devido a montagem da obra ser construída na mente do público, com as sugestões e provocações da cineasta em cada plano.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de Áudio e Vídeo
O Panaca (2022) – Crítica
Não há falas nos primeiros minutos do filme e isso incomoda muito, pois toda a construção das cenas indica uma tensão. Algo parece prestes a explodir e esperamos, como de costume, gritos de raiva e longos diálogos, mas não é essa a proposta da cineasta. Não é preciso de palavras para construir uma trama. A sétima arte concedeu ao ator a possibilidade de expressão por meio dos gestos, closes e planos detalhes. O cinema nos concede a oportunidade de “vermos e ouvirmos” o silêncio dos atores. E isso, o curta-metragem O Panaca, dirigido e roteirizado por Fahya Kury Cassins, nos mostra.
A construção narrativa direciona o olhar do espectador para questionar as ações dos personagens. Todas as sequências nos levam sempre a terminar perguntando, por quê? O roteiro trabalha com as reações do público. Não sabemos se a traição foi o estopim para a violência do casal, aparentemente é a fuga, mas isso não está claro e não é um problema narrativo. Os fatos estão consumados e a cineasta deseja nos provocar a imaginar todas as consequências. Como ele fez? Ela está em perigo? Quem era a pessoa? As perguntas acumulam-se no decorrer da obra.
Quando o filme começa não precisamos nos esforçar para notar a preocupação da esposa, interpretada por Nara Nowischk. A ebulição da água na chaleira marca o fim da paciência. O olhar para o nada e a desatenção com a filha, interpretada por Júlia Hilger, sinalizam o nervosismo. Ela não consegue parar de olhar para o celular. A atriz consegue assumir o papel de uma personagem de corpo presente, mas com a cabeça nas nuvens, alguém consumida pelos próprios pensamentos.
Também não nos esforçamos para notar as emoções do marido, interpretado por Luciano Flora. Há um misto de sentimentos negativos transmitidos pelo personagem. Todos sinalizam violência. Quando ele segura o volante com raiva, como se enganasse alguém ou várias e várias vezes faz o sinal de não com a cabeça, imaginamos uma série de situações. O lugar em que ele aparece pela primeira vez e o carro sempre em movimento, sugerem algo ruim, como a roupa suja de sangue.
As perguntas sobre o casal aumentam quando assistimos aos flashbacks do marido. Ele está sempre com a filha. O clima das memórias é sempre feliz, como as cores do figurino destacam. Ao mesmo tempo, onde estava a mãe? Qual o motivo de ela não participar das memórias felizes com o marido e a filha? O celular nos mostra algo, não sabemos em detalhes, mas entendemos o problema e nossa atenção é direcionada a questionar as motivações e razões do casal. Tanto para a traição, como para algo pior.
A ausência da voz devolve ao cinema, a visualidade de sua origem, quando o som ainda não havia sido inventado. Claro, aqui a situação é bem diferente, existe o som diegético e uma trilha sonora original, composta por Anna Viliczinski. Isso não diminui o mérito de dois elementos essenciais para construção da narrativa, os atores e a montagem construída por Marcelo Eduvirge. Sem o elemento da fala, os atores foram obrigados a trabalhar o gesto, o olhar e a expressão corporal. Todas as cenas são organizadas para dirigir a percepção do espectador. O filme funciona e consegue atingir seu objetivo devido a montagem da obra ser construída na mente do público, com as sugestões e provocações da cineasta em cada plano.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de Áudio e Vídeo