Em 1769, o filósofo Edmund Burke foge de Londres, dos cobradores de dívidas e de uma crescente crise de meia-idade para se aventurar em uma grande excursão nos Alpes a fim de reescrever seu livro sobre o sublime. Burke perdeu tudo em investimentos arriscados e seu futuro depende do sucesso da nova edição de sua obra-prima da juventude e de seu encontro com a natureza. Após perder sua equipe, ele passa a viajar acompanhado apenas de uma garota nativa. A viagem, no entanto, é um desastre: Burke não consegue sair da cidade e se vê perdido, lutando para encontrar os Alpes. Como se não bastasse, ele descobre que odeia a natureza. A jovem, no entanto, se vê profundamente envolvida com tudo ao seu redor, o que deixa Burke ressentido e com ciúme da fácil conexão da menina com os elementos selvagens. A jornada de Burke para desvendar os mistérios do sublime vai então se transformando em uma narrativa cada vez mais desesperada e patética.
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O final foi alguma referência ao Pequeno Príncipe?
socorro que sinopse boaaa af cade o link
Cada dia que passa me decepciono mais com "pensadores ocidentais".
PROBLEMAS COM A NATUREZA é um filme de 2020, dirigido por Illum Jacobi, estrelado por Antony Langdon e que faz parte da mostra internacional de cinema de São Paulo
O filme se passa no ano de 1769 e temos como protagonista Edmund Burke, um filósofo inglês, que de maneira repentina, decidi viajar para França com o objetivo de visitar o Alpes, para então ter um “encontro com o Sublime”, conceito esse que Burke é obcecado.
Consigo, Burke leva uma empregada chamada Awak, interpretada pela Nathalia Acevedo
Talvez não seja de conhecimento geral, eu pelo menos não sabia disso, mas Edmund Burke realmente existiu. Esse fato não tem relevância no filme, visto que a versão de Antony é completamente extravagante e toma todas as liberdade possíveis para desconstruir a imagem do verdadeiro Edmund Burke, que poderia ser visto como um homem nobre, culto, grandioso, ao ponto de até ter uma estátua em sua homenagem nos Estados Unidos.
Vou abordar essa questão da personalidade extravagante de Burke um pouco mais a frente, mas de forma rápida, o que quero dizer é que é comum retratarmos personalidades, como filósofos, escritores, políticas do passado de forma muito positivo, como se eles tivessem alguma glória, mas se pararmos pra pensar e analisar um pouco mais o contexto, vamos perceber que eles se beneficiam de sistemas que eram nocivos à outras pessoas, como na relação de classe e escravidão.
Edmund Burke possui uma forma bem específica de pensar, que eu acredito estar relacionada ao romantismo. Eu não tenho um conhecimento tão sólido sobre isso, então é apenas um chute.
Burke é cheio de ideias subjetivas, desconexas com o mundo real. Ele passa o filme todo lendo frases de um livro (acredito que seja de sua autoria, mas não tenho certeza) sobre a natureza. Enaltecendo-a, de forma exageradamente romântica.
Burke fala sobre o Sublime, uma sensação que ele descreve como magnifica, como algo que o move na vida.
PROBLEMAS COM A NATUREZA possui um ar cômica, mas bem sútil. O humor vêm através de dois pontos.
O primeiro ponto é o artifício da câmera na mão, que dá ao filme, uma pegada meio documental, atrelado com alguns jump cuts que fortalecem essa ideia. Como se estivéssemos vendo uma série como THE OFFICE ou MODERN FAMILY, mas sem o artifício do zoom.
Essa maneira de tratar a câmera quebra um pouco o teor nobre que o filme teria, como em filmes como BARRY LYNDON ou AMADEUS.
O segundo ponto, e provavelmente o principal responsável pela comédia, é a atuação de Antony Langdon.
Antony dá uma roupagem extremamente caricata à Edmund Burke, que é tratado como um homem mimado, rude, arrogante, desprezível, e acima de tudo: patético. Ele se preenche dos elementos da nobreza para esconder o quão inferior ele é. O quanto não tem autonomia para absolutamente nada.
Em sua viagem, vemos que Burke age de forma extremamente rude com Awak. Faz questão de deixar claro a relação entre senhor e servo que existe entre os dois. Esse é mais um elemento que tira a suposta nobreza que o personagem teria, pois é bem desconfortável ver ele destratando a moça.
Ao longo do filme fiquei me perguntando qual era o sentido em mostrar essa moça sendo humilhada em diversos momentos.
Depois de muito pensar cheguei a uma espécie de conclusão. Para chegarmos nesse pensamentos precisamos explorar a personagem.
A moça é um empregada, sem muitas pretensões. Simples por assim dizer. Pelo menos é isso que ela é apresentada no filme. Ela não quer glória ou nobreza. Não está em busca de uma experiência transcendental, só está ali para fazer seu trabalho que é cuidar de Edmund.
Em contrapartida, em diversos momentos do filme é mostrado a conexão que ela consegue ter com a natureza e isso é muito sútil. Algo que gostei muito.
*SPOILERS*
Em um momento ela se sente segura para tomar banho nua em uma cachoeira, ela colhe cogumelos, fica fascinada por um servo, consegue se masturbar enquanto acaricia o musgo presos sobre as rochas.
Sobre essa último ação, acontece um momento interessante, quando Edmund avista a garota em seu momento íntimo e nota o que ela faz com a planta. Edmund tenta copiar o gesto, mas mostra-se estéril nesse sentido. Não consegue entender o que teria de instigante nesse simples pedaço de planta.
O problema que Edmund estabelece com a natureza está relacionado ao controle. Burker não consegue controlá-la, não consegue moldá-la.
*SPOILERS*
Isso fica mais evidente quando no final do filme, Awak o abandona, mesmo depois de ter ido tão longe com ele.
Por mais que a natureza se oferece de certa forma a Edmund, ele a recusa, pois ele só deseja ter contato com ela a partir da perspectiva de senhor e servo. E Edmund teme toda relação que desestabilize essa dinâmica.
O personagem nós diz:
Esse é o problema com a natureza… Ela é tão insistente!
Ou seja, tão insistente em se render aos caprichos de Edmund. A natureza é seja, selvagem. Algo que o ser humano não pode controlar.
Edmund não consegue acessar o sublime através da natureza, porque ele acaba percebendo que a odeia e que a tem
No filme temos uma cena onde Edmund vê um homem morto e simplesmente fica paralisado. A morte é um fenômeno comum na natureza, mas isso espanta Bunker. A morte talvez seja um caminho para o sublime, mas isso também espanta Bunker.
No final, Edmund sobre até os alpes e não encontra o Sublime, enquanto sua criada finalmente o abandona. Frustrado, ele se desfaz de sua peruca, vira seu casaco do avesso e vai para outro destino.
O enquadramento final é uma clara e direta referência a pintura “Caminhante sobre o mar de névoa” de Caspar David Friedrich, que é comumente associada ao movimento romântico (me corrijam se eu estiver errado) E o que Edmund faz ao se deparar com o símbolo máximo do romantismo? Ele urina sobre ele, por fim, selando seu desprezo pela natureza.
PROBLEMAS COM A NATUREZA é um filme sobre um personagem arrogante, egocêntrico e patético, que tenta encontrar o sublime a partir de uma experiência com a natureza, só que ele acaba se deparando com algo que está muito além de seu alcance.
A natureza é insistente e não se dobra às vontades de Edmund Burke que não é capaz, nem por um momento, de se render aos convites que ela propõe, levando-o à uma jornada cômica, constrangedora e romântica.