Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).
Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).