A busca por conexão, identidade, reconhecimento, amor. Por alguém que absorve tudo ao contrário. Ingrid é alguém vazio, que procura se preencher de outras pessoas para, talvez, conseguir enxergar a si mesma, e se fazer percebida. Mas, nessa busca, ela não só se confunde: replica gostos, trejeitos, escolhas estéticas, tudo o que for possível do outro. Ou melhor, de um outro idealizado, como o livro que Taylor dizia ser seu favorito, mas nunca leu, e que Ingrid lê, reflete e comenta sobre. O que sobra quando quem se replica é, também, vazio? Mesmo Erza, a pessoa mais preocupada com "autenticidade", em se expressar de forma verdadeira e "profunda", ironicamente se percebe vazio. Sua arte é vazia, plástica, reprodutível. Como se expressar de forma profunda quando o que se encontra por dentro também é vazio?
Os parâmetros da realidade se perdem quando o amor do outro é buscado a qualquer custo: os caminhos naturais, mais curtos e intuitivos para obtê-lo, são substituídos por tramas conspirativas intermináveis e atos cometidos em cima de convicções totalmente equivocadas. Tudo é levado ao extremo, e justificado pelas próprias inseguranças e desejos impulsivos. Todo o resto é secundário, o lugar onde se vive, a própria subsistência, conexões reais e não mediadas por status atribuídos por curtidas no Instagram. Por fama, dinheiro, um casamento "perfeito". O mundo se torna pequeno, e ensurdecedor. Quanto menos se é próximo de algo, entendido, menos se consegue ver suas nuances, tudo parece igual, as respostas fáceis parecem as mais verdadeiras. Se a sociedade costuma valorizar quem é rico, famoso, "feliz", quem sou eu pra questionar o que é realmente importante?
O filme começa e termina da mesma forma, indicando que é um ciclo antigo, que as pessoas em si são substituíveis, o que importa é o movimento de perseguição daquilo que falta, e do que se quer ser. De se tornar um produto. No fim, como Taylor conseguiu, Ingrid consegue sua fama. Só que de outra maneira, tornando fetiche um momento limite, ainda que autêntico, complexo, verdadeiro, pesado emocionalmente. Em que se mostra ela mesma, finalmente. Mas as pessoas só viram uma pequena parte de alguém muito fragilizado e doente: como Dan, que foi visitá-la no hospital sem saber a verdade sobre o murro que levou no olho, sobre como foi enganado. Essa pequena parte, por mais verdadeira que tenha sido, nunca teria expressado a verdade de Ingrid, toda a sua complexidade.
Essa experiência por "recortes" da vida de outras pessoas, mediada pelo que se escolhe postar ou não, torna, por esse mesmo motivo, o acolhimento ou rejeição a uma figura ou situação muito mais precários. É difícil formar discernimento em um mundo retalhado como as redes sociais. Nicky, outra pessoa também vazia, imprevisível, não confiável, conecta rápido com Dan, talvez a pessoa mais "normal" do filme, com todas as suas questões. Porque se conecta pela superfície, gostos em comum, quando os motivos por trás desses gostos podem ser muito diferentes, ou uma performance mais "aberta", que nada mais é do que uma máscara para manipular, suprir validação, status.
Infelizmente Ingrid nunca vai conseguir substituir a própria mãe com suas "girl crushes", mas provavelmente vai morrer tentando. Talvez Borderline, talvez, não. De qualquer maneira, o vazio precisa continuar existindo para que haja o movimento perpétuo de se perseguir o outro. Parar e enxergar a própria insignificância é insuportável demais.
Ingrid Vai Para o Oeste
3.3 253 Assista AgoraA busca por conexão, identidade, reconhecimento, amor. Por alguém que absorve tudo ao contrário. Ingrid é alguém vazio, que procura se preencher de outras pessoas para, talvez, conseguir enxergar a si mesma, e se fazer percebida. Mas, nessa busca, ela não só se confunde: replica gostos, trejeitos, escolhas estéticas, tudo o que for possível do outro. Ou melhor, de um outro idealizado, como o livro que Taylor dizia ser seu favorito, mas nunca leu, e que Ingrid lê, reflete e comenta sobre. O que sobra quando quem se replica é, também, vazio? Mesmo Erza, a pessoa mais preocupada com "autenticidade", em se expressar de forma verdadeira e "profunda", ironicamente se percebe vazio. Sua arte é vazia, plástica, reprodutível. Como se expressar de forma profunda quando o que se encontra por dentro também é vazio?
Os parâmetros da realidade se perdem quando o amor do outro é buscado a qualquer custo: os caminhos naturais, mais curtos e intuitivos para obtê-lo, são substituídos por tramas conspirativas intermináveis e atos cometidos em cima de convicções totalmente equivocadas. Tudo é levado ao extremo, e justificado pelas próprias inseguranças e desejos impulsivos. Todo o resto é secundário, o lugar onde se vive, a própria subsistência, conexões reais e não mediadas por status atribuídos por curtidas no Instagram. Por fama, dinheiro, um casamento "perfeito". O mundo se torna pequeno, e ensurdecedor. Quanto menos se é próximo de algo, entendido, menos se consegue ver suas nuances, tudo parece igual, as respostas fáceis parecem as mais verdadeiras. Se a sociedade costuma valorizar quem é rico, famoso, "feliz", quem sou eu pra questionar o que é realmente importante?
O filme começa e termina da mesma forma, indicando que é um ciclo antigo, que as pessoas em si são substituíveis, o que importa é o movimento de perseguição daquilo que falta, e do que se quer ser. De se tornar um produto. No fim, como Taylor conseguiu, Ingrid consegue sua fama. Só que de outra maneira, tornando fetiche um momento limite, ainda que autêntico, complexo, verdadeiro, pesado emocionalmente. Em que se mostra ela mesma, finalmente. Mas as pessoas só viram uma pequena parte de alguém muito fragilizado e doente: como Dan, que foi visitá-la no hospital sem saber a verdade sobre o murro que levou no olho, sobre como foi enganado. Essa pequena parte, por mais verdadeira que tenha sido, nunca teria expressado a verdade de Ingrid, toda a sua complexidade.
Essa experiência por "recortes" da vida de outras pessoas, mediada pelo que se escolhe postar ou não, torna, por esse mesmo motivo, o acolhimento ou rejeição a uma figura ou situação muito mais precários. É difícil formar discernimento em um mundo retalhado como as redes sociais. Nicky, outra pessoa também vazia, imprevisível, não confiável, conecta rápido com Dan, talvez a pessoa mais "normal" do filme, com todas as suas questões. Porque se conecta pela superfície, gostos em comum, quando os motivos por trás desses gostos podem ser muito diferentes, ou uma performance mais "aberta", que nada mais é do que uma máscara para manipular, suprir validação, status.
Infelizmente Ingrid nunca vai conseguir substituir a própria mãe com suas "girl crushes", mas provavelmente vai morrer tentando. Talvez Borderline, talvez, não. De qualquer maneira, o vazio precisa continuar existindo para que haja o movimento perpétuo de se perseguir o outro. Parar e enxergar a própria insignificância é insuportável demais.
Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
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