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A lenda da guitarra Paco de Lucia concordou em colaborar com o diretor Francisco Sanchez Varela (Curro) neste documentário sobre sua vida e algumas das lições que ele aprendeu ao longo de seis décadas de dedicação à música flamenca. Ainda criança, aos sete anos, começou a tocar guitarra, o que fez magistralmente até sua morte em fevereiro de 2014, ao 66 anos de idade.
Duas semanas mais tarde, seu filho Curro isolou-se em um estúdio de edição para tentar acabar com o que tinha sido o seu projeto de vida nos últimos quatro anos: Contar a vida do pai num documentário. La Busqueda (The Search) é este filme, em que Curro revela num retrato pessoal a lenda da guitarra, a figura de seu pai.
O filme apresenta uma série de entrevistas íntimas, por vezes hilariantes, com o mestre da Andaluzia, e a abundância de sua música incrível. Nós aprendemos sobre seu relacionamento com outros grandes nomes do Flamenco, como o cantor Camaron, e músicos de jazz, como John McLaughlin, Al Di Meola e Chick Corea, entre outros.
De Lucia atribui o sucesso ao trabalho duro e dedicação, e aprender com aqueles que o rodeavam. Mas não era unanimidade- vivia sob o julgamento constante dos puristas do Flamenco que ficaram chateados por suas excursões pelo território jazz, por exemplo.
No final, no entanto, mesmo seus críticos mais severos não tinha dúvidas quanto à qualidade única e superlativa de sua música.
"The Search" foi destaque do Festival de Cinema de San Sebastian em 2014.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Paco de Lucia - A Busca é um deleite para os ouvidos de qualquer pessoa que se interessa por expressões musicais internacionais fora do eixo Estados Unidos - Reino Unido. O longa-metragem não escapa da tradicional fórmula composta por entrevistas com da personalidade que é foco do filme + imagens de arquivo + depoimentos de companheiros na arte e na vida, mas acerta ao retratar o mestre de Andaluzia, morto em 2014, de forma sincera, como alguém que entende e respeita o próprio legado, mas ainda assim tem inseguranças e não consegue hipervalorizar o próprio talento.
O trabalho foca estritamente na vida profissional de Paco, o que causa certa estranheza quando se descobre que o filme é dirigido pelo cineasta estreante Curro Sánchez, filho do lendário músico.
Acompanhamos seis décadas de vida do maior expoente da guitarra flamenca com passagens bastante didáticas sobre a trajetória do músico, o que em nenhum momento se transforma em algo enfadonho graças a maneira quase teatral que Lucía narra os acontecimentos de sua própria vida. Há até espaço para momentos espirituosos, como quando Paco diz que parou de se afirmar de esquerda quando ganhou seus primeiros milhões e guardou tudo no banco, sem fazer doações ou construir escolas.
Para ouvidos desatentos ou desacostumados, a música flamenca pode parecer um tanto derivativa, mas o filme trata de dissecar o gênero, que evoluiu junto com a carreira de Paco de Lucía (o que o fez ser acusado de blasfemar o ritmo espanhol pelos mais puristas quando incorporou influências do jazz, música latina e indiana em seus trabalhos). Aliás, o longa-metragem não priva o artista de ter que falar sobre as críticas ao seu trabalho, que podem ter perdido relevância na avaliação contemporânea da obra do músico, mas, fizeram o artista perder o sono, como ele próprio assume. De acordo com o músico, outros guitarristas flamencos diziam que ele não fazia música, era apenas um instrumentista veloz e mais nada. Em um depoimento breve, o guitarrista Carlos Santana mostra o quanto infundado é esse argumento. Assim como John Coltrane, Paco de Lucía era capaz de se expressar musicalmente com uma precisão técnica impressionante e ter densidade ao mesmo tempo.
Curiosamente, o maior sucesso do compositor é uma rumba e não uma peça de música flamenca. Quando o filme aborda a gênese da magnum opus "Entre dos Águas", a montagem une diversas versões ao vivo da faixa em diferentes arranjos, em um grande momento da projeção.
Para os músicos, as reflexões sobre a função do improviso e a revelação de que Paco passou a maior parte de sua carreira aflito por não ter alguns conhecimentos básicos de teoria musical são pontos preciosos.
Há um certo desequilíbrio entre os trechos que falam sobre o passado e os trechos que acompanham a banalidade da rotina de Lucía na época em que o documentário foi rodado. Outra questão problemática é a pouca relevância dada para a relação do instrumentista como seu irmão Ramón de Algeciras, com quem colaborou por muitos anos. Ainda assim, o filme se firma como um competente e importante registro sobre o maior músico espanhol de sua geração no limiar de sua existência.