Um dia estafante de viagem a trabalho. Seus pés não aguentavam mais, mas o dinheiro falava mais alto. Então a pandemia colocou-o diante de uma escolha.
Passagem de Volta (2022) – Crítica Um longo período dedicado ao trabalho ou alguma responsabilidade de maneira intensa, sem nenhuma folga ou espaço para respirar, esgota qualquer pessoa. Mesmo os mais fortes, em algum momento se abatem e querem deixar de existir. É um sentimento comum, fruto do conflito entre o querer e o poder. Na maior parte das vezes, as pessoas aceitam não poder, enterram seus sonhos e esquecem. Quando isso não ocorre, nascem as frustrações e acabam vivendo uma vida amargurada, sem sentido e cheias de pesares.
O personagem principal do curta-metragem Passagem de Volta é uma dessas pessoas. Ele está suturado com o trabalho e no ápice do estresse. Não aguenta mais as brigas com a esposa e sente falta do convívio com a filha. Queria estar mais presente, mas para prover uma vida melhor para eles, precisa passar os dias fora. Parece não existir outra possibilidade, mesmo quando foge para ver o mar.
Apesar de parecer ser um homem com dinheiro, algumas atitudes nos forçam a duvidar da situação financeira do personagem. Na primeira cena, ele reclama do preço do café, mas após o cancelamento do voo, nada parece caro. Ele distribui dinheiro onde vai. Dá uma gorjeta à garçonete, interpretada por Ianca Michelini, e paga o dobro para o taxista, interpretado por Lucas Ukah. O esbanjamento pode ser fruto de um desprendimento, nada mais importa, mas também pode ser uma libertação. Quando ele vai beber uma cerveja, pois ele diz hoje poder, a pergunta é: quando não pode?
O motor narrativo do curta-metragem é o conflito interno do personagem, a trama avança quando o homem questiona as escolhas feitas em sua vida. O avião não ter decolado é apenas um empurrão. O filme prende nossa atenção e mantém nosso interesse vivo devido a condução da direção, quem consegue administrar durante toda a obra, o suspense sobre o destino do personagem.
Isso nós vemos, na forma da montagem, ao parecer recortar duas sequências e espalhá-las em uma linha do tempo. Pode ser confuso no início, bagunçar um pouco, deixar o espectador com dúvidas, mas nenhuma ponta fica solta. Durante todo o filme, por exemplo, uma cena funciona como um presságio de algo ruim, aparece, entre uma sequência e outra. Há também duas cenas dos pés, uma ao início e outra ao final. As duas conectam toda a narrativa.
O ator, Welington Moraes, consegue encarnar um personagem com mudanças bruscas de temperamento, mas com momentos de alívio. Quando caminha não vemos vida na forma de andar, nem força em seus gestos, parece um zumbi, se arrasta para os lugares. Isso muda quando estoura no quarto, explode com a esposa, mas fala tranquilamente com a filha, ao contar uma história de ninar. Ele demonstra um grande talento em convencer com as oscilações, como na praia, um momento que parece totalmente louco do personagem.
Ao retratar o dia estafante de homem de negócios, a diretora e roteirista, Fahya Kury Cassins, consegue mostrar como a rotina pode se tornar uma prisão e como isso tolhe toda a personalidade. Ela retorna a um assunto já abordado em seu outro filme, Fim de Tarde: o tempo dedicado a nossa felicidade e a quem amamos. Passagem de Volta, aprofunda o assunto, muda a abordagem e nos força a pensar sobre quanto tempo dedicamos àquilo que realmente importa.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de áudio e vídeo
Passagem de Volta (2022) – Crítica
Um longo período dedicado ao trabalho ou alguma responsabilidade de maneira intensa, sem nenhuma folga ou espaço para respirar, esgota qualquer pessoa. Mesmo os mais fortes, em algum momento se abatem e querem deixar de existir. É um sentimento comum, fruto do conflito entre o querer e o poder. Na maior parte das vezes, as pessoas aceitam não poder, enterram seus sonhos e esquecem. Quando isso não ocorre, nascem as frustrações e acabam vivendo uma vida amargurada, sem sentido e cheias de pesares.
O personagem principal do curta-metragem Passagem de Volta é uma dessas pessoas. Ele está suturado com o trabalho e no ápice do estresse. Não aguenta mais as brigas com a esposa e sente falta do convívio com a filha. Queria estar mais presente, mas para prover uma vida melhor para eles, precisa passar os dias fora. Parece não existir outra possibilidade, mesmo quando foge para ver o mar.
Apesar de parecer ser um homem com dinheiro, algumas atitudes nos forçam a duvidar da situação financeira do personagem. Na primeira cena, ele reclama do preço do café, mas após o cancelamento do voo, nada parece caro. Ele distribui dinheiro onde vai. Dá uma gorjeta à garçonete, interpretada por Ianca Michelini, e paga o dobro para o taxista, interpretado por Lucas Ukah. O esbanjamento pode ser fruto de um desprendimento, nada mais importa, mas também pode ser uma libertação. Quando ele vai beber uma cerveja, pois ele diz hoje poder, a pergunta é: quando não pode?
O motor narrativo do curta-metragem é o conflito interno do personagem, a trama avança quando o homem questiona as escolhas feitas em sua vida. O avião não ter decolado é apenas um empurrão. O filme prende nossa atenção e mantém nosso interesse vivo devido a condução da direção, quem consegue administrar durante toda a obra, o suspense sobre o destino do personagem.
Isso nós vemos, na forma da montagem, ao parecer recortar duas sequências e espalhá-las em uma linha do tempo. Pode ser confuso no início, bagunçar um pouco, deixar o espectador com dúvidas, mas nenhuma ponta fica solta. Durante todo o filme, por exemplo, uma cena funciona como um presságio de algo ruim, aparece, entre uma sequência e outra. Há também duas cenas dos pés, uma ao início e outra ao final. As duas conectam toda a narrativa.
O ator, Welington Moraes, consegue encarnar um personagem com mudanças bruscas de temperamento, mas com momentos de alívio. Quando caminha não vemos vida na forma de andar, nem força em seus gestos, parece um zumbi, se arrasta para os lugares. Isso muda quando estoura no quarto, explode com a esposa, mas fala tranquilamente com a filha, ao contar uma história de ninar. Ele demonstra um grande talento em convencer com as oscilações, como na praia, um momento que parece totalmente louco do personagem.
Ao retratar o dia estafante de homem de negócios, a diretora e roteirista, Fahya Kury Cassins, consegue mostrar como a rotina pode se tornar uma prisão e como isso tolhe toda a personalidade. Ela retorna a um assunto já abordado em seu outro filme, Fim de Tarde: o tempo dedicado a nossa felicidade e a quem amamos. Passagem de Volta, aprofunda o assunto, muda a abordagem e nos força a pensar sobre quanto tempo dedicamos àquilo que realmente importa.
João Diego Leite é jornalista, crítico de cinema e produtor de áudio e vídeo